Edson Franco
Edson Franco é jornalista, editor de ISTOÉ Online e da revista 2016 e co-autor do livro "Música Popular Brasileira Hoje" (Publifolha)

Amada, idolatrada, salve, salve

Na Olimpíada, o patriota é um homem-bomba que fere muita gente com os estilhaços da sua brasilidade incontrolável

O patriotismo é a mais incontornável, acessível e sedutora forma de babaquice. Se não consegue destaque na área em que atua, se não é capaz de produzir uma piada luminosa na mesa do bar, se não encontra espaço para crescer em nenhuma religião, o babaca sempre terá o patriotismo como escoadouro para a sua insignificância, a sua incapacidade de entrar em grupos para os quais ninguém nasce com direito adquirido.

É isso. Para tornar-se patriota não é preciso diploma, carteirinha de sócio nem convite para uma comunidade no Facebook. O QI mínimo recomendável é aquele necessário para decorar os nomes de alguns atletas. Ou seja, caso fosse do seu interesse, um papagaio passaria no teste. A única aptidão física exigida é um pulmão razoavelmente em ordem, bom o suficiente para soprar uma vuvuzela.

O patriota de ofício encontra o paraíso numa Olimpíada. Dilui-se entre os torcedores, invariavelmente é o mais animado, sente-se querido, acredita ter, enfim, tornado-se um líder, mas sempre volta sozinho para o hotel. Terminadas as competições, o patriota volta à sua condição de mala, de estorvo, de babaca. Perde a utilidade e tem de ser descartado. Mas os Jogos abastecerem seu aspecto sustentável. O patriota é reciclável. Na competição do dia seguinte, lá está ele.

Democrático, o patriotismo se espalha pelos cinco anéis da bandeira olímpica. No começo dos Jogos de Londres, era difícil distinguir o elemento. Mas, duas semanas depois, o patriota de ofício aparece tão nítido quanto um contraste de tomografia. Entre os nórdicos com seus chapéus de viking, ele é o mais violento e embriagado. Em meio aos americanos, é o que faz pose de cantor de ópera para entoar o hino. Na torcida asiática, ele se destaca por produzir desenfreadamente fotos com seu iPhone (Galaxy, no caso dos coreanos).

E há, claro, o brasileiro, um capítulo à parte. Nas arquibancadas, ele nem aparece tanto. Seu palco predileto são as estações de metrô, os pontos turísticos e, o mais cobiçado deles, as câmeras de televisão. Nessas locações e circunstâncias, o patriota babaca vira um homem-bomba, atingindo o maior número possível de pessoas com os estilhaços da sua brasilidade incontrolável.

Houve momentos em Londres nos quais qualquer um – torcedor, jornalista ou cartola – se deixou infectar pelo altamente contagioso vírus da babaquice patriótica. Na hora em que os pequenos Arthur Zanetti e Sarah Menezes conquistaram seus ouros, a vontade era de abraçar todos os falantes de português que estavam na arena e de cantar junto “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Quando as meninas do vôlei viraram aquele jogo praticamente perdido para a Rússia com um empurrão empolgante da torcida, o sentimento era de redenção nacional. Durante a cerimônia de encerramento, torcedores e jornalistas brasileiros não conseguiram controlar os arrepios decorrentes da execução do Hino Nacional. Seria possível ralar um parmesão no braço de cada um deles.

Essa foi a primeira Olimpíada que acompanhei de perto. Não usei roupa verde e amarela, não carreguei nenhuma bandeira e andava sempre com a credencial pendendo do pescoço, o que, em tese, indica um profissional isento por trás do escudo. Que nada. Nos momentos descritos no parágrafo anterior – e só neles –, fui um patriota de ofício. E adorei. Tanto que volto ao Brasil com uma resolução: a cada quatro anos, vou fingir distanciamento crítico na hora das nossas vitórias. Mas, por dentro, estarei dando um salto ornamental na piscina da babaquice patriótica. Valeu, Londres!
 


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