Ao contrário do reservado banqueiro, o libanês naturalizado brasileiro Nahas tem um estilo de vida menos discreto. Ele chegou ao País em 1969, trazendo US$ 50 milhões na bagagem. Nos anos 1980, controlava 28 empresas. Era, no entanto, mais conhecido pelo estilo glamouroso de vida e por trazer ao Brasil celebridades como Alain Delon, Gina Lollobrigida e Omar Sharif. No mercado financeiro, ganhou fama por realizar operações de alto risco na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Não demorou a entrar em confronto com o então presidente do conselho administrativo da Bovespa, Eduardo da Rocha Azevedo, transferindo todas as suas operações para o Rio de Janeiro. Em 1989, na seqüência da suspensão de empréstimos bancários que obtinha costumeiramente, Nahas faliu e acabou acusado de provocar a quebra da Bolsa do Rio. Alijado do mercado, ele só deu a volta por cima em 2004, ao ser inocentado pela Justiça Federal das acusações de crime contra o sistema financeiro e a economia popular. Poucos meses depois, comemorou em alto estilo o casamento da filha, com a presença do ator Omar Sharif e show do cantor Paul Anka, canadense de origem síria. Voltou a operar no mercado e, na semana passada, aos 56 anos, estava em sua mansão, no Jardim América, em São Paulo, quando foi surpreendido pela chegada dos homens da Operação Satiagraha.
"Eu estou chocado", disse Nahas à ISTOÉ na sextafeira 11, depois de ser solto. "Nem na cortina de ferro soviética aconteceria isso." Os quatro filhos de Nahas também tiveram a prisão temporária pedida - apenas a de Fernando foi aceita pelo juiz, mas ele não foi encontrado pela PF. Sua filha, Natalie, estava em viagem à Europa, mas a casa teve a porta arrombada para cumprimento de mandado de busca. Ao tentar retomar suas atividades, Nahas não conseguiu entrar no próprio escritório. "Tudo isso para dizer que eu tenho a taxa do Fed?", ironizou, em referência a uma das acusações da PF: de que ele teria manipulado o mercado ao ter a informação privilegiada de que o Banco Central dos Estados Unidos iria aumentar a taxa de juros.
EIKE NA REDE
NOVO ALVO Eike Batista, dono da MMX
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Na manhã da quinta-feira 10, policiais federais fizeram uma busca na casa e no escritório do empresário Eike Batista, no Rio de Janeiro, com autorização da Justiça Federal do Amapá, para recolher documentos, dinheiro em espécie e computadores. Em junho, ao lançar ações da empresa OGX, Eike ficou R$ 24 bilhões mais rico. Agora, segundo o Ministério Público e a Polícia Federal, há indícios que apontam o envolvimento da mineradora MMX, de Eike, com uma "organização criminosa", responsável por fraude na licitação para a concessão da estrada de ferro do Amapá, que liga os municípios de Serra do Navio e Santana. Na sexta-feira 11, as ações da MMX chegaram a cair 13%.
Segundo a PF, houve uma operação fraudada para redirecionar a licitação para uma outra empresa também de Eike, a Acará Empreendimentos. A suposta fraude teria tido o envolvimento do governo do Amapá. As buscas ocorreram no Pará, Amapá e Rio. O Ministério Público no Amapá suspeita de fraude também na lavra de ouro da sociedade Mineração Pedra Branca do Amapari, integrante do grupo MMX, configurando subdeclaração de lavra e sonegação fiscal. O nome da operação: Toque de Midas, referência ao personagem que transformava em ouro tudo em que colocava o dedo. |
Na ação da PF, que colocou 300 policiais nas ruas na terça-feira 8, há outros personagens poderosos. O ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, conhecido por libertar presos políticos durante o regime militar de graça, é acusado de fazer lobby em favor de Dantas no governo. "Estou muito puto com a PF e com as declarações do Tarso", diz ele. Greenhalgh vinha auxiliando o principal advogado do Opportunity, Nélio Machado. "Comecei a trabalhar ajudando o Nélio em março do ano passado, ajudei no inquérito da Kroll, na história da Telecom Italia e da Brasil Telecom, na feitura de peças do acordo", diz o ex-deputado. Greenhalgh pode até ter ficado "puto", mas reconhece que fez mesmo o que diz o relatório da PF: buscou junto ao governo informações sobre se havia de fato uma operação policial que poderia levar à prisão de Dantas. Nessa busca, chegou a recorrer ao chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho. "Tinha gente da Abin atrás de um dos investigados. Liguei para Gilberto e disse: 'Gilberto, o que é isso?'. A informação se confirmou, era gente da Abin."
A Operação Satiagraha, que deixou boa parte do meio político e empresarial em polvorosa na semana passada, tem potencial para manter elevada a tensão nos bastidores do poder, como confirmam declarações feitas por advogados dos acusados que acenam com a possibilidade de tornar públicos documentos sigilosos que tramitam nos EUA e na Itália. Em Milão, corre na Justiça um processo segundo o qual a Telecom Italia, que firmou um contrato de consultoria de US$ 3,5 milhões com Naji Nahas, distribuiu propina à larga no Brasil. Nesse caso, há também documentos que comprovam o fato de adversários de Dantas terem enviado ao Brasil emissários com o intuito de corromper policiais federais e comprar jornalistas para que publicassem reportagens contrárias ao Opportunity. Em Nova York, processos envolvendo o Citigroup e o Opportunity, pela disputa societária da Brasil Telecom, mantêm em sigilo informações sobre o tumultuado relacionamento do governo Lula com Dantas. A mais explosiva briga empresarial da história recente do País vai agora enredar Dantas com a Justiça por um bom tempo. Mas, se os dois lados levarem adiante a "firmeza na verdade" embutida na Operação Satiagraha, a confusão ainda está bem longe de terminar.
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