Leonardo Attuch

Ilha da fantasia

O templo do luxo, assaltado duas vezes em São Paulo, é o retrato do nosso apartheid social

Na cidade de Tóquio, o maior mercado de produtos de luxo no mundo, lojas de grifes como Tiffany, Rolex, Montblanc, Louis Vuitton, Prada e Hermès estão concentradas no distrito de Ginza. Todas na rua, a céu aberto. Por aqui, o templo do luxo foi erguido como uma autêntica fortaleza.

E o Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, acabou se tornando o melhor retrato do apartheid social brasileiro. Pertinho de uma favela, espigões de apartamentos de alto padrão, que chegam a custar até R$ 16 milhões, com helipontos e unidos a um centro de compras cercado por uma muralha, que agride e violenta a paisagem urbana, assim como os barracos. Dos empreendimentos da metrópole, é o mais terceiro-mundista.

Até recentemente, só era possível chegar de carro ao Cidade Jardim. Mas, como os funcionários também precisavam ir ao trabalho, instalou-se ali perto um ponto de ônibus. O resultado foi cômico: além dos trabalhadores, um novo público, vindo das periferias, passou a visitar o local apenas pela curiosidade de conhecer o mundinho dos ultrarricos. E a “exclusividade” vendida pelos incorporadores foi pelos ares, quando as duas castas sociais começaram a se ver de perto, sem, no entanto, se reconhecer. Se esse estranhamento não bastasse, a ilha da fantasia sofreu, na semana passada, seu segundo assalto, quando homens armados com pistolas e fuzis roubaram R$ 1,5 milhão em relógios Rolex – antes, já haviam levado joias da Tiffany. Alguns já foram presos, mas o medo na ilha do luxo permanece.

O empreendimento está condenado? Talvez sim, talvez não. Mas a bolha artificial e ilusória em que os milionários se escondem encerra uma lição. Por que será que no Japão as grifes de luxo estão nas ruas? Porque lá até os presidentes de empresas varrem as calçadas diante de suas casas e não se envergonham em tomar ônibus para o trabalho. Por aqui, o que se busca é a blindagem, a exclusão, o muro, o distanciamento em relação ao resto – “eu tenho, você não tem”. Eis aí a essência do pensamento arrivista.

Na África do Sul, onde a bola já começou a rolar, o regime de segregação durou de 1948 a 1990. Foi uma das páginas mais vergonhosas da história da humanidade. Mas hoje tanto o herói do país, Nelson Mandela, como o atual presidente, Jacob Zuma, são ex-prisioneiros. No Brasil, ainda faltam quatro anos para a Copa. É tempo suficiente para acabar com o nosso apartheid. Bafana, bafana.


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Cláudio

EM 14/06/2010 16:09:00

Poucas vezes na vida li um texto tão completo com tão poucas palavras. Parabéns ao autor!


Aguinaldo Luz

EM 13/06/2010 15:27:57

O ser humano precisa aprender uma simples norma da vida , não basta eu ter é imprescidivel que meu próximo tambem tenha, do contrario todos perdem. Aqui no Brasil o Empresario luta com unhas e dentes para pagar o mais pouco possivel eles dizem que é a lei de mercado mas esquecem da lei da sobrevive


Iara Barros

EM 12/06/2010 17:42:00

Parabéns. Continuamos uma repbliqueta terceiro mundista. O filme é antigo. Continaumos sem segurança, amendrontados, endividados e falidos. Eita desigualdade.


Ed>

EM 12/06/2010 05:39:10

Lula fala que um grande percentual de brasileiros migraram para classes b e c, eu acredito nele, mas nao foi resultado de trabalho e sim da distribuiçao sem criterio do bolsa familia.E a bandidada só aumenta de cima para baixo.


Pinduca

EM 12/06/2010 01:36:12

Nada à acrescentar ,parabéns!


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