Ricardo Amorim
Economista, apresentador do "Manhattan Connection" (Globo News) e presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br)

Resoluções de Ano-Novo

"Em resposta a sua obesidade, o governo nos pôs de regime. Em vez de apertar o próprio cinto e cortar gastos, ele aperta o nosso e aumenta impostos"

Todo fim de ano, bilhões de pessoas em todo o planeta decidem mudar. Infindáveis resoluções são tomadas. Faremos um regime rígido, frequentaremos a academia e ligaremos mais para nossos pais. A essa altura, a maior parte dessas resoluções já caiu por terra. E as do governo brasileiro? Assim que foi reeleita, a presidente mudou o discurso, reconheceu que nossa obesidade fiscal já não nos deixa caminhar e prometeu combatê-la. O governo moderaria sua alimentação e se exercitaria mais. Para não deixar dúvidas quanto à seriedade do compromisso, Joaquim “Mãos de Tesoura” Levy foi chamado para personal trainer e nutricionista. Levy anunciou a nova meta de peso – um superávit das contas públicas, desconsiderando gastos com juros da dívida de 1,2% do PIB – e prometeu o fim da contabilidade criativa. Com o ministro Mantega, as calorias de chocolate, churrasco e cerveja não contavam. Para chegar lá, o governo teria de emagrecer uns R$ 70 bilhões. No ano passado, mesmo com arrecadação recorde, nosso setor público gastou mais do que arrecadou, desconsiderando os gastos com juros pela primeira vez em 17 anos.

Para afinar a cintura governamental e permitir que o Brasil voltasse a caminhar em 2015 e correr nos anos seguintes, Levy prometeu pôr a tesoura para funcionar. À elevada carga de impostos que pagamos não correspondem serviços públicos em quantidade e qualidade condizentes, sinal evidente de que gordura para se cortar nos gastos públicos há de sobra. Para fazer isso, o ministro Nelson Barbosa anunciou a revisão da fórmula de reajuste do salário mínimo. Aí, entrou em ação o inimigo número 1 das resoluções de Ano-Novo: a própria pessoa que as tomou, no caso a presidente Dilma. Uma coisa é prometer emagrecer, outra é manter a boca fechada para que isso aconteça. Ao desautorizar seu ministro, a presidente pareceu não estar disposta a fazer os sacrifícios que o objetivo exige. Não há nada de errado em não concordar com essa medida em si. Dado o fim, é prerrogativa da presidente escolher os meios para alcançá-lo. Alguém que decide se exercitar mais pode preferir correr ou nadar.

O problema é que, desde então, as medidas de ajuste têm sido concentradas em aumentos de impostos. Dos R$ 46 bilhões anunciados, só R$18 bilhões viriam de cortes de gastos e o Congresso ainda pode reduzir esse número. Os outros R$ 28 bilhões sairão do nosso bolso, não do bolso do governo. O aumento do Imposto de Renda reduzirá o quanto teremos para gastar e ainda pagaremos mais pela gasolina, pelos veículos, produtos importados, cosméticos e crédito. Em resposta a sua obesidade, o governo nos pôs de regime. Em vez de apertar o próprio cinto e cortar gastos, ele aperta o nosso e aumenta impostos. Além das medidas já anunciadas, cerca de R$ 25 bilhões em ajustes adicionais serão necessários. Para o bem da economia brasileira, espero que eles venham de cortes de gastos públicos.

Mau desempenho e desequilíbrios macroeconômicos pioraram as expectativas, causando a estagnação da economia brasileira em 2014. As expectativas de crescimento para este ano são parecidas. No entanto, ao contrário do que aconteceu nos últimos quatro anos, podemos terminar o ano melhor do que começamos. Medidas corretas aumentariam o otimismo de consumidores e empresários, levando-os a consumir e investir mais. O País voltaria a crescer e o crescimento poderia acelerar-se nos anos seguintes. Para isso, presidente, não basta contratar o personal trainer. É preciso fazer o que ele propõe.

Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa “Manhattan Connection”, da Globonews, e presidente da Ricam Consultoria  


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