Paulo Lima
Paulo Lima é fundador da editora e da revista Trip

Galo de ouro

Olhe bem para a foto. Você arriscaria dizer quem recebeu as maiores glórias ao longo da carreira?

img_1.jpg

Agora que você já analisou com calma a pantalona de Betty Faria, esbanjando sensualidade e  juventude, percorreu cada fio do topete até hoje imbatível de Tarcísio Meira, examinou sua japona de náilon acolchoada e percebeu até o detalhe da barra de sua "calça rancheira" esticada por uma espécie de aplique, deixe de lado os artistas e dirija seu olhar para a verdadeira musa que repousa plácida sob os glúteos dos protagonistas da novela "Cavalo de Aço". Trata-se de uma estrela de verdade, que mudou a história das máquinas de duas rodas no mundo. Estamos falando de uma legítima Honda CB 750 , considerada a motocicleta do milênio na eleição que no final de 1999 envolveu 20 das mais importantes revistas especializadas do mundo.

O exemplar que você vê na foto, debaixo dos personagens Rodrigo Soares e sua namorada, Joana, é um modelo K2 de 1973, ano em que a novela, após inúmeros entreveros com a censura, conseguiu tomar conta do Brasil, especialmente depois de seu capítulo de número 100. Enquanto isso, a 750, logo apelidada de "Sete Galo" (Galo correspondia ao 50 nas bancas do jogo do bicho), ganhava o mundo. Lamentavelmente coberta na foto por uma horrorosa capa de couro aplicada sobre o tanque, provavelmente para evitar o merchandising gratuito, este modelo da Honda lançado em 1969, ano em que o homem pisou na Lua, ainda alimenta legiões de admiradores no planeta todo. A empresa de Soichiro Honda acertou em cheio e desbancou o reinado das motos europeias, ao incorporar inovações como freios a disco dianteiros e especialmente um motor de 736 cm³ de cilindrada, ao mesmo tempo muito forte, compacto e leve. Seu giro suave e seu ronco poderoso fizeram com que gerações se apaixonassem de forma irreversível.

Foi também uma das primeiras a trazer partida elétrica, câmbio de cinco marchas e 67 cavalos de potência, chegando a inacreditáveis, para a época, 200 km/h. No Brasil, que recebeu os primeiros exemplares só no ano da novela, 1973, havia fila de espera e ágios salgados aguardando os privilegiados  que pudessem encomendar uma. Para esses adoradores da Sete Galo, até o barulho forte do "cleck", ouvido quando se engata a primeira marcha, mexe com o coração mais do que as imagens e os acordes de Joe Cocker se contorcendo e cantando no palco do contemporâneo festival de Woodstock. Com a licença de Tarcísio, Betty e Glória (que fechava o triângulo amoroso da trama de Walter Negrão, no papel da masculinizada Miranda), a estrela dessa página é mesmo a incrível Sete Galo.


publicidade