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Além do bom senso
Livros de auto-ajuda incentivam comportamentos machistas ou sugerem que as mulheres abram mão de escolhas pessoais para não ficarem sozinhas

VERÔNICA MAMBRINI

MONTAGEM SOBRE FOTO SHUTTERSTOCK

Depois de passar boa parte da vida de festa em festa, gastando com roupas, cosméticos e viagens, a publicitária Cleufa Conde, 50 anos, achou motivos para uma mudança radical no estilo de vida. A chegada da maturidade fez a mulher independente, estilo “eu dou conta de tudo”, sentir que precisava se entender melhor. Solteira, foi atrás de livros. Sei que vou sair dessa, Não discuta a relação, Mulheres ousadas chegam mais longe, Mulheres inteligentes, escolhas insensatas são alguns entre muitos que ela já leu. “Estou tentando trabalhar o meu lado feminino”, explica a publicitária.

Em pessoas com o perfil de Cleufa, o ramo de autoajuda encontrou um terreno fértil. Mais da metade dos leitores do País (55%) é de mulheres, e 15% delas se declaram fiéis ao gênero. Entre os 40 e 49 anos, o número de leitoras salta para 23%, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada este ano pelo Instituto Pró-Livro. Os temas para esse público são variados, de turbinar a carreira a arrumar marido, passando por finanças pessoais para mulheres, comportamento sexual, bem-estar e auto-estima. Entre o joio e o trigo misturados nos lançamentos do setor, sobra espaço para compêndios de obviedades ou dicas duvidosas sobre qual é o caminho certeiro para levar um homem ao altar.

Apesar de boa parte dos conselhos apenas embalar as relações amorosas em senso comum, Steven Carter, autor dos best-sellers Homens gostam de mulheres que gostam de si mesmas e O que toda mulher inteligente deve saber, afirma que os exemplos dos livros “ressoam profundamente para o leitor” porque são reais, baseados em centenas de entrevistas. Os livros de Carter, que esteve na 20ª Bienal Internacional de São Paulo, venderam 350 mil cópias no Brasil e são presença freqüente nas listas de mais vendidos. Perto das receitas e fórmulas contidas em outros títulos desse segmento, os textos de Carter pegam leve com a leitora, focando no que ele chama de “hábitos relacionais saudáveis”. “Claro que cada pessoa é única e diferente. Mas muitas das nossas necessidades básicas são as mesmas”, diz ele.

As fórmulas genéricas da auto-ajuda são mais um aspecto das transições nos modelos de relacionamento. “Até 1950, os parâmetros sociais eram muito claros, mas foram caindo por terra e obrigando as pes-soas a se reinventar”, diz o psicólogo Luiz Alberto Hanns. Isso pôs abaixo as respostas de como deveria ser um namoro ou um casamento. “Pessoas que têm dificuldades porque precisam de ajustes podem achar essas idéias e dicas úteis”, afirma o psicólogo. “Dependendo do nível intelectual da freguesa, eles podem ajudar. Tem mulher – como também homens – que vive tão perdida, que algo assim até pode valer”, diz a filósofa Marcia Tiburi.

FOTOS: MURILLO CONSTANTINO/AG. ISTOÉ; GUSTAVO SCAT
“O livro levanta o astral, mesmo que não funcione”
Deborah Gibrin, que leu clássicos do gênero
“Estou tentando trabalhar o meu lado feminino”
Cleufa Conde descobriu os livros de auto-ajuda na maturidade

Bem-humorada, a arquiteta Deborah Gibrin, 32 anos, lista os livros que leu. Clássicos do gênero como Mulheres que correm com os lobos dividem as prateleiras com Mulheres magras e poderosas, passeando por assuntos como bem-estar, auto-estima e... claro, relacionamentos. Solteira, Deborah diz que não toma ao pé da letra todos os conselhos, mas mesmo assim não dispensa os livros para ajudar a enfrentar os impasses que aparecem e ir atrás do que quer. “O livro te anima, levanta o astral, mesmo que não funcione muito no longo prazo. Eles são abrangentes demais, mas talvez meus problemas é que sejam genéricos”, diz, rindo. Por que então ela continua comprando, se acha que a maior parte das orientações não dá para pôr em prática? “Eles têm capas lindas e prometem milagres, vendem uma vida perfeita”, explica.

Para ela, diante das propostas às vezes sem pé nem cabeça, o jeito é ler, se animar e dar risada. Marcia Tiburi considera que esse é o sinal mais eficaz de que os livros cumpriram sua função. “Quando alguém percebe que está sendo ridículo ao ler auto-ajuda, acho que ele se deu alta”, diz a filósofa.

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21/8/2008


 
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