Ricardo Arnt
Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta

Fogo de campanha

Apesar da histeria das campanhas, eleições limpas são a vitamina da alternância dos partidos no poder. Vencem os mais capazes

Não há dia em que o Facebook não brame indignado: “Leram o blog do Jean Willys? Material pró-Marina chama Dilma e LGBTs de Anticristo”. O primo chato de Mato Grosso não para de postar vídeos sobre o “Aébrio”: “Vamos falar de corrupção? Vamos falar de jatinhos e de Aecioporto?”

Já o “Brasil sem PT” jamais baixa a guarda: “Dilma faz reunião em suíte com diária de R$ 15 mil”. Em toda mídia ou rede social reinam o exagero, a hipérbole e a depreciação: “Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com os dois tumores gêmeos da nossa doença: a direita do atraso e a esquerda do atraso”, escreve o Jabor.

Patologias à parte, gostaria de acrescentar que não existe nova política. Basta pensar no Partido Verde alemão que durante anos adotou a mesma promessa e hoje atua como uma facção, tão importante quanto qualquer outra. Cada sociedade tem a política que consegue ter, ou a que merece. Na Grã-Bretanha, os deputados ouvem discursos sentados em banquinhos apertados na Câmara dos Comuns e de vez em quando murmuram: “Yes”. “No”. Não surpreende que a Escócia deseje sair do Reino Unido.

Contra o senso comum, afirmo que Aécio, Dilma e Marina são bons candidatos. Se ouvirmos o que estão dizendo, por trás da propaganda, veremos que têm bons argumentos e críticas. Aécio quer reconstruir o equilíbrio fiscal sem sacrificar os programas sociais. Dilma quer diminuir a desigualdade e desenvolver o País. Marina se propõe a aproveitar o melhor do PSDB e do PT e ir além da polarização nefasta. O problema é que diminuir a desigualdade é uma tarefa política difícil, mas sem crescimento econômico é muito mais. Distribuir renda sem aumentar a riqueza pode quebrar um país. É mais ou menos o que acontece na Venezuela.

Antes que o Facebook desabe com acusações de síndrome de Pollyanna, também afirmo que é necessário corrigir os preços administrados, ajustar a taxa de câmbio e reequilibrar as contas públicas e externas – todas medidas plenamente realizáveis. Estamos tecnicamente em recessão e a indústria está fechando postos de trabalho todo mês. Mas o quadro do emprego e renda continua positivo, o mercado interno cresce com os novos consumidores, o agronegócio está bombando e as exportações aumentam com a recuperação dos EUA. Há setores em dificuldades, mas em condições de reagir e criar oportunidades.

Os eleitores querem mudanças, mas não perder as conquistas recentes.

A despeito dos desafios que se apresentam, as condições da economia brasileira são razoáveis, com reservas cambiais de US$ 377 bilhões (lembram-se que já estivemos com US$ 16 bilhões?) e investimentos diretos estrangeiros de US$ 60 bilhões ao ano, que mantêm o país entre as cinco estrelas do mercado global. Há dias o economista Antônio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP e da Unicamp, chamou a atenção para o fato de que, apesar do baixo desempenho da economia, há pouco desinvestimento. A maioria das empresas mantém planos de ampliação e de modernização, mesmo com adiamentos no cronograma de desembolsos. Todas estão esperando para ver aonde vamos.

Apesar da histeria das campanhas, eleições limpas são a vitamina da alternância dos partidos no poder. Quem perder ou ganhar pode ganhar ou perder em 2018. Vencem os mais capazes.

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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