Ricardo Arnt
Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta

A Bolsa do Clima

"Quanto a geração atual está disposta a se sacrificar hoje para que, daqui a 50 ou 100 anos, tenhamos uma qualidade de vida aceitável?" (Pérsio Arida)

O aquecimento do planeta é inequívoco e muitas das mudanças climáticas que presenciamos não têm precedentes há milênios. A atmosfera esquentou, a quantidade de neve e gelo diminuiu, os oceanos se tornaram mais ácidos, o nível do mar subiu e os gases do efeito estufa criaram um manto que abafa o planeta. No Hemisfério Norte – mais sensível à mudança por conter mais terra e menos água que o Hemisfério Sul –, o período de três décadas sucessivas mais quentes dos últimos 1.400 anos ocorreu entre 1983 e 2012.

A interferência humana no clima é um fato. A civilização de sete bilhões de pessoas a caminho de nove bilhões influencia o ciclo d’água, a saúde dos oceanos, a redução da neve e das geleiras e os eventos climáticos “extremos”. Na atmosfera, a concentração de gás carbônico “antropogênico” (produzido pelo engenho humano) decorre, primariamente, da queima de combustíveis fósseis e, em segundo lugar, das emissões originadas por mudanças no uso da terra (como desmatamento). Tudo isso está documentado.

Divulgado em 31 de março, o 5º Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, não deixa dúvidas: os gases-estufa gerarão impactos climáticos por séculos à nossa frente – a menos que se descubra uma maneira de neutralizá-los. A poluição climática é um fenômeno novo – uma “externalidade” do passado sobre o presente e o futuro – e um desafio bastante difícil. Ela requer, segundo o jornalista britânico Martin Wolf, “ações custosas e coordenadas entre vários países, para lidar com uma ameaça distante, em nome de pessoas que ainda não nasceram, e sob um manto de perturbadoras incertezas sobre o custo de não agir”.

Quem acompanha o tema sabe que a crise econômica decorrente do colapso do mercado imobiliário nos Estados Unidos, em 2008, teve entre vários efeitos nefastos o de arrefecer a transição para a economia verde baseada em energias renováveis. As negociações climáticas do Protocolo de Kyoto estacionaram em impasse, o mercado de créditos de carbono encolheu e os investimentos em tecnologia verde diminuíram.

A recessão tornou difícil a vida daqueles que singram a onda do desenvolvimento sustentável.
Entretanto, a mudança climática não é uma “onda”, mas uma realidade alheia a posições na bolsa de valores do interesse geral. O encontro com os seus impactos é inevitável, afirmam 259 cientistas que compilaram 12 mil estudos científicos do 5º Relatório do IPCC. Nesse sentido, não importam cinco ou dez minutos de fama. As mudanças que legaremos às próximas gerações afetarão a saúde, a alimentação e a segurança do planeta. Ninguém ficará imune a elas.

Para limitar esses impactos são necessários um imposto universal sobre a emissão de poluentes e reduções substanciais e sustentáveis do seu volume, que custarão mais caro do que a sustentabilidade custa hoje. Quando isso acontecerá, ninguém sabe. O drama está contido na pergunta feita pelo economista Pérsio Arida: “Quanto a geração atual está disposta a se sacrificar hoje para que, daqui a 50 ou 100 anos, tenhamos uma qualidade de vida aceitável?”

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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