Ricardo Arnt
Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta

Última fronteira do agronegócio

Não basta produzir comida para o mundo. Para continuar a crescer, o agronegócio precisa agregar valores, como a preservação do ambiente global

Há dez anos o aumento da produtividade no campo convive com a queda quase contínua dos índices de desmatamento. Houve uma época em que parecia mais difícil controlar o desmatamento do que a inflação. Em ambos os casos os pessimistas estavam errados, mas nos dois as soluções chegaram tarde e custaram caro.

Felizmente hoje, o volume das safras cresce mais do que a área ocupada pelos cultivos. Graças à boa performance da agricultura tropical brasileira estão se apagando da memória décadas de recordes vexatórios de desmatamento, como o de 1995, com 29 mil km2 de florestas queimadas.

No ano passado, o agronegócio gerou US$ 83 bilhões de saldo positivo, um resultado crucial para amenizar o déficit e estabilizar a balança de pagamentos, sem o qual a economia estaria batendo pino com muito mais estridência.

Em 2013/2014 o Brasil colherá 193 milhões de toneladas de grãos, uma megassafra que todo ano aumenta. Os especialistas acreditam que poderemos chegar a 350 milhões de toneladas em 2050, num planeta com nove bilhões de pessoas.

Alguns já acordaram para “the shape of things to come”. Em dez anos, a classe média chinesa terá 630 milhões de pessoas. O Brasil é o país mais capacitado para atender à demanda global de alimentos, graças a seus recursos de terra, sol, água, energia, empreendedorismo, tecnologia e ciência.

Mas, no mundo congestionado do futuro, produzir comida não será o suficiente. Será necessário gerar valores, como a preservação da base periclitante dos ativos naturais e o zelo pela convivência global instantânea, volátil e desigual. A inovação consistirá em promover progresso em condições adversas, em uma economia de baixo carbono, Para continuar a crescer, a próxima fronteira da competitividade é a agricultura de baixo carbono. Para tanto, há dois anos o governo lançou o Plano ABC (Plano Agricultura de Baixo Carbono), que oferece financiamento a juro baixo para a recuperação de terras degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta e ações de reflorestamento e de redução de emissões de gases-estufa.

Em maio, foi regulamentado o funcionamento da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), sucessora da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), que o governo Collor extinguiu em 1990, demitindo 1.500 extencionistas rurais. A Anater vai coordenar o Plano ABC e alavancar a assistência técnica rural levando-a ao produtor no campo. Mas sua viabilidade política está longe de ser resolvida. Nem a diretoria foi nomeada.

Há um mês, os visionários do campo ganharam uma nova ferramenta, o GHG Protocol Agropecuária, que oferece um programa específico para controle das emissões rurais de gases-estufa. A agropecuária já produz 30% do total das emissões brutas brasileiras, perdendo apenas para os 32% das emissões decorrentes de mudanças de uso do solo (nas quais o agronegócio também é agente). O GHG Protocol é o instrumento voluntário de gestão de gases mais usado no mundo, já adotado por 106 empresas brasileiras, mas por apenas uma do setor agropecuário.

A gestão do carbono deixou de ser problema dos outros. A agropecuária tropical terá que demonstrar, agora, seu compromisso com a preservação do ambiente global.

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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