Plantas baixas
Lembrar das dimensões de um quarto é, de certa forma, lembrar da dimensão dos amores que por ali passaram
Não sei se a coisa se dá só comigo ou se há um clube cheio de membros, mas tenho a mania, ou melhor, a necessidade, de guardar, nos arquivos da memória, as plantas baixas dos lugares onde morei. Volta e meia, falando no telefone, no escritório, em vez dos rabiscos abstratos usuais, eu me flagro tentando recriar as plantas das diversas moradas, como se elas pudessem me ensinar outra vez a minha própria geografia. E até podem, porque, no processo, os traços acabam por se tornar paredes e o ambiente ressurge do passado, como num passe de mágica. Lembrar das dimensões de um quarto é, de certa forma, lembrar da dimensão dos amores que por ali passaram e, a cada nova visita, descobre-se um novo detalhe que andava esquecido. Como é certo que Deus está nos detalhes, acho que o hábito é saudável. Tenho até certa inveja de quem viveu a vida toda numa única casa, porque sempre são sólidas as pessoas que conhecem perfeitamenteo terreno onde pisam. Eu tive muitas casas e muitos abrigos, portanto guardo uma quantidade de plantas amontoadas na lembrança e catalogá-las, sem que acabem misturadas num passado comum, é tarefa para alguns dias de devaneio. Ainda hoje mesmo, eu rabiscava a casa de meu avô, na Ilha do Governador, que mais tarde, por herança, passou a ser de papai e que existe até hoje. A casa era grande. Dois andares, cinco quartos, dois banheiros na extremidade do corredor, um quintal cheio de gatos e a ensolarada sensação de que ali o tempo descansava. No térreo, havia um salão comprido que, na época de meu avô, ostentava dois barcos de corrida pendurados no teto, porque vovô adorava remo, entre outros esportes. A casa ficava vazia a maior parte do ano, olhando a enseada, à espera das férias de verão. Nós morávamos nos fundos do terreno, que cobria toda a extensão do quarteirão, já que nosso sobrado dava para a avenida e, nas noites de verão, quando se pescava siri e o enorme circulador de ar rangia seus ferros, voltar para casa pelo terreno escuro era assustador. Foi ali, no corredor do andar superior que uma tia, certa vez, viu uma alma. Ela, segundo o relato, era mocinha, tinha 14 anos, embora já fosse noiva, prometida. Certa madrugada, acordou com muita vontade de urinar e não se incomodou em acender a luz, já que o luar iluminava tudo. Como a casa estava adormecida, também não se preocupou em fechar a porta e instalou-se no vaso que fitava o corredor. A alma surgiu bem lá na frente e veio em sua direção, como se flutuasse. Apavorada, com as calcinhas arriadas no meio das pernas, ela entendeu que a alma tinha um recado para lhe dar, mas não lhe deu a chance de cumprir a tarefa. Gritou com toda a força e a mensageira desapareceu, assim que a casa se iluminou alarmada. – Hoje eu sei que ela tinha vindo me dizer pra não casar com seu tio. – ela encerrava a história. – E eu, burra, não entendi o recado.
Minha tia já não vive mais. Mas seu grito ainda ecoa naquele corredor. Eu termino a planta baixa do piso superior e calculo que a alma deve ter surgido bem na porta do meu quarto, cuja janela abria-se para a mangueira em flor e onde eu ardia no pecado da adolescência.
Mas isso já é outra história.
Ahmed
EM 18/02/2012 02:27:37
Joseli Dias disse:Manda um e-mail para onde eu possa evinar, porque eu sempre mando alguma coisa, mas acho que estou mandando para o endereco errado. Beijo.
Lynn
EM 16/02/2012 09:14:05
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EM 15/02/2012 17:08:35
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Latrice
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