No país mais populoso do mundo, o governo tentou também evitar as aglomerações durante os Jogos e restringiu bastante a renovação de vistos dos estrangeiros que residiam em território chinês. Mesmo os vistos de turistas que pretendiam apenas acompanhar a Olimpíada foram dificultados. Um brasileiro que, temendo represálias, apresentase apenas como Roberto, tem o hábito de visitar a China anualmente. Costuma hospedar-se em Pequim na casa de um amigo. Este ano foi diferente. Apesar de possuir uma carta do amigo chinês confirmando a hospedagem, o governo não lhe concedia o visto. Exigia o comprovante de pagamento de estadia em hotel. "Precisei fazer a reserva em um hotel barato no interior e pagar algumas diárias que jamais usarei", disse Roberto. Resultado: há poucos turistas pelas ruas e muitos hotéis com quartos vagos. A estimativa atual é de que 500 mil turistas estrangeiros passem por Pequim, quatro vezes menos que o esperado.
Os números abaixo da expectativa não são fortes o suficiente para abalar o ânimo chinês de promover o principal evento esportivo da terra. Tendo a seu favor o fato de ser o maior mercado consumidor de um mundo globalizado, o governo da China ignorou os apelos e ameaças de boicote aos Jogos lançados de diversas partes do planeta. O presidente dos EUA, George W. Bush, vem dizendo que o governo chinês precisa respeitar os direitos humanos e libertar dissidentes encarcerados. Chegou a ensaiar um discurso de boicote aos Jogos, mas na quinta- feira 7 amenizou o tom das críticas. Na Tailândia, horas antes de embarcar rumo a Pequim para a cerimônia inaugural, Bush disse que a China precisa implantar uma política mais aberta, porém, "de acordo com os seus princípios e a sua cultura". O dirigente francês Nicolas Sarkozy havia ameaçado boicotar o espetáculo devido à repressão chinesa no Tibete. Já irritado com os protestos durante a passagem da tocha por Paris, o governo chinês reagiu. O embaixador do país na França afirmou que haveria "conseqüências" se isso ocorresse. Sarkozy recuou e em entrevista à agência estatal chinesa Xinhua, disse que caso "a organização dos Jogos fosse um esporte, a China ganharia a medalha de ouro".
Se o objetivo dos chineses é fazer da Olimpíada um marco de divulgação de uma nova China, o que mais chamou a atenção nos últimos dias foram as práticas da velha China. A esses hábitos, até o Comitê Olímpico Internacional (COI) se rendeu. Depois de assegurar ao mundo que haveria liberdade de imprensa durante o evento, mudou o discurso ao se ver incapaz de impedir a censura do governo chinês a vários sites da internet considerados inconvenientes, como o da Anistia Internacional, entre outros. "O acesso atual não tem precedentes no país, houve melhora e isso é que conta", contemporizou o presidente do COI, Jacques Rogue. Apesar de toda a modernidade, as garras do velho dragão estão afiadas como nunca.
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