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Felicidade ao alcance de todos
Pensadores europeus defendem a necessidade de resgatar valores como tempo, tranqüilidade e espaço no cotidiano para alcançar o bem-estar

CARINA RABELO E SUZANE FRUTUOSO

MURILLO CONSTANTINO/AG. ISTOÉ

Você já deve ter vivido cenas semelhantes a essas. Acordar com o barulho de nervosas buzinas de carros, enfrentar a fúria de motoristas engarrafados no trânsito, conviver com um chefe tirano, almoçar falando alucinadamente ao celular e, ao final do dia, voltar, exausto, para casa. É o rolo compressor do cotidiano que passa por cima da vida de milhares de pessoas, todos os dias, no mundo inteiro, e com cada vez mais freqüência. Qualidade de vida não se resume a saúde física e dinheiro suficiente para comprar tudo aquilo que se deseja. Por isso, uma corrente de pensadores europeus, como o sociólogo italiano Domenico De Masi e o filósofo alemão Hans Enzensberger, vem chamando a atenção para a importância de um conjunto de seis princípios essenciais - direitos de todo ser humano - que estão cada vez mais escassos nos dias de hoje: ambientes saudáveis, espaço, tranqüilidade, autonomia, contemplação da beleza e tempo. Esse é o verdadeiro luxo que leva ao bem-estar, o mantra do século XXI. O que realmente vale a pena na vida não está ligado ao material e pode ser usufruído por qualquer pessoa, garantem os teóricos. E constatam muitas pessoas que já despertaram para essas necessidades (leia quadros).

Quando se casou, há dois anos, a advogada Daniela Cestaro, 31 anos, trocou um apartamento por uma charmosa casa com quintal em um condomínio próximo da capital paulista. Lá, ela usufrui de um parque com área de preservação ambiental e uma pista para caminhada, onde vai todos os dias com as cachorras Mel (foto) e Cindy. "Aqui é seguro, respiro ar puro, não enfrento trânsito, convivo com vizinhos. Coisas que eu buscava muito e que não encontrava na loucura de São Paulo", explica Daniela, que perdia três horas diárias em engarrafamentos. Todos os meses chegam novos moradores ao seu condomínio, pessoas com valores parecidos aos seus. Segundo a psicanalista Sueli Gevertz, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, quem escolhe viver em ambientes ecologicamente saudáveis e seguros deseja também uma mudança de estado de espírito. "A pessoa procura um espaço para desacelerar, esquecer exigências e tarefas a cumprir", diz. Dica da mestra Miao Shang, do templo budista Zu Lai, em Cotia (SP), para quem não pode morar próximo ao verde: se quer natureza sempre por perto, plante árvores; se deseja um mundo menos violento, seja gentil e evite as pequenas rusgas do dia-a-dia.

O alemão Enzensberger enumerou os seis princípios citados acima quando detectou que eles estavam cada vez mais distantes do dia-a-dia das pessoas, principalmente daquelas que vivem o cotidiano autômato das grandes cidades. Há 30 anos, no máximo, espaço, tranqüilidade e tempo, por exemplo, não representavam um bem a ser conquistado. Eles fluíam confortáveis em casas com quintais, noites silenciosas, trânsito sob controle e refeições com a família. Hoje, são um objeto de desejo, para muitos, quase inalcançável.

Um luxo tal qual um carro do ano, um aparelho eletrônico de última geração ou uma bolsa de grife. Por isso, nos últimos anos, a definição de luxo mudou. Antes, era visto como um bem que diferenciava uma pessoa das demais. Produtos caros e raros que poucos podiam comprar e mostrar. Com a produção - e a imitação - de grifes em larga escala, o conceito clássico entrou em crise. Hoje, o significado é mais nobre e está ligado às experiências de cada um. "É algo tão sublime que não precisa ser exibido para ninguém. Tem valor em si mesmo", explica o filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). O psiquiatra Jorge Forbes endossa: "O verdadeiro bem-estar não pode ser resumido a objetos ou lugares, porque não há mais a padronização da felicidade. O que torna um indivíduo único são as suas expressões singulares, que não podem ser medidas em dólares ou euros", analisa.

Por isso é que, com uma boa revisão de prioridades, seguida de algumas mudanças de atitudes, é possível reverter esse quadro sufocante, que neutraliza o prazer de grande parte da população adulta mundial, submersa num mundo de competitividade e stress generalizados.


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24/7/2008


 
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