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Férias geladas
Brasileiros descobrem o Pólo Norte a bordo de um navio quebra-gelo adaptado para turistas

DANIELA MENDES

LÁ EM CIMA Pires no Pólo Norte: champanhe e churrasco para comemorar a chegada ao topo

O Pólo Norte é um dos mais inacessíveis marcos geográficos do planeta. Chegar lá é estar, literalmente, no topo do mundo. Na maior parte do ano, além de ursos e focas, apenas cargueiros aventuram-se por aqueles mares, guiados por navios quebra-gelo que garantem o transporte de mercadorias pelo círculo polar ártico. No verão no hemisfério norte, porém, turistas comuns também podem viver esta experiência. Basta gostar de viagens inusitadas, cultivar um gostinho por aventura e dispor de pelo menos US$ 25 mil para gastar. Os brasileiros, que costumam ter como imagem de gelo infinito a Antártida, começam a descobrir o Pólo Norte.

DESBRAVADOR Peary:
no topo do mundo primeiro
Conquista polêmica
Por trás da conquista do Pólo Norte subsiste uma das maiores rixas da história da exploração do mundo. Os americanos Frederick Cook e Robert Peary são os personagens mais importantes dessa famosa disputa. Em setembro de 1909, os dois exploradores anunciaram que o Pólo Norte havia, finalmente, sido alcançado pelo homem. Peary fez o anúncio apenas quatro dias depois que Cook. Hoje, porém, são fortes os indícios de que Cook forjou sua conquista.

"Foi a viagem mais incrível da minha vida", diz o empresário Luciano Pires, que já subiu o Everest, no Himalaia, e o Aconcágua, na Argentina. Casado e pai de dois filhos, ele viajou sozinho e comemorou seus 52 anos a bordo de um quebra-gelo russo movido a energia nuclear confortavelmente adaptado para turistas. O motor é silencioso, mas, conforme a proa do navio avança mar adentro arrebentando as calotas polares, a sensação é de estar em um avião em constante turbulência. A viagem, viabilizada pela Quark Expeditions em navio russo com operação americana, leva em torno de 15 dias. Começa em Helsinque, na Finlândia, e ocorre apenas três vezes por ano, sempre no verão europeu. O objetivo é chegar ao que seria o ponto de 90º da terra, um marco psicológico cuja conquista é comemorada com champanhe e churrasco em pleno gelo pelos passageiros no navio. O frio de zero grau não chega a assustar, mas os dias sem noite naquela imensidão branca mexem com o metabolismo do corpo. "Tive dificuldade para dormir no início. É como se o organismo precisasse ser avisado de que é hora de desligar", diz Pires.

Na opinião dele, o contato com a natureza é o mais espetacular nesta expedição. Palestras com biólogos, glaciólogos, oceanógrafos, botânicos do ártico e historiadores municiam os passageiros com informações sobre a fauna e flora do local. Há uma biblioteca a bordo para os passageiros e um helicóptero leva os turistas a passeios na região, como o arquipélago de Franz Joseph e uma estação meteorológica russa abandonada em 1963. Em cada parada, homens armados com fuzis fazem a segurança do grupo. "Os ursos polares podem atacar. Por isso, eles não deixam ninguém sair do perímetro de segurança", diz Pires. Ele viu um urso capturar e comer uma foca.

CONTRASTE O navio é adaptado para o conforto dos passageiros. Ao lado, o urso polar caça uma foca

Curiosamente, o público deste roteiro é maduro, acima de 50 anos - e das mais diversas nacionalidades. "Quem faz esta viagem já conhece o mundo todo e quer satisfazer o desejo de estar em um ponto extremo do globo", diz Carlos Hagelberg, da Antártida Expeditions, representante da Quark no Brasil. O preço (entre US$ 25 mil e US$ 35 mil) certamente limita o espectro de viajantes. "Só o aluguel do navio custa US$ 100 mil por dia", diz Hagelberg, ao justificar o valor do pacote. Mas poucos dos 80 lugares do navio destinado aos turistas costumam ficar desocupados. Sinal de que o espírito conquistador está bem vivo e presente.

 

 

15/8/2008


 
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