Ricardo Arnt
Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta

O enlace da ponte aérea

Em São Paulo os motoristas de táxi são donos dos carros; no Rio são empregados da frota. Adivinhe onde o troco volta integralmente e você tem menos chance de se aborrecer.

Quando fui morar em São Paulo, eu nada entendia. Demorei um ano para montar um mapa mental das áreas em que circulava, perdido no trânsito e no concreto sem pontos de orientação, muito diferente do Rio de Janeiro, onde as montanhas e o mar balizam os caminhos. Minha primeira impressão foi a pior possível. O que importam a prosperidade, o dinamismo e a efervescência quando se vive numa cidade tão feia? Eu não sabia que a beleza de São Paulo é invisível.

À primeira vista não se percebe. No Rio, você ia à padaria, pedia um litro de leite e o português, atrás do balcão, enfiava a mão na geladeira e saía com um saco plástico de leite da CCPL, pingando. Aí, pegava o papel de embrulhar pão, fazia um pacote e atava com um barbante. O papel colava no saco úmido. Você ia para casa carregando aquela coisa pegajosa pelo cordão. Em São Paulo, enfiavam o saco de leite num saco plástico. Pronto. Na banca de revista, punham o jornal em saco plástico para você não sujar a mão de tinta.
De todas as diferenças, o clima é a mais sensível.

São Paulo está a 760 metros de altitude, a altura de Teresópolis. Por causa do frio, as pessoas se cobrem de casacos e suéteres. Nos correios e nos cinemas, as filas são mais distintas. Até o trânsito é mais civilizado. Nos cruzamentos, as pessoas paravam e eu passava sempre primeiro, como bom bárbaro. Nos engarrafamentos, a manada de automóveis, resignada, espera sem buzinar, algo impensável no Rio. Em São Paulo, os motoristas de táxi são donos dos carros; no Rio, são empregados da frota. Adivinhe onde o troco volta integralmente e você tem menos chance de se aborrecer.

São Paulo é plutocrática. Tudo gira em função de dinheiro. Há mais empregos, os salários são mais altos e todos cobram pesado uns dos outros. Eletricistas, encanadores, chaveiros, táxis, todos os serviços são mais caros – mas mais profissionais. É preciso dinheiro para ter um bom apartamento, dinheiro para entrar como sócio num clube, dinheiro para ter casa de praia ou sítio (para fugir da cidade) e dinheiro para comprar um bom assento num show. Sem contar que é preciso se adiantar e andar rápido, porque há milhares iguais a você lotando todos os lugares.

O Rio é uma cidade para fora. São Paulo é para dentro. Os cariocas vão à praia, andam no calçadão e correm na Estrada das Paineiras. Os paulistas frequentam as casas, recebem amigos e dão jantares. No Rio, as pessoas exibem as formas e volumes na praia, democraticamente pelados, durante a vida inteira. Dá para acompanhar a evolução da humanidade. Talvez por isso os cariocas sejam mais informais (e folgados). Na capa de “Cinema Transcendental”, Caetano Veloso registrou uma clássica atitude do Rio: espairecer com os cotovelos enterrados na areia, de frente para o mar, de costas para a confusão, a decadência e os arrastões. Em São Paulo, conheço apenas a Praça do Pôr do Sol. A cidade da garoa não dá refresco.

Bobagens à parte, todos sabem que os cariocas têm inveja dos paulistas e os paulistas, inveja dos cariocas. Por isso a Ponte Aérea é a melhor coisa do Brasil – desculpem aí, Salvador, Porto Alegre e Belém. A diferença irrefutável é que o calor do Rio é insuportável e o clima de São Paulo, agradável. Mas entre as virtudes invisíveis da cidadania e a beleza exuberante, prefiro a aparência jubilante da forma. É verdade que a existência de Florianópolis complica a teoria.

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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brasil

EM 15/12/2014 09:51:13

Conforme o Portal O Globo: Petrobras pagou US$ 25 milhões extras à SBM para Lula inaugurar navio-plataforma, com todos esses indícios de irregularidades como o ministro e o procurador querem afastar as investigações do governo?