Meu primeiro encontro com o Diabo
Ele, o Tinhoso, com sua loção fedorenta de enxofre, continua à solta, mais vivo que nunca
A primeira vez que eu vi o diabo foi quando tinha seis anos. Lá estava, num livro de ilustrações bíblicas, o Arcanjo Miguel enfiando sua lança no ventre do horrendo Satanás, com pés de cabra, chifres pontudos e tez de um marrom demoníaco. Foi tamanho o espanto que perdi o sono por algumas noites depois da assustadora visão. Até o começo da adolescência, aquele diabo me perseguiu com sua feiura e seu mistério. Sempre temi o Coisa Ruim, na mesma medida em que me sentia atraído pelo seu aparente ar sedutor e sua carnalidade, o extremo oposto do rival Deus, sempre projetado envolto em barbas brancas, túnicas esvoaçantes e bondade infinita. No interior, “no tempo de eu menino”, como diria o poeta, ouvia muitas histórias, todas nascidas da imaginação voluptuosa do povo. Histórias como a de Dona Teófila, que virava porco em noite de lua cheia, parte do seu pacto com o Ferrabrás. Ou vez por outra surgia na cidade um sujeito “feio como o diabo”, o que bastava pro povo achar que se tratava do próprio. Lembro também da família que diziam ter feito um pacto com o Capiroto, e que por isso teria criado fortuna tão rápida quanto misteriosamente. O certo é que a possibilidade da existência do diabo, no campo ou na cidade, a sério ou em anedotas, no passado ou no presente (vide as telerreligiões de hoje), com menos ou mais intensidade, sempre encheu as mentes humanas de perversa e satânica curiosidade. E se existir de fato aquele inferno dos cristãos, com labaredas de fogo sem fim e caldeirões de breu enfumaçados, com condenados urrando ad eternum? E se a morte nos reservar, a nós pecadores, o terrível destino da eternidade nesse lugar tenebroso e inóspito? Havia um amigo da rua que jurou ter visto o diabo em seu quintal ao fim da tarde, em carne e chifres. Passamos vários dias, eu e outros meninos vizinhos, indo ao seu quintal no lusco-fusco das seis horas, com uma ansiedade tamanha que superava o nosso medo, para checar a tal “informação”. Nunca vimos nada, graças a Deus (acho eu!), e a dúvida acerca de sua existência permaneceu em nossas mentes anos afora. O romancista que “compôs” o diabo é de um gênio inigualável, pois não pode haver personagem mais sedutor e temido e eterno e misterioso que este. Nem Deus em toda a sua glória, nem Jesus Cristo, nem Maria, nem João Batista, nem Salomé, nem Barrabás. Se nunca se falou tanto em Deus, também o diabo nunca esteve tão em alta (apesar da crença de que o inferno fica abaixo da Terra). Ele, o Tinhoso, com sua loção fedorenta de enxofre, continua à solta, mais vivo que nunca. Agindo a torto e a direito, fazendo o diabo a quatro, cheio de demoníacas artimanhas. Afinal, como alguém já falou antes de mim, o inferno é (e pra sempre será) mesmo aqui. P.S.: Uma curiosidade: o verbete diabo ocupa muitas linhas no dicionário. Seus sinônimos passam de uma centena e vão desde os brejeiros Anhangá, Beiçudo, Cifé e Labrego até os sonoros (e assustadores) Zarapelho e Mafarrico. Deus ocupa menos espaço.
Totó Vale
EM 19/07/2010 12:58:18
O Zeca vem nos auxiliar com histórias dos tempos de criança, na nossa Arari, a revivermos um passado muito interessante aqui vivido. Lembrando ai neste seu "primeiro encontro com o Tinhoso", que ele o Fut, por várias vezes interrompeu o recebimento de verdadeiras fortunas, deixadas em sonho.
Gilson Borges Corrêa
EM 23/05/2010 00:05:15
Depois de analisar tantas letras densas, com a denúncia marcada no desamparo dos que dizem " a rua é reta a vida é torta, quem se importa,se eu vou morrer de sede ou se eu vou morrer de fome", na poética "As meninas dos jardins", de Zeca Baleiro, me deparo com esta crônica tão despojada e engraçada.
Julio Marinho
EM 21/05/2010 22:21:13
Engraçado, irreverente e muito, muito, muito mesmo, criativo. Não me é surpresa vindo de quem veio esse texto, mas o fato de ter sido publicado....hummm, ai sim é de grande surpresa e alívio, afinal, não é todo dia que se vê alguma coisa inteligente sendo publicada, ufa ufa.
