Outras indagações importantes, e diretas, são: o que tem a ver a nossa Fossa Mariana com o planeta Marte? Essas formas simples de organismos podem já ter surgido lá no Planeta Vermelho? Crave um x na alternativa que indicar sim. "Marte já esteve em condições físicas e químicas similares às que encontramos hoje na Terra", diz a bióloga Claudia. "Formas simples de organismos podem já ter surgido naquele planeta." Na verdade, os extremófilos (bactérias, arquéias e demais formas minúsculas de vida) estão no interior de vulcões ferventes, no imperceptível espaço entre rochas, nas profundezas de geleiras, em camadas radioativas da crosta terrestre - e por que não em Marte? Segundo o astrofísico Carlos Alexandre Wuensche, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), "não seria nenhuma surpresa se extremófilos como esses fossem encontrados fora da Terra".
Um das regras básicas de qualquer ciência é a de que o contrário da verdade científica é o erro e, justamente por isso, toda tese que se pretende metodologicamente séria nesse terreno questiona-se a si mesma. É como alguém que advoga em seu íntimo contra as suas convicções para quiçá destruí- las ou, então, fortalecê-las ainda mais. Não é diferente com a questão da vida fora da Terra. Aqui, dois pontos são importantes. O primeiro deles foi levantado pela própria Nasa e trata da provável presença do oxidante perclorato no solo e subsolo marcianos. Está-se falando de uma substância altamente corrosiva e, claro, pode-se pressupor que ela impediria a existência de vida, mesmo a de um hiper-radical extremófilo. O pressuposto é equivocado: no deserto chileno do Atacama, por exemplo, há perclorato e diversas espécies vivem nele, firmes e fortes - entre elas arbustos e cactos, ratos, lagartos, cobras, vicunhas e nhandus.

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Ainda advogando-se contra a riqueza natural de Marte, ou seja, contra as chances de lá ter-se originado vida, pode-se exibir o dado já comprovado de que esse planeta é extremamente vulnerável a radiações - sua proteção atmosférica é um papel de seda se comparada à proteção atmosférica que temos. É aqui que entra em cena uma das mais incríveis e maravilhosas formas de vida, a bactéria Deinococcus radiodurans. Ela sobrevive sem a menor alteração até no interior de um reator nuclear e atualmente os cientistas acreditam que tal bactéria também esteja presente em Marte, uma vez que passa incólume pelo bombardeio constante de radiação - resumindo, se o planeta não tem espessa atmosfera para se proteger, ela, a Deinococcus, protege-se biologicamente a si própria e sobrevive em qualquer ecossistema. "É uma bactéria hipoli- extremófila, resiste à pressão, à falta de nutrientes, às baixas temperaturas e ao vácuo", diz Paulino Lima, que se dedica quase exclusivamente ao estudo desse microorganismo em laboratório. "Submetemos essa bactéria a uma linha de luz que produz espectro de ultravioleta simulando a composição da radiação solar", diz o pesquisador. "Ela é imune a tudo." Resta lembrar que uma das hipóteses para o surgimento da vida na Terra envolve justamente a Deinococcus, que para cá teria migrado de algum ponto do espaço nas constantes tempestades de poeira cósmica que ocorrem há bilhões de anos, uma vez que resiste ao transporte no vácuo. Nada impede, então, que também em Marte ela tenha algum dia estacionado. Assim, é provável, bastante provável, que não estejamos sós no universo. Descarte- se a hipótese de um encontro com marcianas geladas, verdes ou platinadas. Admita-se, no entanto, que essa superpoderosa bactéria possa ser nossa companheira na espetacular imensidão em que vivemos.
Colaboraram: Luciana Sgarbi e Tatiana de Mello

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