A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  1649 |  09.May.01 - 10:00 |  Atualizado em 25.Oct.14 - 14:55

Mario Sergio Cortella

''O povo já paga''

O educador Mario Sergio Cortella critica a idéia de se cobrar mensalidade em universidades públicas e defende a reserva de cotas no mercado de trabalho

Eduardo Marini e Luciana Ackermann

Istoé -

O sr. é a favor de que a universidade pública seja paga, como sugeriu o FMI?

Mario Sergio Cortella -

Mario Sergio Cortella

Não, discordo da tese. O pobre continuará sem acesso ao ensino público superior. A solução passa pelo aumento do número de vagas nas universidades públicas, pelo combate à sonegação, pelas reformas para aumentar a arrecadação e, finalmente, pelo aumento do porcentual do PIB gasto em educação. O argumento do FMI é o de que o dinheiro seria investido no ensino fundamental. Ora, os brasileiros, ricos e pobres, pagam imposto suficiente para isso. Na verdade, o povo já paga. É preciso escolher corretamente as prioridades para investir. O governo destina 4% do PIB, taxa equivalente à de muitos países desenvolvidos. Só que esses países não possuem 43 milhões de analfabetos nem ficaram tanto tempo sem programas pesados de injeção de recursos na educação, como ocorreu no Brasil. Todo mundo sabe que não é necessário acelerar muito um carro a 80 km/h para que ele mantenha essa velocidade sem gastar muito combustível. Mas, no início, é preciso pisar firme. Deveríamos estar gastando pelo menos 8% do PIB na área. O governo não poderia colocar tanto imediatamente, mas defendo a participação da iniciativa privada neste bolo voltado para o ensino público, com programas eficazes e as reformas tributária e fiscal. Meses atrás, um grande empresário me perguntou, numa palestra, o que ele deveria fazer, em primeiro lugar, para ajudar a educação. Respondi: “Pague 100% do imposto devido. Se o senhor já faz isso, incentive seus colegas a fazer o mesmo.”

Istoé -

Mas quem pode pagar sem problemas não deveria ajudar?

Mario Sergio Cortella -

O correto não é fazer quem paga muito imposto arcar com outra parcela, mas abrir para os pobres que pagam tributos e ainda não têm acesso ao ensino superior de qualidade. Temos recursos. Apesar de sermos a décima economia do planeta, estamos, segundo a ONU, em 78º lugar na qualidade do ensino. A arrecadação com os que podem pagar alguma coisa sem sofrimento não resolveria muito. Na luta por recursos, correríamos o risco de forçar os limites até chegarmos aos pobres. Cobrar em universidade pública é querer abaixar o rio em vez de levantar a ponte. Vamos fazer um exercício rápido e extremamente otimista. O País tem 832 mil alunos nas universidades públicas, segundo o censo do MEC. Se 40% desses universitários pagassem matrícula e 12 prestações de R$ 500, por exemplo, teríamos cerca de R$ 2 bilhões por ano. É um bom dinheiro, não há dúvida. Equivale a uma vez e meia o orçamento anual da Secretaria de Educação da cidade de São Paulo, por exemplo. Mas também é um valor próximo do liberado pelo governo, numa única penada, para os bancos Marka e FonteCindan, na desvalorização do real. E olha que nossa conta rápida envolveu inadimplência zero, algo que seria impossível.

Istoé -

Muitos educadores defendem a reserva de vagas nas universidades estaduais e federais para alunos das escolas públicas. O sr. concorda?

Mario Sergio Cortella -

Não. Isso pode funcionar numa emergência, mas o que resolve, como já disse, é o aumento de vagas nas universidades públicas. Elas passaram de 300 mil para 832 mil nos últimos 35 anos. Enquanto isso, as vagas no ensino privado, de acordo com as contas oficiais, saltaram de 100 mil para 1,55 milhão no mesmo período. Foram multiplicadas por 15,5. Existe um limite para a classe média e a elite. Se os ricos precisam de 100 vagas e existem 100 vagas, eles vão ocupar tudo, ou quase tudo. Mas, se forem criadas 200 ou 300 vagas, automaticamente sobrará espaço para os pobres. Qualidade para poucos, numa democracia, não é qualidade. É privilégio. Só o ensino noturno no sistema público universitário aumentaria a capacidade atual em pelo menos 30%.

Istoé -

O sr. é a favor de algum tipo de reserva de cotas?

Mario Sergio Cortella -

 Na universidade, não. No mercado de trabalho, sim. O sujeito não deixa de entrar na universidade por ser negro, mas por ser pobre. Se fosse gaúcho pobre, japonês pobre, colombiano pobre ou europeu pobre, também não entraria. A solução, como já disse, é democratizar o acesso. No mercado de trabalho é diferente. O cidadão perde a chance pela sua raça ou por outras condições. Um exemplo disso é a cota para deficientes físicos.

Istoé -

Por que o ensino público fundamental e médio pioram tanto?

Mario Sergio Cortella -

O ensino fundamental abriga 38 milhões de alunos. A escola pública era boa, mas não era pública. Ela tinha algum povo. Até meados da década de 60, 30% viviam nas cidades e 70% no campo. A demanda por escola pública era feita, nos centros maiores, por uma parcela pequena da população. Poucos desfrutando de um ensino de qualidade. Em 1994, esse porcentual foi invertido. Hoje, quase 50% dos brasileiros vivem nas nove maiores regiões metropolitanas. Explodiram os serviços de saúde, educação, saneamento. Como os investimentos foram feitos quase exclusivamente em infra-estrutura de produção, a coisa estourou. Com o aumento da procura, a escola tornou-se pública de fato. E a qualidade caiu imediatamente, porque não havia condições de oferecer bom ensino para tanta gente. Os investimentos deveriam ter acompanhado pelo menos parte dessa evolução. Agora, é preciso muito esforço e determinação política para recuperar o prejuízo. Mas existe dinheiro para isso. O Darcy Ribeiro disse que o que existe na educação fundamental brasileira não é uma crise, mas um projeto.

Istoé -

Apesar desse cenário, o sr. tem sustentado que é possível confiar em grande parte do sistema público de ensino...

Mario Sergio Cortella -

Podem acreditar nisso. No interior dos Estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, por exemplo, as escolas fundamentais públicas são, com raras exceções, imbatíveis. Na capital paulista e nas principais cidades do País, o número de escolas particulares boas é igual ao de colégios públicos eficientes. As particulares oferecem uma base científica mais sólida, mas a formação social nas públicas é mais consistente e enriquecedora. Muitas vezes, os pais perdem a oportunidade de colocar os filhos em uma boa escola pública por questão de status. Isso ocorre muito no interior. O sujeito vai envergonhado para a fila de matrícula de uma escola pública e considera aquilo uma coisa passageira. Se o aluno tira uma nota ruim na escola particular, os pais o ameaçam com a possibilidade de mandá-lo para a escola pública. Consideram a escola pública um castigo. Isso é triste.

Istoé -

Uma polêmica recente envolveu um casal de Goiás que insiste em educar os filhos em casa. O MEC se recusa a certificar a graduação. O que o sr. acha disso?

Mario Sergio Cortella -

 Os educadores estão corretos. Um negro educado em casa, apenas com negros, corre o risco de não aprender que deve respeitar e se relacionar bem com judeus ou asiáticos, por exemplo. Isso ocorre de todos os lados. Educado em casa, o aluno deixa de conhecer famílias, sotaques e práticas religiosas diferentes. Nas salas de aula, não se aprende apenas a calcular a raiz do delta ou a identificar uma bactéria. A escola é uma experiência sociocultural insubstituível. Sete em cada dez alunos que completam a segunda série do ensino fundamental na periferia de São Paulo têm mais escolaridade que seus pais. Nas outras regiões metropolitanas, a realidade não é diferente. Falar em educação caseira neste contexto é abstração.

Istoé -

O sr. é a favor das escolas de período integral?

Mario Sergio Cortella -

Sou a favor da educação em período integral, o que não significa manter os moleques das sete da manhã às cinco da tarde nas salas. É preciso estabelecer atividades curriculares extras para ser cumpridas fora de sala, no outro turno, enquanto uma segunda leva de estudantes ocupa a sala para as aulas formais. Construir uma escola custa caro e faltam locais adequados. O espaço deve ser aproveitado ao máximo.

Istoé -

O sistema de ciclos, que substituiu a repetência por avaliações em períodos maiores, realmente funciona?

Mario Sergio Cortella -

 Sim. Fui o primeiro a introduzi-los no País, no município de São Paulo. Há uma diferença entre facilitar a aprovação e dificultar a reprovação. O fracasso escolar não acontece só porque o aluno não estuda. Há uma série de falhas e várias questões para as quais a escola não está preparada. Por isso, o aluno, muitas vezes, acaba retido por equívoco da escola. O conhecimento não se dá por etapas fechadas. Você não pode pegar várias crianças de sete anos, colocá-las na primeira série do ensino fundamental e achar que todas estarão alfabetizadas depois de oito meses. Algumas estarão e outras, não. Submeter circunstâncias diferentes ao mesmo crivo é injusto. Os ciclos não substituem a reprovação.

Istoé -

Qual a principal vantagem em relação ao sistema tradicional?

Mario Sergio Cortella -

O método antigo é extremamente cruel com as populações carentes. Não oferece outra alternativa a não ser fazer tudo de novo. Para ter eficácia, os ciclos exigem mudanças no contrato de trabalho do professor. Ele precisa ter tempo para se dedicar ao atendimento dos alunos. Implantá-lo pura e simplesmente apenas cria estatísticas positivas. A área da educação é a única em que o fracasso é atribuído ao cliente. Ninguém fala em fracasso hospitalar responsabilizando o paciente.

Istoé -

Pesquisas mostram que há professores da rede pública que faltam a até 30% das aulas. O que fazer?

Mario Sergio Cortella -

 É um assunto espinhoso. Quem acha que o salário baixo é justificativa para faltas deve ir para outro setor ou ser demitido. Demitido. A questão é de solidariedade social. Um médico do SUS não pode dizer, no meio da operação, que vai dar apenas oito dos doze pontos necessários porque ganha pouco. Da mesma forma, o bombeiro não pode apagar o incêndio da sala e deixar a cozinha em chamas pelo mesmo motivo. Sem o trabalho e as greves dos sindicatos nos últimos anos, o ensino estaria bem pior. Mas não dá para perdoar quem deixa de dar 30% das aulas. Se defendo impeachment para político patife, preciso apoiar também demissão para professor patife.

Istoé -

O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, incorporou a idéia do projeto Bolsa-Escola, que oferece uma renda aos pais dos alunos assíduos, e decidiu implantá-lo no País. O que o sr. acha disso?

Mario Sergio Cortella -

 Acho muito positivo. É muito bom que a oportunidade de desfrutar o Bolsa-Escola seja dada a todos os brasileiros carentes. Quando uma idéia é boa, deve ser usada por todos os grupos políticos. A população sai ganhando.

Istoé -

Quais foram os maiores acertos e os principais erros do Fundo de Valorização do Ensino Fundamental, o Fundef?

Mario Sergio Cortella -

A melhor coisa é a disposição de universalizar a educação. Erraram ao retirar o ensino pré-escolar e a alfabetização de jovens e adultos do sistema. Hoje, a educação de adultos é vista como assistência social, e não como direito. Está fora do MEC, entregue ao projeto Comunidade Solidária. Até mesmo o governo militar incluiu esse trabalho na estrutura do MEC, com o Mobral. Eles acertaram ao criar um salário mínimo para os professores, próximo de R$ 300. Mas é pouco para as grandes metrópoles.

Istoé -

Como evitar as fraudes?

Mario Sergio Cortella -

Muitas vezes, os conselhos municipais de fiscalização são controlados pelos prefeitos e não possuem força política para questionar. O ideal seria tornar esses conselhos cada vez mais independentes com a participação da sociedade. Hoje, as escolas não são unidades de gestão dos recursos. Apenas recebem pequenas verbas de manutenção. Deveremos trabalhar para que cada escola se torne gestora de sua parte.