Paulo Lima
Paulo Lima é fundador da editora e da revista Trip

Foto de Segunda

 Sem fazer pose de intelectual blasé, um artista paulistano produz obras e imagens intrigantes há mais de 30 anos em todas as plataformas que encontra

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Há 11 anos, um grupo formado por aproximadamente 500 pessoas recebe e-mails com uma fotografia, sempre às segundas-feiras. Nas mensagens, aparece o provocativo assunto “foto de segunda”. O remetente é Tadeu Jungle, que criou o projeto em 2003. Sua intenção era  abrir um canal com amigos e pessoas com quem queria manter contato a partir de uma imagem de sua autoria. “É diferente das redes sociais, que nem existiam na época, o retorno é pessoal e privado. E, para comentar, a pessoa tem que responder diretamente para mim. O retorno é muito bom, abriu muitas possibilidades de conversas que vão desde uma discussão de linguagem artística até comentários pessoais ou possibilidades de novos projetos profissionais.”

No caso da foto que ilustra a coluna, enviada para o grupo na semana passada com o título Sozinha (Coney Island, NY, 2014), Tadeu recebeu os mais variados tipos de comentários, desde “lembra a pintura de fulano de tal” até “você ainda está em Nova York? Vamos nos encontrar!” ou “por mim ela não estaria sozinha”. Ainda sobre a ideia por trás do projeto, Tadeu explica: “Alguns curadores, no começo, achavam que eu não deveria pôr título nas fotos, mas eu discordo. Para mim a obra é o título e a foto. O título é a chave do meu ponto de vista sobre aquela imagem. A linguagem verbal sempre foi fundamental no meu trabalho.”

A foto foi feita em julho deste ano. “Sempre quis conhecer Coney Island, adoro praia cheia, gosto de gente. E finalmente consegui ir.” O gosto por praia cheia, aliás, resultou em um outro trabalho em que Tadeu fotografou as praias brasileiras (e seus frequentadores) percorridas por ele de 2004 a 2006, desde o Rio Grande do Sul até Belém do Pará, num ensaio chamado Povo da Praia.

O multiartista ficou mais conhecido quando o programa “Fábrica do Som” estreou em 1983 na TV Cultura. Era um projeto inovador para a época, ao vivo, e ele, como apresentador, aos 27 anos, era o seu eixo central. Ágil, inquieto e irreverente, se movia tanto quanto as câmeras e as bandas de rock que se apresentavam no palco do Sesc Pompeia e interagia sem parar com o público de mais de 1.100 pessoas ou com as câmeras, provocando os jovens a uma maior participação na vida cultural e política em plena época da abertura no Brasil. Muito antes de projetos como os de Serginho Groisman popularizarem esse tipo de formato nas televisões abertas, Tadeu testava a fórmula enquanto a inventava.

Serginho, aliás, fez parte de um outro produto inovador que tinha Tadeu entre suas cabeças pensantes, o inesquecível “TV Mix”, iniciativa da TV Gazeta de São Paulo que juntava nomes como Fernando Meirelles, Astrid Fontenelle, Anna Muylaert, Hugo Prata, Alê Primo Marcelo Mansfield, Cleber Machado, Marcelo Tas e este colunista, entre muitos outros, durante a efervescência dos anos 80.

Ao longo de uma carreira de mais de 30 anos, fez parte da “geração do vídeo independente” do começo dos anos 1980, mas também é poeta, designer gráfico, fotógrafo, artista plástico, diretor de cinema, televisão e publicidade. É também sócio e diretor da produtora Academia de Filmes.

A retrospectiva de sua extensa obra e experimentações pôde ser vista na mostra “Tadeu Jungle Videofotopoesia”, que esteve em cartaz no ano passado no Oi Futuro Flamengo, no Rio. Um livro de mais de 300 páginas derivou dessa mostra e tem seu lançamento previsto para novembro deste ano.

Ao contrário de figuras que se deslumbram diante das próprias imagens e, depois de produzirem meia dúzia de peças seja do que for, passam a se sentir e a se comportar como “primas-donas”, fazendo o tipo “artista Everest” (frio, altivo e distante), Tadeu não se leva mais a sério do que a vida manda e, sem fazer nenhum esforço para isso, não para de experimentar, produzir e testar fórmulas.

E nesse sentido faz eco a outro artista brasileiro de respeito, o ator Lázaro Ramos. Em entrevista recente à “Trip”, ele declarou: “Quando você se acredita alguma coisa, você estaciona, fica obsoleto.” Exatamente por isso, Tadeu Jungle não para. E vive fazendo arte. 


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