Ana Paula Padrão
Ana Paula Padrão é jornalista e apresentadora

GENTILEZA VIROU FRAQUEZA

"Estou sempre fora de moda. Querendo falar de gentileza, imaginem vocês! Pura rebeldia. Sair por aí exibindo minhas vulnerabilidades e, em ato de pura desobediência civil, esperar alguma cumplicidade"

Ser gentil é um ato de rebeldia. Você sai às ruas e insiste, briga, luta para se manter gentil. O motorista quase te mata de susto buzinando e te xingando porque você usou a faixa de pedestres quando o sinal estava fechado para ele. Você posta um pensamento gentil nas redes sociais apesar de ler dezenas de comentários xenofóbicos, homofóbicos, irônicos e maldosos sobre tudo e todos. Inclusive você. Afinal, você é obviamente um idiota gentil. Você se recusa a participar de uma daquelas conversas tolas de gente que fala – mal – de quem nunca viu na vida. Você entende que as pessoas nem sempre têm tempo, ou disposição ou estão muito preocupadas consigo mesmas para reparar na sua tristeza. Você se mantém gentil com elas.

Elas avançam o sinal e ferem você. Porque sendo gentil você está sendo vulnerável. E é tão fácil bater em alguém frágil.

Não é de hoje que a psicanálise, a filosofia e as religiões tratam da dicotomia entre o egoísmo da autopreservação e a gentileza do amor que liberta.

Há teorias evolucionistas que defendem que as sociedades com maior número de pessoas altruístas sobreviveram por mais tempo por serem mais capazes de manter a coesão. Pesquisadores da atualidade dizem, baseados em estudos, que gestos de gentileza liberam substâncias que proporcionam prazer e felicidade. Mas também há Freud, para quem o prazer sexual e a gentileza seriam antagônicos. Aí eu penso: mas nas sociedades contemporâneas, tão moralmente liberais, isso ainda faz sentido? E se Freud não mais explica, por que não somos gentis? E, mais do que isso, por que louvamos a ausência de gentileza?

Gentileza virou fraqueza. É preciso ser macho pacas para ser gentil nos dias de hoje. Só consigo associar a aversão à gentileza à profunda necessidade de ser – ou parecer ser – invencível e bem-sucedido. Nossas fragilidades seriam uma vergonha social.
Um empecilho à carreira, ao acúmulo de dinheiro.

O sucesso vira capa de revista. A gentileza pela gentileza não. E daí que cada uma das pessoas com a qual você cruza todos os dias carregue uma história única de dor? E que esteja ali, sendo quem deve ser a partir dessas circunstâncias? Ser gentil com cada uma delas seria um gesto de compreensão da limitação alheia e, portanto, da nossa própria.

Quem quer isso? Como disse William Shakespeare, “O egoísmo unifica os insignificantes”. Mas e daí se ninguém descobrir e mapear nossas fraquezas?

Não ter tempo para gentilezas é bonito. É justificável diante da eterna ambivalência humana: queremos ser bons, mas temos medo. Não dizer bom-dia significa que você é muito importante. Ou muito ocupado. Humilhar os que não concordam com suas ideias é coisa de gente forte. E que está do lado certo. Como se houvesse um lado errado. Porque se nenhum de nós abrir a boca, ninguém vai reparar que no nosso modelo de felicidade tem alguém chorando ali no canto. Porque ser gentil abala sua autonomia. Enfim, ser gentil está fora de moda. Estou sempre fora de moda. Querendo falar de gentileza, imaginem vocês! Pura rebeldia. Sair por aí exibindo minhas vulnerabilidades e, em ato de pura desobediência civil, esperar alguma cumplicidade. Deve ser a idade.

Ana Paula Padrão é jornalista e empresária


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Carlos Eduardo

EM 10/11/2014 14:46:07

Vendo dessa forma parece até que é o fim dos poetas que vive de sultilesas...hshshs


Mayana

EM 09/11/2014 21:39:58

Adorei!


Adriano Nascimento

EM 09/11/2014 11:37:11

Excelente matéria Ana!!!


jose braz de macedo

EM 08/11/2014 22:12:44

Excelente. Atendi. Li. Não me arrependi. Todos deveriam dispor de tempo para gentilezas. Relevar, compreender. Gentileza, creio, gera gentileza. Mesmo que o outro não disponha de gesto na mesma intensidade. Assunto interessante que deveria fazer parte da publicidade oficial. Parabéns Ana. Abraço.


Milton Queiróz

EM 08/11/2014 19:05:00

Uma análise interessante principalmente em nossos dias ,onde cansamos de ver indelicadeza de toda espécie eu acho que vale a pena ser gentil,independente do que está em nossa volta.Parabéns pela matéria .