Ricardo Arnt
Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta

Corre, São Paulo, corre

A expansão da oferta de água em São Paulo atende a uma demanda perturbadora e inescapável, em longo prazo, mesmo com melhorias na rede e educação do consumo

Aúltima grande ampliação da rede d’água de São Paulo foi feita em 1993, quando foi implantado o sistema Alto Tietê. Atualmente, a Sabesp constrói, em Ibiúna, o nono reservatório da metrópole, o sistema São Lourenço, que captará água do rio Juquiá, afluente do rio Ribeira de Iguape, para fornecer 4,7 metros cúbicos por segundo de água para 1,5 milhão de pessoas, em 2018.

É possível que os paulistanos enfrentem um racionamento antes disso, nos próximos meses. Embora a estatal paulista seja uma das empresas mais modernas do setor, com uma extensa rede gerenciada e vários reservatórios interligados, o fato é que durante 25 anos – de 1993 a 2018 – não terá sido feita nenhuma ampliação bruta do sistema. Enquanto isso, a população metropolitana crescerá até atingir 21 milhões de pessoas.

Atualmente, os oito sistemas em operação fornecem, em condições normais, 75 m3/s para abastecimento. Mas para 2035 o Plano Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista estima que a demanda na macrometrópole (São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Vale do Paraíba e Litoral Norte) chegará a 283 m3/s, com 37 milhões de pessoas na região. Números como esses chegam a meter medo.

Várias obras de interligação e de aumento da capacidade dos reservatórios estão em andamento.

A ligação das represas de Jaguari e Atibainha, por exemplo, permitirá, no futuro, a troca de água do rio Paraíba do Sul com o sistema Cantareira. Entretanto, os mananciais que abastecem esses dois complexos estão quase secos e a obra só ficará pronta em 18 meses.
O Paraíba do Sul não pode aliviar a seca de São Paulo se mal consegue atender à demanda do Rio de Janeiro.

Há outra questão mais intrigante. No sistema São Lourenço, a Sabesp poderia captar muito mais do que 4,7m3/s, talvez até 22 m3/s. Ocorre que a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do grupo Votorantim, tem prioridade na concessão do uso das águas na região do Juquiá, onde administra um complexo de oito hidrelétricas que alimentam a extração de bauxita e a fabricação de alumínio nas fábricas de Alumínio, perto de Mairinque.

O contrato de outorga da CBA vence em 2016. Por lei, o abastecimento da população é prioritário. Já em 2012, a Sabesp poderia ter reivindicado o uso da água e potencializado a captação no Juquiá apenas aumentando o diâmetro da tubulação do São Lourenço. Mas os contratos já estavam fechados e a empresa não quis enfrentar o problema. Errou. Errou feio. Se tivesse ousado, o fantasma do racionamento seria afastado mais cedo.

A expansão da oferta de água na macrometrópole é uma demanda perturbadora e inescapável em longo prazo, mesmo com melhorias substanciais na rede, educação do consumo e incentivos para adoção de água de reúso nas empresas. Tem gente que perde o sono com isso, uma vez que a cidade não para de crescer. Tudo seria mais fácil e mais barato se não poluíssemos o que não devemos poluir. O rio Tietê, por exemplo, oferece mais água que o sistema Cantareira inteiro.

As soluções duradouras passam pelo uso da bacia do Ribeira de Iguape e da represa de Jurumirim, no rio Paranapanema, na divisa com o Paraná. Trata-se de captar água em lugares mais distantes da capital, como Registro e Jureia. Mas para quem já busca o recurso a 100 quilômetros, em Extrema, Minas Gerais, buscá-lo a 200 quilômetros não é novidade.

Vítima de seu gigantismo, São Paulo não pode senão acelerar a corrida na marcha insensata de aplacar uma demanda insaciável. Corre, São Paulo, corre.

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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