"Marco Aurélio Garcia é o homem do partido. Tem que acenar a Chávez e a Fidel. Mas, na hora de decidir, o governo é mais conservador” |
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ISTOÉ – E no Itamaraty?
Ricupero – Há ali o quadro de diplomatas e o grupo fora do quadro, liderado por Marco Aurélio Garcia. Este é o homem do partido, que tem simpatia pelas Farc. Antigamente, se dizia que o Partido Revolucionário Institucional (PRI, o partido então no poder no México) tinha uma política econômica conservadora, mas uma política externa progressista, de crítica aos Estados Unidos, como forma de se manter apegado às origens remotas da Revolução Mexicana. O mesmo ocorre com o PT. Tem que dar apoio simbólico ao padre Camilo, que vem aqui representar as Farc. Tem que acenar ao Hugo Chávez. Fazer um gesto em relação ao Fidel Castro. Mas, na hora de decidir, o governo é mais conservador.
ISTOÉ – O ministro Celso Amorim foi alvo de muitas críticas ao final da reunião de Genebra. O sr. acha que ele se desgastou como negociador?
Ricupero – Não acredito. O ministro teve momentos pouco felizes, como quando citou a frase de Goebbels (Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista). Mas isso se justifica no nervosismo da negociação. Ele é um homem extremamente inteligente, um diplomata audacioso. Há alguns anos, quando se falava de ampliação do Conselho de Segurança, sempre se citava também México e Argentina como possibilidades. Mesmo que essa seja uma discussão fora da pauta atual, hoje só se fala no Brasil como candidato a uma vaga. Isso é um mérito da política externa brasileira. Onde o Brasil poderia ter feito mais é na questão ambiental, na discussão sobre o aquecimento global. O Brasil detém a maior floresta tropical do mundo, tem a maior biodiversidade, tem uma matriz energética limpa e 30 anos de experiência na tecnologia de biocombustível. Faltou inteligência para o Brasil, no momento em que malograram os três focos em que apostou na política externa, ter investido nessa bandeira.
ISTOÉ – O governo vem adotando a alta das taxas de juros como principal instrumento de combate à inflação. Esse é o caminho correto?
Ricupero – A ameaça da inflação é real. E grande parte dessa ameaça vem do Exterior, de uma conjuntura mundial difícil. Então, aumentar a taxa de juros não vai resolver muito. Internamente, há medidas que, a meu ver, são contraditórias com o combate à inflação. Não vejo, por exemplo, como se pode conciliar combate à inflação com uma expansão desmesurada da produção de automóveis somada ao amparo de instrumentos de crédito. A promoção de 20 milhões de pessoas das classes D e E para a classe C é bem-vinda. Mas isso se justifica no consumo de alimentos, de gêneros de primeira necessidade. Mas automóvel não é bem de primeira necessidade. Incentivar isso é algo que eu só posso rotular de populismo.
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