ISTOÉ – O G-20 acabou?
Ricupero – Todos os países envolvidos vão dizer que o G-20 permanece. Se o problema for utilizar de novo essa tática de resistir às imposições de americanos e europeus, o G-20 serve. Mas, se for para negociar, não dá. Não é uma aliança para ganhar o jogo, é uma aliança para empatar o jogo.
Ganhar o jogo para nós significa aumentar o nosso acesso a mercados agrícolas não só da Europa ou do Japão, mas da China e da Índia.
ISTOÉ – Se o G-20 não é para ganhar o jogo, qual deve ser a estratégia do Brasil no momento em que se retomarem as negociações multilaterais?
Ricupero – Só interessa ao Brasil que o G- 20 vá até o final da negociação se isso não significar o fechamento do acesso brasileiro aos mercados agrícolas da China e da Índia. O futuro das commodities no mundo não está nos países ricos, está na Índia, na China e nos países asiáticos. Ali é que há mercado. E a razão é fácil de entender: a Europa e o Japão estão com uma população declinante. Como você não pode se alimentar além de um determinado limite, não há ali grande possibilidade de crescimento.
"Lula é um discípulo de Getúlio Vargas, equilibra posições opostas do gabinete e fica na condição de árbitro” |
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ISTOÉ – E como conquistar esses mercados?
Ricupero – O ideal seria o Brasil fazer ao máximo acordos com o Mercosul. Mas eu não sei se o presidente Lula vai querer enfrentar os problemas que decorrem disso. A complicação do Mercosul não é só a instabilidade da Argentina ou os problemas que viriam da adesão da Venezuela. O problema maior é que o Mercosul não tem um mecanismo de falar numa só voz como a Europa tem. A União Européia negocia comércio por sua comissão em Bruxelas. O Mercosul não tem uma estrutura assim. Não tem um executivo para negociar como bloco único. Negociar em bloco no Mercosul implicaria criação de um executivo único, e não sei nem se o Brasil deseja isso mesmo, porque também significaria abrir mão da sua própria autonomia.
ISTOÉ – E qual o futuro, agora? Qual o caminho a seguir enquanto fica no ar a Rodada de Doha?
Ricupero – A Rodada de Doha, no curto prazo, dificilmente ressuscitará. Haverá eleições nos Estados Unidos e também na Índia. Enquanto isso não acontecer, esses países não vão se mexer. Mas, num prazo de um ano, não acho impossível que as negociações sejam retomadas. E a verdade é que, em negociações bilaterais, o Brasil só vai conseguir resultados limitados, num produto ou noutro. Nós nem podemos negociar sozinhos, porque fazemos parte de uma união aduaneira, que é o Mercosul. O Brasil só pode fazer um acordo se todos os países do Mercosul fizerem. E nós temos parceiros complicados. É importante, para nós, fechar um acordo em Doha. Estrategicamente, para o País é ruim esse fracasso.
ISTOÉ – Por quê?
Ricupero – A política externa do governo Lula teve três focos: o ingresso com lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, a idéia de usar o Mercosul como semente de uma união comercial e econômica da América do Sul e um acordo agrícola na Rodada de Doha. Eu devo dizer que estou de acordo com os três, mas a verdade é que esse tripé malogrou. A ampliação do Conselho de Segurança é uma discussão que saiu da agenda. O Mercosul como uma aliança única na América do Sul não é algo mais viável, depois que Chile, Peru e Colômbia assinaram com os Estados Unidos a entrada na Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Realisticamente, só o que sobrava era a conclusão da Rodada de Doha.
ISTOÉ – Então, fracassou a política externa do governo Lula?
Ricupero – Política externa é algo que depende muito daquilo que diz Maquiavel em O príncipe: “O príncipe precisa de virtude e de fortuna.” Fortuna aí como sinônimo de sorte. Na política externa, faltou a fortuna. Em política externa, mesmo que se faça tudo certo, o sucesso também depende dos outros. Entrar para o Conselho de Segurança não depende só de nós. Aqui, no caso do Mercosul, as circunstâncias mudaram. A tônica hoje no continente não é mais a convergência, é a divergência.
ISTOÉ – Mas será que o Brasil percebeu isso? Não houve alguns passos equivocados? Por exemplo, ter dado apoio às Farc, ter amparado Hugo Chávez?
Ricupero – Acho que o presidente Lula, conscientemente ou não, é um discípulo da forma de governar de Getúlio Vargas. Getúlio sempre governou equilibrando posições opostas no seu gabinete. Quando ele caiu, em 1945, estava no centro da criação de dois partidos, o PSD e o PTB, um rural e conservador; o outro urbano e progressista. Ele sempre se identificou com o PTB, mas governou com os dois. E sempre teve no governo pessoas que representavam posições opostas, e ele ficava na condição de árbitro. O presidente Lula faz exatamente o mesmo. Em política econômica, ele tem o Henrique Meirelles no Banco Central representando a faceta de direita, conservadora, que combate a inflação, e o Guido Mantega, no Ministério da Fazenda, com uma equipe crítica, alternativa. Na Justiça, tem o Tarso Genro com essas declarações sobre punição para tortura, e o Nelson Jobim do outro lado. Na Agricultura, tem o ministério do agronegócio e o da reforma agrária.
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