A justiça dos lobos
Há dez anos, um inocente foi preso acusado de matar a mulher. O delegado? O do caso Bruno
O título da coluna vem de um livro escrito por José Cleves, o melhor repórter policial de Minas Gerais, de quem fui colega. Cleves havia se especializado em denunciar esquemas de corrupção na polícia mineira, como a venda de armas, de carteiras de habilitação e o envolvimento de policiais com a máfia dos caça-níqueis, o que lhe rendeu prêmios e ameaças de morte. Em 10 de dezembro de 2000, sua esposa foi assassinada por dois menores quando o casal, acompanhado dos filhos, voltava para casa, em Belo Horizonte. Embora as crianças e a família da vítima testemunhassem a seu favor, o jornalista logo se viu no banco dos réus, acusado de planejar a execução da própria mulher. Foi preso e massacrado. Só oito anos depois, veio a absolvição definitiva pelo STF. Em todas as instâncias onde o processo tramitou, ele foi inocentado – ao todo, foram 25 votos a zero. Por que essa história é relevante? Porque o delegado que invadiu todas as televisões para proclamar a culpa do jornalista e transformá-lo num psicopata foi Édson Moreira, o mesmo do caso Bruno. Isso significa que o goleiro do Flamengo é inocente? Evidente que não. Mas a precipitação, a presunção de culpa, a síndrome de celebridade de um policial e a espetacularização de investigações por parte da mídia, que já transformou Bruno num monstro e também num personagem “indefensável”, em nada favorecem o esclarecimento da verdade, nem contribuem para o resgate da vítima, Eliza Samudio. E podem até contaminar todo o inquérito, ajudando a absolver eventuais culpados. No caso Bruno, as contradições já começam a surgir. De acordo com a perícia, a mancha encontrada no carro de Bola, o suposto executor de Eliza, não era de sangue, conforme havia sido divulgado pela polícia. O menor J. prestou dois depoimentos diferentes – num deles, Bruno estava presente na cena do crime; no outro, não. E o trecho mais assustador, dando conta de que Eliza foi desossada, com parte do corpo atirada aos cachorros, enquanto Bruno, segundo o delegado, “tomava uma cervejinha”, já é considerado fantasioso pela própria polícia porque não foram encontradas manchas de sangue nem no suposto local do assassinato nem no canil da propriedade. Talvez tenha sido um crime perfeito, sem rastros ou vestígios. Mas a polícia teria a obrigação de considerar outras hipóteses, com um pouco mais de sofisticação psicológica, como a do abandono da criança pela mãe – o que ocorreu com a própria Eliza, entregue por sua genitora ao pai quando era bebê. Aliás, quem não se lembra da ex-miss Brasil Taíza Thomsen, que também foi considerada morta antes de reaparecer em Londres? Em resumo, um mínimo de prudência não faria mal algum aos lobos que já devoram a carne de Eliza.
MARLENE LOPES MARTINS
EM 19/08/2010 13:46:28
PREZADO LEONARDO ATTUCH QUERO COMPRAR O LIVRO "A JUSTIÇA DOS LOBOS" DO CLEVES DA SILVA,E NÃO CONSIGO ENCONTRAR,POR FAVOR PODERIA ME AJUDAR?OBRIGADA. MARLENE.
David soares
EM 23/07/2010 17:51:44
a unica coisa certa é que as companhias do goleiro bruno eram péssimas,a própria vó do goleiro avisou a ele,quanto ao trabalho da policia,espero que seja conclusivo,pra acusar desse jeito,e depois o brasil todo ver o cara sair como inocente.vai pegar mal...
elizangela
EM 22/07/2010 21:50:13
Muito lúcida a opinião de Attuch. Torna-se fácil "julgar" alguém através de uma imprensa sensacionalista e de "profissionais" que muitas vezes se preocupam mais com as câmeras e holofotes. Independentemente de qualquer coisa, essas pessoas devem ser tratadas da forma que a lei determina.
Juliana
EM 21/07/2010 20:35:35
Já havia perdido a esperança de ler algo sobre o caso Bruno, q estivesse comprometido com os princípios básicos do Direito e com a informação de qualidade. Diante de tantas dúvidas, tenho uma certeza a de q o princípio da presunção de inocência tem jazigo na tela da tv
Ibiaense
EM 20/07/2010 00:40:11
Este mesmo Delegado acusou uma mulher de ter matado o marido num sítio na zona rural de Ibiá, qdo foi designado p/ apurar o caso da pedido do então Prefeito da cidade, na época. Ano de 2003. Vítima João Levino. Contra a mulher acusada pelo Delegado, nada foi provado até hoje ...
