Zeca Baleiro
Cantor e Compositor - Colunista Mensal

Invenções Divinas e Invenções do Diabo

A expressão "invenção do diabo" faz presumir que o diabo vive a criar coisas para atormentar-nos, pobres mortais

O século XX passou rápido demais. Tão rápido que nem nos demos conta de quão geniais foram alguns inventos e descobertas. Escrevo isso depois de quedar-me boquiaberto diante da engenhosidade de um (já aos nossos olhos primitivo) abridor de latas. Isso porque precisei de um. Que simples, que inteligente, que preciosa invenção. Segundo relatos, o primeiro abridor de latas inventado parecia uma cruza de baioneta com foice e data da segunda metade do século XIX. O abridor, tal como se conhece hoje, é criação do americano William Lyman, patenteada em 1870.

Tenho pela máquina de escrever – um invento, assim como o abridor, ultrapassado – um carinho de jornalista aposentado. Guardo comigo uma Olivetti Lettera 32, com a qual escrevi algumas de minhas primeiras letras de canções. Meus filhos olham para ela como se houvesse sido retirada do acervo do homem de Neanderthal. Mas a máquina de escrever não é uma invenção tão antiga quanto o advento do computador pessoal a fez parecer. Sua primeira patente data do século XVIII e foi concedida ao inventor Henry Mill. Um século depois, o projeto de Mill foi aperfeiçoado, mas as tentativas, segundo consta, estavam mais próximas de um piano que de uma máquina de escrever. Sua autoria passa a ser disputada por inventores americanos, franceses e até um brasileiro, o padre paraibano Francisco João de Azevedo, que, conta a lenda, teve sua patente roubada por três inventores americanos, que a teriam apresentado à firma Remington, fabricante de armas. Daí por diante a história é imaginável.

A correria tecnológica transformou muito rapidamente em obsoletos objetos relativamente modernos – basta ver a primeira geração de celulares, parecem apetrechos medievais. Monitores compactos e de tela plana fazem os antigos monitores parecerem fogões a lenha. Assim é também com as máquinas fotográficas anteriores ao advento das digitais. Curioso é que, no mesmo ritmo em que as engenhocas evoluem freneticamente, uma certa “febre vintage” assola a humanidade. Nunca se viu tantos “produtos” a replicar modelos antigos – desde carros até geladeiras, instrumentos musicais, roupas, móveis, acessórios de moda e o diabo a quatro. Talvez isso possa ser explicado por uma espécie de nostalgia atávica da raça humana, eternamente dividida entre o ímpeto com que avança para o futuro e a saudade vã com que olha para o passado.

Assim como as invenções fantásticas, algumas das quais mencionei acima, há outras que são verdadeiras invenções do diabo. A expressão “invenção do diabo” faz presumir que o diabo vive a criar coisas para atormentar-nos, pobres mortais. Isso me leva a deduzir que é engenhoso então o coisa-ruim em seus inventos, tamanho o inferno que causam em nossas vidas.

Citarei algumas de minha (não) predileção, mas a lista pode ser fartamente aumentada: pires com o buraco da xícara fora do centro – para quê, me pergunto, já que a função do pires seria enquadrar a xícara?...; etiquetas de bagagem de mão, que antes, bem antes do embarque você já terá deixado cair distraído enquanto toma um café; chaves de hotel magnéticas, que fatalmente estarão desmagnetizadas quando você voltar às duas da manhã, cansado, com sono e dois degraus acima da normalidade; talher de peixe (uma inutilidade completa) e as famigeradas janelas persianas, aquelas de enrolar, certamente criadas por algum demônio persa com a finalidade de testar a santa paciência dos cristãos.

P.S.: Para não destoar, nesta época de salamaleques de virada de ano, quero desejar a todos um ano menos febril, no sentido veloz-cotidiano da palavra, e mais febril, no sentido apaixonado que ela carrega.
 


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will

EM 08/02/2012 18:18:40

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ndhqifqspmn

EM 01/05/2011 03:15:06

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Betti

EM 29/04/2011 19:45:29

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Cíntia Romano

EM 01/01/2010 10:09:15

nào há como esperar ansiosamente pelas crônicas do Zeca: uma visão romantica sobre realidade, que nos inspira graça e agrega leveza à semana. Prabéns Zeca, que vc continue nos presenteando com suas belíssimas palavras e e seu olhar poético sobre o nosso cotidiano.


VANINHA

EM 30/12/2009 15:39:01

Parabenizo Zeca Baleiro pelos textos por ele escrito neste ano de 2009, que além de serem interessantes, apresentam ao leitor uma urgência de informação e uma originalidade que lhe é peculiar. É uma leitura com ingredientes de ritmo e poesia.


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