Miguel Falabella
Miguel Falabella é ator, diretor, dramaturgo e autor de novelas

Sonhar não custa nada

Há sonhos que nascem prematuros. Como é o caso de alguns bebês. Afoitos, eles gritam sua existência

Recebo mensagem de um velho amigo que vive fora, mudando seus planos de viagem por causa da crise aérea deflagrada pelo vulcão da Islândia, que ruge sua fúria outra vez, escurecendo os céus do norte da Europa. Já não poderemos nos ver como tínhamos combinado, porque as datas vão acabar se perdendo, mas, quando a natureza cobra seu preço, não há o que se fazer. Não poderemos mais nos abraçar e lembrar como sonhávamos, porque os laços mais fortes de uma geração de amigos são os sonhos compartilhados, sem dúvida alguma. E somente aqueles que viveram a mesma fatia de vida são capazes de entendê-los ou, em última análise, de adivinhar os caminhos trilhados até eles, porque as gerações mudam as modas, as gírias, os costumes, mas mudam principalmente os sonhos ou a maneira de sonhá-los.

É mesmo curioso observar as novas gerações e a estruturação de seus sonhos. Não iniciei a crônica com o rugir do vulcão impunemente. Acredito que a consciência de que o planeta anda gravemente ferido e a constatação de que o tempo parece se esgotar muito rapidamente, agora, têm transformado radicalmente os sonhos da nova geração, tornando-os mais objetivos, mais concretos, sem nenhuma chance para aqueles sonhos-que-não-podem-ser que, outrora, preenchiam nossos dias. Talvez seja assim mesmo, eu penso, com vontade de rever o amigo. Talvez já não haja lugar para utopias delirantes e aspirações etéreas. Mas se, por um lado, a objetividade e as ambições herdadas dos vorazes yuppies do final do século passado têm seus aficionados, por outro, sinto que esse olhar para um material tão delicado acaba nos aprisionando num espaço cada vez menos tolerante. Seja como for, sonhos, ainda que de formas diferentes, são feitos da mesma matéria e vale o lembrete para aqueles que ainda não desistiram deles.

Há sonhos que nascem prematuros. Como é o caso de alguns bebês. Afoitos, eles gritam sua existência em algum lugar da mente e abrem caminho por entre a massa enevoada, querendo fazer-se ouvir, ignorantes do fato de que ainda não estão fortes o bastante para justificar o alarde. Geralmente são abandonados à própria sorte e acabam desaparecendo na bruma. Eu abandonei um bom número deles à beira da estrada e, anos depois, passo grande parte do meu pouco tempo livre tentando resgatá-los. Passamos todos, no final das contas. A tal maturidade de que tanto falavam nada mais é do que aceitar a nossa galopante fragilidade. Mas voltemos ao sonho, matéria da qual somos feitos. Aprendi que um sonho prematuro, com cuidado, desejo e afeto, pode sobreviver e tornar-se uma daquelas raras alegrias eternas. O problema é saber como organizar-se para chegar a eles, porque os costumes impõem novas regras até mesmo para esse nobre esporte que não custa nada. Como dizia Emily Dickinson, a poetisa norte-americana, “Nunca falei com Deus/Nunca fui até o céu/Para ir lá adivinho/Qual é o melhor caminho!” É assim que se faz! Bons sonhos!


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Aldenicy Malcher

EM 19/08/2010 22:15:27

esse texto me deixou meio nostalgica ._. muito bom. Seguir os sonhos, tentar realiza-los.. é outra utopia. E as vezes quando acontecem, não são como imaginamos. AH, as pessoas são indecisas.


claudia

EM 02/06/2010 20:59:46

Miguel sem duvida é um escritor nato, mas aqui ele não foi bem claro na sua mensagem, confundiu tudo.....misturou assuntos.....enfim , não entendi nada.


Reinaldo

EM 01/06/2010 11:56:26

Concordo que sonhos não podem deixar de serem lembrados , Miguel , mas discordo de que você e seu amigo sejam vítimas de qualquer coisa ( seja pela mudança dos costumes, seja pelo tempo que passou, ou pela equivocada culpabilidade da natureza). Você só não realiza seu sonho quando não quer.


Cristiana Gomes

EM 25/05/2010 15:47:55

Adoro as crônicas do Miguel! Ele nos faz sonhar com suas palavras cheias de poesia. Que Miguel permaneça entre nós por muito tempo.


Rosana Fachinetti

EM 21/05/2010 12:44:09

Falabella é sinônimo não apenas de brilhantismo retórico mas, do meu ponto de vista, de uma aguçada sensibilidade aliada a um prático raciocínio. Como é prazeiroso ler-te, ouvir-te e saber-te meu semelhante: não por ter tuas tantas qualidades mas, por ter podido conhecê-las e apreendê-las! Amo-te!


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