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O
medo da sombra
Estudiosos
prevêem que trauma causado por atentados espalhará insegurança pelo
mundo
Celina
Côrtes
| Américo
Vermelho/Luciana Tancredo |
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O sociólogo Emir Sader e a psicanalista Helena Vianna acreditam
que o terrorismo vai gerar paranóia e apreensão
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"A quem o império vai contra-atacar? A pergunta
é do sociólogo Emir Sader, que considera uma bobagem
o alarmismo diante da possibilidade de ser declarada uma terceira
guerra mundial. Guerra é um exército contra
o outro, mas a quem se iria atacar?, questiona. Embora até
agora ninguém tenha reivindicado a autoria dos atentados,
Emir Sader vê uma semelhança entre os métodos
de atuação dos talibãs e do terrorista Osama
Bin Laden, o primeiro suspeito do múltiplo atentado. A cientista
social Maria Regina Soares Lima, com doutorado pela Universidade
do Tennessee, nos Estados Unidos, admite que o episódio provoca
uma forte insegurança no mundo. O problema é
que o ataque não tem nome nem endereço. Foi um atentado
de aparência fundamentalista, mas por enquanto trata-se de
um inimigo invisível, teoriza.
Uma coisa é certa: a vulnerabilidade dos Estados Unidos.
Sader acredita ainda que a fragilidade demonstrada pela maior potência
do mundo evidencie a existência de um sistema interno de infiltração.
O estudioso ainda consegue extrair um pensamento positivo sobre
o episódio: A grande lição seria a compreensão
de que nenhuma ordem mundial consegue se manter na base da força.
Além da força militar, é indiscutível
a hegemonia do estilo de vida americano, o chamado american way
of life. A impotência do Golias diante de David deixou
claro, no entanto, que essa hegemonia é bem mais frágil
do que se possa imaginar. Até quando o mundo vai continuar
comendo hambúrguer e tomando Coca-Cola é uma incógnita.
Nenhum analista se arrisca, porém, a afirmar que o episódio
poderia ser o início do fim de uma era.
As consequências imediatas são mais facilmente previsíveis.
Vai haver uma militarização, uma paranóia,
um trauma, prevê Emir Sader. Maria Regina Soares de
Lima ainda consegue ver uma luz no fim do túnel: Será
que os países desenvolvidos não vão coordenar
uma luta contra o terrorismo?, especula. Para a psicanalista
e médica Helena Bersserman Vianna, membro da Comissão
Executiva da Sociedade Internacional da História da Psiquiatria
e Psicanálise, seria anormal se o maior atentado terrorista
da história da humanidade não despertasse apreensão
e paranóia nas pessoas do mundo todo. O âmago
dos valores da civilização foi aviltado, diz.
Helena faz questão de deixar claro que nem o World Trade
Center nem o Pentágono têm esse significado para ela,
mas sim os valores éticos e a vida de inocentes.
A psicanalista lembra de uma frase de Vinícius de Morais
dos anos 50: Se está tudo tão preto, a solução
seria jogar uma bomba em Wall Street. Doce ilusão do
autor de Garota de Ipanema diante dos últimos fatos.
O antropólogo Roberto Da Matta, professor da Universidade
de Notre Dame, em Indiana (EUA), acha um paradoxo que o país
mais desenvolvido de uma civilização que se baseia
na tecnologia se defronte com o mal em sua forma mais robusta e
terrível. É a irracionalidade pura emergindo.
Estou tão chocado que não tenho nada a dizer.
Agora ele toma coragem para voltar às suas atividades nos
Estados Unidos, no sábado 15. Já o antropólogo
Luiz Antonio Machado, carioca de 60 anos com doutorado em sociologia
pela Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, tem uma ótica
própria do episódio. Ele vem acompanhando com temor
as atitudes radicais tomadas pelo presidente George Bush desde que
se elegeu. Nada justifica atos como esses, mas Bush irritou
os grupos responsáveis pelos atentados, avalia. Ele
teme o acirramento desse radicalismo, agora com o apoio da opinião
pública americana.
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