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Brasil  
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Lula segura a roda da economia
Alheio às críticas e com o apoio do Planalto, Copom promove a maior alta de juros desde 2003 e promete continuar o aperto

OCTÁVIO COSTA

RICARDO STUCKERT
CENTRO DA META Lula espera que a economia seja afetada apenas no curto prazo, sem respingos em 2010

Desta vez, não houve surpresa. Após pouco menos de três horas de reunião, na quarta-feira 23, o Comitê de Política Monetária do Banco Central deu mais uma volta no torniquete das taxas de juros e aumentou a Selic de 12,25% para 13% ao ano, em decisão unânime. Com isso, o Brasil continua a ocupar com folga o primeiro lugar no ranking mundial de juros reais. Descontada a inflação, a taxa real subiu para 7,2% ao ano, à frente dos 5,7% da Austrália e dos 5,3% da Turquia. Todos os analistas previam um novo ajuste com o objetivo de quebrar as expectativas inflacionárias, mas alguns consideraram excessiva a dose de 0,75 ponto percentual, a maior desde fevereiro de 2003. O mais correto, segundo eles, seria continuar na escalada paulatina de 0,5 ponto percentual.

Certamente, não deram a devida atenção às palavras do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, nos dias que antecederam a reunião do Copom. "Os formadores de opinião e os formadores de preços não devem ter dúvida quanto à disposição da autoridade monetária de tomar decisões visando a promover a convergência da inflação ao centro da meta em 2009", afirmou Meirelles, em São Paulo. Portanto, o Copom não fez mais do que confirmar o que Meirelles antecipou em pronunciamento no Senado na semana passada: o Banco Central está decidido a agir "vigorosamente" no combate à inflação, por mais amargos que sejam os efeitos do arrocho monetário. O País que aperte os cintos e se prepare para a freada de arrumação da economia.

Quem acertou na mosca a decisão do Copom foi o economista Octávio de Barros, diretor do Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco. Em junho, ele fez a previsão de um ajuste de 0,75 ponto percentual - por sinal, divulgada na edição de ISTOÉ, do dia 2 de julho. Ele está convencido de que "o Banco Central adotou uma postura de tolerância zero em relação à inflação no ano que vem". O objetivo da dosagem mais forte, explica ele, é fazer com que os formadores de preços e de salários acreditem que o BC vai fazer o possível para recolocar a inflação no centro da meta em 2009, que é de 4,5% (para este ano, as expectativas são de que o teto de 6,5% seja rompido).

A não ser por pequenos detalhes, o apoio à decisão do Banco Central, entre os economistas, é praticamente unânime. Para o chefe do departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, "o BC não teve alternativa, já que a economia está aquecida demais e a inflação subiu não só por causa dos preços dos alimentos." Na opinião experiente de Carlos Thadeu, exdiretor do BC, o governo tinha de fazer uma "escolha de Sofia": ou apostar as fichas no crescimento da economia ou quebrar as expectativas inflacionárias. Fez a segunda opção. O economista americano Paul Krugman, conhecido por suas críticas à ortodoxia, disse que a direção da política do BC "está de acordo com o que se espera em uma situação como essa". Nas palavras do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, "o BC deve ter avaliado que uma pancada mais forte pode encurtar o tempo de luta contra a inflação, o inimigo maior do governo e do País." Em estilo de dar inveja ao presidente Lula, ele recorreu a uma imagem futebolística para justificar a ação de Meirelles: "O Banco Central é como um zagueiro que sai da área para matar a jogada, não quer perder a viagem. Os caras abriram a caixa de ferramenta para afastar o perigo de gol".

Do ponto de vista teórico e acadêmico, a "pancada" do Banco Central até pode ser bem-vinda. Mas quem vai pagar a conta do desaquecimento da economia será, inevitavelmente, o setor produtivo. As previsões de crescimento do PIB para 2009 já foram refeitas de 4,5% para algo em torno de 3%. E, por justo motivo, a decisão do Copom foi seguida de choro e ranger de dentes no meio empresarial. De forma geral, as críticas da iniciativa privada se concentram no fato de o governo acionar apenas as taxas de juros em seu esforço para controlar a inflação. O Estado onera a sociedade, mas não faz qualquer sacrifício - ao contrário, com seus gastos e tarifas joga lenha na fogueira da inflação. "Está na hora de o governo cortar a própria carne, reduzindo os gastos públicos que impõem uma política tributária crescente. Poderia tirar todos os impostos que incidem sobre a cesta básica de alimentos. Subir juros sem controlar os gastos públicos não favorece ninguém", atacou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. Em sua opinião, que costuma desagradar ao Planalto, falta coerência entre as políticas monetária e fiscal, e quem sofre as conseqüências é a sociedade, "principalmente os menos favorecidos, que arcam com aumentos de até 100% no preço do feijão".

O Brasil brigou em Doha e não ganhou nada

ELZA FIÚZA/ABR

O chanceler Celso Amorim chegou em Genebra, na semana passada, disposto a concluir as negociações de liberalização do comércio mundial da Rodada de Doha da OMC, que já duram sete anos. Num acesso de sinceridade, o ministro Reinhold Stephanes, da Agricultura, afirmou que o encontro não serviria para nada. E recebeu uma reprimenda de Amorim: "Ele deve achar que estou me divertindo." A questão agrícola foi, de novo, responsável pela falta de um entendimento. Enquanto os países industriais cerram fileiras contra a entrada de grãos e alimentos dos países emergentes, estes barram a abertura de seus mercados para serviços e produtos manufaturados. E o Brasil, que lidera o G-20 na crítica ao protecionismo dos países ricos, ignora o protecionismo da China, que nos afeta diretamente. Amorim comparou o discurso dos desenvolvidos ao do chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, que dizia que uma mentira repetida muitas vezes acaba sendo aceita como verdade. Só que na Rodada de Doha todo mundo mente. Inclusive os emergentes.

GUSTAVO GANTOIS

A Federação do Comércio de São Paulo, em nota oficial, fez coro com Skaf: "Este é o resultado de se atribuir ao Banco Central um duplo papel: o de fazer política monetária e ao mesmo tempo compensar a má política fiscal do País." O presidente da Abdib, Paulo Godoy, disse que "é duvidoso o efeito da elevação da taxa básica de juros na contenção da demanda em algumas frentes, como nas compras a prazo e nos gastos com alimentação, o que diminui os resultados esperados pela ação do Banco Central". Já o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Safady Simão, diante do novo ajuste, chegou à seguinte conclusão: "Não adianta mais reclamar das taxas de juros, é essa a política que o governo vai usar e ponto final. Só resta torcer para que ele mantenha os investimentos do PAC, do contrário os efeitos colaterais serão graves."

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24/7/2008


 
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