
Cientistas americanos da Universidade da Califórnia publicaram nas revistas Science e Nature, simultaneamente, duas pesquisas comprovando a tese de que a matéria pode se tornar invisível sem deixar de ser matéria – essa invisibilidade é possível em três dimensões, ainda que, por enquanto, somente com minúsculos corpos. Valendo- se da nanotecnologia (capacidade tecnológica de se trabalhar com “coisas” em escala de milésimo de milímetro, o equivalente ao diâmetro de um fio de cabelo), os pesquisadores criaram pela primeira vez materiais capazes de fazer com que a luz se “dobre”, “dê a volta” e “ande para trás” quando incide sobre eles. É justamente esse malabarismo da luz em objetos tridimensionais que os torna invisíveis. Essa mesma equipe de cientistas, coordenada pelo chinês Xiang Zhang, já havia ousado “esconder” um objeto de couro de dez centímetros, mas tal peça tinha duas dimensões e a luz era, na verdade, um raio de microondas invisível a olho nu. Agora o fenômeno da invisibilidade é observado pela primeira vez na história da ciência em meio à luz que vemos normalmente no nosso dia-a-dia.
São dois os tipos de materiais que têm a propriedade de mudar o curso da luz. Um deles é fabricado com fios de prata em microtubos de alumínio e o outro é uma teia com minúsculas camadas de prata e fluoreto de magnésio. Essas peças são chamadas metamateriais porque têm uma propriedade que não é encontrada em mais nada na natureza: a propriedade da refração negativa. Ou seja: elas não refletem nem absorvem a luz, mas, ao contrário, a revertem (é nesse processo que os metamateriais somem). Quando a luz penetra em outro meio, como água ou vidro, por exemplo, há mudanças de velocidade em sua incidência. É isso que faz, por exemplo, um peixe submerso parecer mais próximo à superfície do que de fato está. Essa é a chamada refração positiva, presente na natureza.
Se a água fosse metamaterial, iria parecer que os peixes nadam fora dela |
Os metamateriais têm um ordenamento estrutural menor do que os raios eletromagnéticos e, assim, cria-se a refração negativa, com a luz se desviando para um sentido contrário do normal. Voltando-se à água, se ela própria fosse um metamaterial, o peixe iria parecer fora dela. “O objeto não projeta nenhuma sombra e desaparece como se não estivesse lá”, diz o físico John Pendry, do Imperial College de Londres. Ele foi o primeiro pesquisador a descrever, em 2006, o que os cientistas da Califórnia acabaram de comprovar na prática na semana passada. Há dois anos Pendry declarou que a teoria poderia viabilizar uma capa de invisibilidade como a do bruxo Harry Potter. O primeiro passo foi dado. Resta agora desenvolver essa invisibilidade em objetos que não pertençam somente ao campo da nanotecnologia.