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Um freio na internet
Hospital cria serviço para tratar jovens que se tornaram dependentes da rede

GREICE RODRIGUES

PROBLEMA Cerca de 10% dos usuários não conseguem ficar longe do computador

Ninguém questiona o fato de a internet ter se tornado ferramenta indispensável. Porém, começa a preocupar o impacto que a exposição exagerada aos meios virtuais já provoca na saúde psíquica de muitos usuários. Hoje, calcula-se que 10% das pessoas que usam a rede em todo o mundo tenham ficado dependentes. Ou seja, não conseguem passar um dia sem gastar horas e horas na frente do computador.

Foi para atender a uma parte dessa população que especialistas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP) decidiram criar um programa para tratar os chamados heavy users, ou usuários com dependência de internet. A iniciativa foi estruturada para atender crianças e adolescentes com idades entre 12 e 17 anos. “A idéia surgiu a partir de queixas de pais que já não sabiam o que fazer para tirar os filhos da frente do computador. Um desses adolescentes chegou a ficar 40 horas ininterruptas conectado”, diz o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do programa. O primeiro grupo começou a ser atendido há duas semanas.

O quadro de dependência é caracterizado a partir de oito critérios. Entre eles, a necessidade de ficar cada vez mais tempo conectado para ter a mesma satisfação e a preocupação excessiva com a web – tudo o que o indivíduo fala ou pensa em fazer está relacionado com a internet. Os pacientes também apresentam quadros de irritabilidade e depressão freqüentes. Na avaliação do psicólogo, essas pessoas usam a rede como meio para aliviar a tensão e superar a timidez e a insegurança. “No mundo digital tudo pode ser reconstruído. A pessoa controla seu ambiente, assume novos papéis. É mais fácil de ser bem-sucedida”, explica o especialista. Os tipos de dependência incluem checagem constante de e-mails, uso diário das salas de bate-papo e dos jogos online e visitas a sites de compras. No caso dos adolescentes, o site de relacionamento Orkut e o MSN são os mais acessados.

A proposta do programa instituído no HC/SP não é fazer com que os usuários dependentes eliminem o computador de suas rotinas, mas ajudá-los a utilizar a tecnologia de maneira que ela não prejudique suas vidas. “Vamos estimular o uso consciente do computador. A criança e o adolescente podem falar com os amigos, fazer suas pesquisas, mas devem também se relacionar utilizando outras ferramentas de interação”, afirma o especialista. O primeiro passo do programa será a identificação das condições ambientais que tenham favorecido a dependência. “Queremos saber como é a relação do paciente com a família, se apresenta algum transtorno como fobia social ou baixa-estima. Fatores como esses poderiam explicar o refúgio na internet”, diz o psicólogo. Identificados os gatilhos, o portador do transtorno será encaminhado a sessões de psicoterapia de grupo ou individual.

 

15/8/2008


 
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