ISTOÉ – O sr. falou de fatores positivos ao Brasil. Quais são os fatores negativos?
Silva – Nosso problema central é superar a desconfiança internacional. Temos que provar que somos confiáveis. É preciso romper com a percepção internacional em relação à capacidade de investimentos do Brasil, sobre a oferta de jogos totalmente seguros no País. Estou convencido de que temos capacidade, mas o problema é convencer os outros disso. O Pan ofereceu ao mundo uma fotografia do que pode ser a segurança dos Jogos Olímpicos no Brasil. Não houve nenhum incidente e o crime comum diminuiu. Claro que uma Olimpíada é outra escala, mas teremos também outra operação.
ISTOÉ – O Brasil vai sediar uma Copa do Mundo de Futebol e agora almeja uma Olimpíada. Temos capacidade de investimento para isso?
Silva – Nessas minhas conversas muitos questionam isso. Mas a Copa só ajuda a alavancar a candidatura olímpica.
ISTOÉ – Como?
Silva – Um exemplo: o aeroporto do Galeão, no Rio, que é um problema crítico colocado pelo COI, vai ter que ser resolvido já para a Copa. O sistema de transporte de massa também. Para nós, a Copa será um certificado de que os investimentos de infra-estrutura no Rio serão bem avaliados. Isso vai ajudar a reverter as incertezas internacionais. Precisamos fazer com que o COI compreenda que fazer uma Olimpíada no Rio é uma atitude ousada, porém segura. Esse é o desafio.
ISTOÉ – Qual é o valor dos investimentos que o Brasil precisa fazer para sediar uma Olimpíada?
Silva – Prefiro não falar em nenhum número agora.
ISTOÉ – Por quê?
Silva – Se eu falar em números agora, vocês publicam e daqui a cinco anos, se esse número não for o mesmo, dirão que houve superfaturamento, ou agora ou lá na frente.
ISTOÉ – O Brasil tem dinheiro para isso?
Silva – Claro que tem. Vamos fazer investimentos que mais cedo ou mais tarde teriam que ser feitos. Temos de montar um modelo que permita que o Estado invista e que o setor privado também invista. O problema é de prioridade. O Rio de Janeiro é o portal do Brasil. Se nós quisermos incrementar o turismo no País, temos que começar pelo Rio. Recebemos cinco milhões de turistas estrangeiros por ano. Esse é um número muito modesto e não vamos oferecer uma expansão relevante nessa indústria se não nos prepararmos. Precisamos criar uma estratégia para atrair o investidor privado, criar mecanismos de financiamento, e o governo deve priorizar recursos.
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| "O Pan tem dimensões muito menores do que uma Olimpíada. Aqui em Pequim temos 30 mil jornalistas. No Pan eram dois mil" |
ISTOÉ – Para fazer o que fez, a China alterou prioridades, paralisou projetos e obras e retirou dinheiro de várias áreas para concentrar tudo nos Jogos Olímpicos. Em um regime democrático, com um Congresso atuante, isso é possível?
Silva – Creio que sim. No Brasil temos uma união muito grande em torno desse projeto. O prefeito da cidade do Rio de Janeiro (Cesar Maia), que é do DEM, pode não morrer de amores por mim, que sou do PCdoB. Entretanto, nos afinamos muito com respeito à candidatura. Temos conversado muito com empresários e eles vêem na Olimpíada a chance de o Rio recuperar um protagonismo no País, buscar sua vocação de cidade internacional. Há um sentimento muito forte para isso. Veja que São Paulo, daqui a pouco, terá o dobro de leitos de hotéis do Rio de Janeiro. Isso é inimaginável.
ISTOÉ – A questão da segurança pública não é o calcanhar-de-aquiles da candidatura do Rio?
Silva – Segurança pública é um tema complexo em qualquer cidade do mundo. Estamos em Pequim. Eles organizaram um evento maravilhoso, as instalações são fantásticas, é um regime centralizado e forte e houve incidente relacionado a segurança pública. A Alemanha fez Olimpíada e teve problemas, em Los Angeles também. Isso é problema comum a todos. Estamos nivelados. O Brasil leva até alguma vantagem relativa, por ser um País sem terrorismo, pacífico. Mas a preparação precisa ser muito rigorosa.
ISTOÉ – Qual a estratégia para convencer os membros do COI?
Silva – A candidatura tem um aspecto técnico. Nesse sentido, entregaremos um dossiê em fevereiro do ano que vem. Para isso, contratamos consultores internacionais de alto nível.
ISTOÉ – Quem são esses técnicos?
Silva – É gente muito competente, gente que fez Barcelona, Sydney e Atenas. Estamos bem assessorados e estamos construindo um projeto técnico de alta viabilidade. Hoje nosso projeto é muito mais pé no chão do que na disputa passada. A outra parte da briga é política, muita conversa para sensibilização.
ISTOÉ – O que houve concretamente na disputa da CBF com o Comitê Olímpico em relação à camisa da Seleção Brasileira de Futebol (as seleções olímpicas usam a camisa com a bandeira do Brasil e os arcos olímpicos e são patrocinadas pela Olympikus. No futebol, o contrato é com a Nike e a camisa traz o escudo da CBF. Pelo regulamento, isso não pode, mas nos anos anteriores se fez vista grossa. No final, usaram a camisa da Nike, mas sem os símbolos da CBF e também sem a bandeira do Brasil)?
Silva – A CBF foi muito correta. Havia uma insatisfação muito grande dos atletas. Entrei para cumprimentar a equipe feminina e a Tânia Maranhão (capitã do time) disse que as jogadoras não concordavam em usar outra camisa. Respondi que não propus nada e expliquei que a carta olímpica exige que se use apenas a bandeira do país e o símbolo olímpico. Mas havia um nítido desconforto. A CBF atendeu o pedido do Comitê Olímpico Brasileiro.
ISTOÉ – Isso já não era sabido antes de a delegação brasileira deixar o País?Não foi uma queda-de-braço desgastante?
Silva – O futebol, pelo peso que tem no mundo, tem uma dinâmica diferente das outras modalidades. Outras seleções continuam disputando com uniformes diferentes. A Argentina, por exemplo, disputou o segundo jogo com o uniforme de sua federação. A maior parte dos países veio com essa disposição. Mas a CBF foi muito correta.
ISTOÉ – Não houve um acordo de patrocinadores? Afinal, como é que a Nike (que patrocina a CBF e não o COB) providenciou à seleção novas camisas em questão de horas?
Silva – Provavelmente o fornecedor da seleção foi ágil.
ISTOÉ – O que mais o surpreendeu em Pequim?
Silva – Tudo é muito eficiente e os serviços funcionam. Mas, como diz o presidente Lula, nada que não possamos fazer.
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