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 EDIÇÃO EXTRA 12/09/2001
Massacre  

O medo da sombra
Estudiosos prevêem que trauma causado por atentados espalhará insegurança pelo mundo

Celina Côrtes

Américo Vermelho/Luciana Tancredo
O sociólogo Emir Sader e a psicanalista Helena Vianna acreditam que o terrorismo vai gerar paranóia e apreensão

"A quem o império vai contra-atacar?” A pergunta é do sociólogo Emir Sader, que considera uma “bobagem” o alarmismo diante da possibilidade de ser declarada uma terceira guerra mundial. “Guerra é um exército contra o outro, mas a quem se iria atacar?”, questiona. Embora até agora ninguém tenha reivindicado a autoria dos atentados, Emir Sader vê uma semelhança entre os métodos de atuação dos talibãs e do terrorista Osama Bin Laden, o primeiro suspeito do múltiplo atentado. A cientista social Maria Regina Soares Lima, com doutorado pela Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, admite que o episódio provoca uma forte insegurança no mundo. “O problema é que o ataque não tem nome nem endereço. Foi um atentado de aparência fundamentalista, mas por enquanto trata-se de um inimigo invisível”, teoriza.

Uma coisa é certa: a vulnerabilidade dos Estados Unidos. Sader acredita ainda que a fragilidade demonstrada pela maior potência do mundo evidencie a existência de um sistema interno de infiltração. O estudioso ainda consegue extrair um pensamento positivo sobre o episódio: “A grande lição seria a compreensão de que nenhuma ordem mundial consegue se manter na base da força.” Além da força militar, é indiscutível a hegemonia do estilo de vida americano, o chamado american way of life. A impotência do Golias diante de David deixou claro, no entanto, que essa hegemonia é bem mais frágil do que se possa imaginar. Até quando o mundo vai continuar comendo hambúrguer e tomando Coca-Cola é uma incógnita. Nenhum analista se arrisca, porém, a afirmar que o episódio poderia ser o início do fim de uma era.

As consequências imediatas são mais facilmente previsíveis. “Vai haver uma militarização, uma paranóia, um trauma”, prevê Emir Sader. Maria Regina Soares de Lima ainda consegue ver uma luz no fim do túnel: “Será que os países desenvolvidos não vão coordenar uma luta contra o terrorismo?”, especula. Para a psicanalista e médica Helena Bersserman Vianna, membro da Comissão Executiva da Sociedade Internacional da História da Psiquiatria e Psicanálise, seria anormal se o maior atentado terrorista da história da humanidade não despertasse apreensão e paranóia nas pessoas do mundo todo. “O âmago dos valores da civilização foi aviltado”, diz. Helena faz questão de deixar claro que nem o World Trade Center nem o Pentágono têm esse significado para ela, “mas sim os valores éticos e a vida de inocentes”. A psicanalista lembra de uma frase de Vinícius de Morais dos anos 50: “Se está tudo tão preto, a solução seria jogar uma bomba em Wall Street.” Doce ilusão do autor de Garota de Ipanema diante dos últimos fatos.

O antropólogo Roberto Da Matta, professor da Universidade de Notre Dame, em Indiana (EUA), acha um paradoxo que o país mais desenvolvido de uma civilização que se baseia na tecnologia se defronte com o mal em sua forma mais robusta e terrível. “É a irracionalidade pura emergindo. Estou tão chocado que não tenho nada a dizer.” Agora ele toma coragem para voltar às suas atividades nos Estados Unidos, no sábado 15. Já o antropólogo Luiz Antonio Machado, carioca de 60 anos com doutorado em sociologia pela Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, tem uma ótica própria do episódio. Ele vem acompanhando com temor as atitudes radicais tomadas pelo presidente George Bush desde que se elegeu. “Nada justifica atos como esses, mas Bush irritou os grupos responsáveis pelos atentados”, avalia. Ele teme o acirramento desse radicalismo, agora com o apoio da opinião pública americana.

 


Por Maurício Bernis
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