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Entrevista  
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''Temos que provar que somos confiáveis''
Para o ministro dos Esportes, o desafio é convencer o mundo de que fazer uma Olimpíada no Brasil é ousado, mas seguro

Por MÁRIO SIMAS FILHO E FRANCISCO ALVES FILHO - Enviados especiais a Pequim (China)

MÁRIO SIMAS/AG. ISTOÉ

Em Pequim desde a véspera da abertura dos Jogos Olímpicos, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, entrou firme na disputa pela realização da Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro. Na China, ele busca marcar pontos importantes na briga contra Madri (Espanha), Chicago (EUA) e Tóquio (Japão), as cidades adversárias, e fez da Casa Brasil – representação do País em um hotel de luxo – o quartel-general da campanha. “Nosso espaço tem sido mais visitado do que os dos concorrentes”, comemora o ministro. “Até o Juan Samaranch (espanhol, presidente de honra do Comitê Olímpico Internacional) esteve aqui.” Trazer para o Brasil o maior evento esportivo do planeta é uma meta que virou assunto de Estado. Em sua passagem pela China, Luiz Inácio Lula da Silva tratou sobre o tema com outros presidentes e escalou o ministro para coordenar a ofensiva brasileira. Ele ouviu de Lula uma frase que traduz a importância dada a sua tarefa: “Não fizeram aqui nada que não possamos fazer no Brasil.”

Orlando Silva entendeu o recado e na China cumpre uma agenda tão pesada quanto a de Brasília. O ministro divide seu tempo entre os contatos políticos e as arenas esportivas onde os brasileiros estão atuando. Mesmo nas quadras, por vezes o papel de embaixador da campanha se sobrepõe ao de torcedor oficial. Durante a estréia do vôlei masculino contra o Egito, por exemplo, Orlando Silva estava mais empenhado em conquistar o apoio do presidente da Fifa, Joseph Blatter, do que nas cortadas de Giba e companhia. Ele nem mesmo esperou o fim do jogo para deixar o Estádio Nacional e partir para uma reunião de coordenação da campanha. Foi entre esses compromissos que ele recebeu ISTOÉ e concedeu a seguinte entrevista:

ISTOÉ – Não seria melhor o Brasil primeiro investir na preparação de uma equipe olímpica de ponta para depois pensar em sediar uma Olimpíada?
Orlando Silva – São dois lados de uma mesma moeda. Sediar os Jogos Olímpicos é um esforço que vai além do esporte. Serve como plataforma para novos investimentos, gera empregos e cria uma estrutura para a cidade como um todo. Mas, ao mesmo tempo, coloca o esporte no centro da pauta nacional, estimula os esportistas e constrói estruturas modernas que favorecem o desenvolvimento dos atletas. Esses equipamentos permanecem, não vão embora com as Olimpíadas. Veja que as grandes potências olímpicas ou já sediaram ou querem sediar os Jogos.

ISTOÉ – Depois de ver o que está acontecendo na China, o sr. acredita que o Brasil possa ganhar a disputa para sediar uma Olimpíada?
Silva – Já disputamos três vezes. Duas com a cidade do Rio de Janeiro e uma com a cidade de Brasília. Para valer mesmo foi a disputa pelos Jogos de 2012. Foi uma candidatura mais organizada que mobilizou mais agentes e o governo central. A candidatura atual é fruto do aprendizado dessas outras experiências. Sabemos agora o que deve e o que não deve ser feito. É uma candidatura muito forte.

ISTOÉ – Que motivos podem levar o Rio a vencer essa disputa?
Silva – É uma candidatura que se assenta em dois pilares. O primeiro é o sucesso de um evento regional, necessário para mostrar à comunidade internacional nossa capacidade de promover algo daquela magnitude. Os Jogos Pan- Americanos (em 2007) envolveram mais de 35 modalidades e mais de cinco mil atletas. A avaliação dos observadores que lá estiveram é a de que os serviços foram eficientes. As instalações foram muito elogiadas e algumas delas têm padrão olímpico. Tudo agradou: transporte, habitação, saúde.

ISTOÉ – Não houve nenhuma objeção?
Silva – A mim ninguém falou nada contra. Mas há um fator que é evidente. O Pan tem dimensões muito menores do que uma Olimpíada. Aqui em Pequim temos 30 mil jornalistas. No Pan eram dois mil. Mas no Rio tivemos uma plataforma tecnológica para transmissão de dados do mesmo patamar que temos em Pequim. Em termos de tecnologia, muita coisa que está em prática na China foi testada no Pan. Isso é a favor de nossa candidatura.

ISTOÉ – Qual o outro alicerce da candidatura?
Silva – Vivemos um momento de enorme projeção internacional do Brasil. A reverência com que o presidente Lula é tratado é impressionante. Mais de 100 chefes de Estado estiveram em Pequim. Onze foram recebidos pelo presidente Hu Jintao, mas a foto que o jornal da China publica é a do Jintao com o Lula. Isso é simbólico. No dia seguinte à abertura dos Jogos Olímpicos, uma das principais reportagens do jornal tem a foto do Lula, frase do Lula e destaque à candidatura do Rio. Isso tudo no jornal que os chineses usam para mandar seus recados ao mundo.

"O presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmou que agora é a hora do Rio de Janeiro. Há um clima de reverência ao Brasil"

ISTOÉ – Mas o possível apoio da China não tem peso determinante para uma candidatura.
Silva – Isso não é isolado. O José Ramos Horta (presidente do Timor Leste) disse ao Lula que vai fazer um manifesto dos vencedores do Prêmio Nobel da Paz a favor da candidatura do Rio. O presidente francês Nicolas Sarkozy afirmou que agora é a hora do Rio de Janeiro. Há um clima de reverência ao Brasil. E isso não se deve só à candidatura. É a economia do País que cresce, é a liderança política do presidente que representa um fator de estabilidade em uma região marcada por instabilidades. Hoje o Brasil é uma referência política de estabilidade democrática, uma liderança positiva que serve de moderador e há ainda o carisma do Lula.

ISTOÉ – Isso tudo é objetivo ou uma percepção pessoal?
Silva – São fatos concretos. Mas, há também elementos perceptíveis.

ISTOÉ – O que, por exemplo?
Silva – O que percebo é que o Comitê Olímpico Internacional tem interesse em abrir mais e novos mercados. Os Estados Unidos são um mercado importante e o COI já tem esse mercado. A Europa idem. A China foi um mercado novo que eles agora abriram. Então, nesse contexto, o Brasil é um país novo com uma concentração de jovens enorme e isso pode ser útil ao COI. Percebemos muito que o Comitê Olímpico atua para deixar legados. Na assembléia do COI, por exemplo, foi dito com todas as letras que na percepção deles a Olimpíada na China contribui para a abertura do país ao mundo. E uma Olimpíada no Brasil pode deixar um enorme legado para a juventude.

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15/8/2008


 
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