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| "Imagens de paisagens, lugares bonitos que tragam comunhão com a natureza trazem felicidade" |
ISTOÉ - O que mais pode nos trazer felicidade?
Tavares - Outros resultados desse trabalho mostraram que imagens de paisagens, lugares bonitos, a comunhão com a natureza e sentimentos espiritualizados também trazem felicidade. O amor é importante. Fotos de pessoas abraçadas, com bichos de estimação, de crianças brincando geraram a sensação de bem-estar. É a prova de que somos seres sociais e que devemos compartilhar momentos. Algo simples, que todos podem fazer.
ISTOÉ - O sucesso não aparece como um fator de felicidade?
Tavares - Sim. Havia fotos de pessoas gozando do sucesso: uma imagem do Ronaldo marcando um gol na final da Copa de 2002, um atleta cruzando a linha de chegada, um alpinista no alto da montanha nevada. A idéia de vencer, alcançar um objetivo também é importante na formação do conceito de felicidade.
ISTOÉ - O que provam essas reações?
Tavares - Que não adianta ir atrás de um medicamento que simule essas experiências. É melhor que você as tenha, que consiga encaixar essas experiências dentro da sua realidade. Se não tem recursos para fazer uma viagem, escalar uma montanha , busque desafios no cotidiano.
ISTOÉ - Como foi feita essa pesquisa?
Tavares - Com voluntários que eram alunos das faculdades de medicina, psicologia e engenharia da Universidade de São Paulo. Foram 156 alunos, 91 homens e 65 mulheres. É um banco de dados imenso que está sendo analisado. O curioso é que a pesquisa ficou conhecida como o estudo do chocolate. Para convencer as pessoas a participarem, tentamos a gratificação, R$ 20. Ninguém apareceu. Mudei para uma caixa de bombons e tive um retorno enorme. É a prova de que as pessoas querem o que lhes traga bem-estar.
ISTOÉ - Mas como convencer o paciente de que, vivendo coisas simples, ele encontrará a felicidade?
Tavares - Não tenho dificuldade para convencer ninguém. Quando pergunto se desejam ser felizes, eles dizem: "O que tenho que fazer?" É aí que entra a segunda metade da laranja e que deveria ser regra. A orientação e o apoio médico. O paciente chega cheio de sintomas? Claro que precisa de medicação. O remédio trouxe serenidade? É hora da segunda parte, a psicoterapia. A partir daí a pessoa revê seu estilo de vida para chegar ao bem-estar. E é o encaminhamento que os psiquiatras não fazem e a que as pessoas dizem não poder se submeter por falta de tempo.
ISTOÉ - Depois de encaminhar para a psicoterapia, o sr. trabalha com seus pacientes a busca pela qualidade de vida. Como funciona?
Tavares - Trabalho com pessoas compulsivas, que têm problemas com jogos, compras, sexo, comida. Drogas e álcool também, mas numa escala menor. Veio daí a idéia de que a Psicologia Positiva pode ajudar dentro da psiquiatria. A experiência que tenho com os jogadores compulsivos mostra que, ao apoiar o paciente, medicá-lo corretamente e indicar falsas concepções sobre possibilidades de ganho no jogo, ele reduz as apostas. Mas não há promoção do bem-estar com o fim do jogo. É necessário fazer com que ele encontre fontes de prazer fora dele.
ISTOÉ - E como ele encontra essas fontes de prazer?
Tavares - No Instituto de Psiquiatria, o paciente passa por um grupo de acolhimento, no qual aponta suas dificuldades, e pela psicoterapia voltada exclusivamente para problemas relacionados ao jogo, para suprimir o apostar recorrente. Conseguimos que 60% deles parem de jogar. Os outros 30% reduzem drasticamente. A partir daí, o problema é reestruturar a vida. Para isso, criamos há dois anos o tratamento pós-terapêutico. São sessões em grupo, uma vez por semana, nas quais falam sobre suas melhoras e o que ainda querem resgatar. Depois, passamos dicas de lazer de graça ou quase de graça em São Paulo. Temos uma lista de parques, teatros, shows. Isso ajuda a melhorar a vida das pessoas.
ISTOÉ - O resultado é positivo?
Tavares - Excelente. Não só essas pessoas se saem melhor do que aquelas que pararam na terapia como têm menos recaídas e mostram maior satisfação com a vida.
ISTOÉ - Uma pessoa em tratamento pós-terapêutico pode largar o remédio?
Tavares - Depende do diagnóstico, do histórico familiar e da evolução da doença. As chances de prescindir da medicação crescem se o paciente aumenta a própria qualidade de vida. Quem tem uma depressão a cada dez anos não precisa manter o remédio. Se foi um episódio isolado, também não. Se há familiares deprimidos, melhor manter a medicação. Ninguém é condenado ao status de depressivo. Deve-se dizer ao paciente que ele está deprimido, que será tratado e, depois, a necessidade de continuar a medicação será verificada. Mas devemos antecipar que suprimir o remédio no futuro depende em parte do esforço dele em reformular a própria vida.
ISTOÉ - O sr. acha que o uso de medicamentos como antidepressivos se tornou indiscriminado?
Tavares - Na verdade, o que há é um melhor diagnóstico. Muita gente sofria e não sabia que tinha tratamento. Talvez exista algum abuso no uso desses remédios, mas acredito que seja menor do que o alardeado. Alguns dizem que apenas psiquiatras deveriam prescrever essas drogas, mas isso não é realista.
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