Leonardo Attuch

Davi e Golias

O oprimido de ontem hoje é o opressor. Só que atira pedras na própria cabeça

Golias era um gigante filisteu de quase três metros de altura, que desafiava Israel a indicar um soldado que tivesse coragem de enfrentá-lo numa luta corporal. Depois de 40 dias, apresentou-se o franzino Davi, que, segundo o relato bíblico, derrotou o adversário atirando-lhe uma pedra na cabeça. O mito, durante muitos anos, serviu ao Exército israelense, que venceu todas as guerras das quais participou, enfrentando sempre inimigos mais fortes – ao menos em tamanho. E a estrela de seis pontas do rei Davi passou a estampar a bandeira do Estado judeu, como um escudo protetor.

Na semana passada, no entanto, o mundo se deu conta de que a roupa do guerreiro primitivo não cabe mais em Israel, pois o oprimido de ontem se converteu no opressor de hoje. Um país que ataca uma embarcação humanitária, que levava comida, roupas, brinquedos e materiais de construção a uma população confinada e submetida a um humilhante bloqueio econômico, não merece outro rótulo. Especialmente quando mata nove de seus tripulantes e qualifica como “terroristas” os ativistas da flotilha da liberdade.

Israel, esse Davi moderno, cresceu e ganhou musculatura, mas perdeu inteligência ao se transfigurar em Golias. E, em vez de jogar pedras nos inimigos, decidiu atirá-las na própria cabeça. O país perdeu a opinião pública internacional, não terá mais como sustentar o imoral bloqueio imposto ao povo palestino na Faixa de Gaza e conseguiu uma proeza ainda maior: o mundo, que até ontem discutia ­sanções econômicas ao Irã, já considera mais urgente encontrar mecanismos para conter os abusos do Exército israelense – o mesmo que, numa ação recente, assassinou mais de mil palestinos e destruiu 50 mil casas do outro lado da fronteira.

O erro do governo de Jerusalém é não abrir os olhos para uma nova realidade. O mundo de hoje é pós-americano. E os Estados Unidos, o verdadeiro escudo protetor de Israel, já não podem mais agir de forma unilateral. Precisam de aliados que, até recentemente, não existiam na cena geopolítica mundial. São países como o Brasil que, de uma hora para outra, passaram a ter voz e decidiram se intrometer nesse jogo. E, enquanto em várias partes do mundo manifestantes queimavam bandeiras com a estrela de Davi, outro corpo celeste brilhava lá em cima. Era a estrela de Luiz Inácio. Se o presidente Lula vinha sendo acusado por Hillary Clinton de trabalhar por um mundo menos pacífico ao se aproximar do Irã, os Estados Unidos perderam legitimidade no debate ao não condenar o massacre cometido por Israel. Afinal, que paz é essa, em que a um único país é facultado o direito de humilhar uma população, de ignorar resoluções internacionais e de matar impunemente?


publicidade

real world girls

EM 22/09/2011 03:30:13

wonderful post, thank you.


Mauricio Cysneiros

EM 30/06/2010 09:51:19

Parabéns por esse comentário. Gostei muito da visão e da consistência do jornalista Leonardo Attuch.


Amuller

EM 10/06/2010 08:29:50

Parabéns ....


Paulo

EM 07/06/2010 19:01:00

A Paz e israel não podem coexistir. Ou existe um, ou o outro.


arnon m. santos

EM 07/06/2010 17:51:23

Os recentes acontecimentos envolvendo Israel. como o ataque ao navio humanitário e a denuncia da existencia de Bomba Atomica demonstram que o mundo está realmente no pós Estados Unidos, seu protetor incondicional.


índice de matérias edições anteriores edições especiais assine a revista

© Copyright 1996-2011 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.