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Cultura  
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Alá contra Satã
Perseguição sofrida pelos metaleiros islâmicos é tema de filme e de livro

IVAN CLAUDIO

AFP
REFUGIADOS A banda iraquiana Acrassicauda, hoje na Turquia, tocou em meio a bombardeios

Camiseta preta com estampa da banda Iron Maiden e véu muçulmano cobrindo a cabeça. Esse look não saiu da imaginação de um estilista adepto de misturas culturais. Foi criado pelas muhajababes (muhaja significa “véu” em árabe), garotas muçulmanas vidradas em heavy metal. Com mais da metade da população abaixo dos 25 anos e conectada pela internet com todas as modas internacionais, o mundo árabe está sendo obrigado a conviver com mais uma contradição: os jovens resistentes ao radicalismo religioso dos mulás estão encontrando nas diversas modalidades do “metal” a identidade de grupo e a linguagem da rebeldia. Essa nova faceta da cultura islâmica está sendo revelada pelo filme Heavy metal in Baghdad, produzido por Spike Jonze, sobre a trajetória da banda iraquiana Acrassicauda, e pelo livro Heavy metal islam: rock, resistance and the struggle for the soul of Islam, do historiador e jornalista americano Mark Le- Vine, recém-lançado nos EUA.

Cultuado no Ocidente por jovens ligados em fantasias apocalípticas e em evocações ingênuas ao demônio, em alguns países árabes o heavy metal pode levar os seus adeptos à prisão. Para os fundamentalistas, metaleiros são seguidores de satã e dançam balançando a cabeça da mesma forma que fazem os judeus quando estão rezando. Praticam atos “capazes de minar a fé de um muçulmano”. Mesmo nesse cenário, as bandas do gênero proliferam. Em seu livro, LeVine faz um inventário do rock pesado no Oriente Médio, destacando trabalhos de grupos dos quais ninguém ouviu falar – mas que não ficarão anônimos para sempre, já que todos eles têm vídeos no YouTube e páginas no MySpace. Entre as descodescobertas do historiador americano estão os grupos Lazywall (Marrocos), Hate of Suffocation (Egito), The Kordz (Líbano), Junoon (Paquistão) e Arthimoth (Irã). O vocalista dessa última banda costuma se apresentar com uma camiseta trazendo os dizeres “seu Deus está morto”.

A reação, claro, vem na mesma medida. O governo iraniano costuma confiscar os CDs de todo roqueiro que se exceda nos solos de guitarras ou “enlouqueça” bastante no palco. É o caso da banda O-Hum, cujo álbum foi recolhido pelo Ministério da Cultura. Em resposta, os músicos disponibilizaram as canções na internet. O mesmo procedimento foi adotado pela banda iraquiana Acrassicauda. É justamente a luta desses jovens iraquianos para seguir a carreira num país em guerra que está fazendo o sucesso do filme Heavy metal in Baghdad, exibido nos festivais de Toronto e Berlim. Na última apresentação que fizeram em sua cidade, em 2005, o show foi interrompido pela explosão de uma bomba vinda da artilharia americana – a cena aparece no documentário. Atualmente, os quatro músicos vivem refugiados na Turquia e sobrevivem graças a doações da comunidade metaleira mundial. Mas já podem realizar um sonho: deixar os cabelos crescer e fazer o chifrinho do demônio com os dedos mínimo e indicador, sem correr o risco de ir para trás das grades.

 

21/8/2008


 
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