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|  N° Edição:  1648 |  28.Apr.01 - 10:00 |  Atualizado em 01.Sep.14 - 16:52

Nuno Cobra

O segredo da vitória

Nuno Cobra, ex-preparador físico de Ayrton Senna, afirma que para ser vitorioso é preciso respeitar o corpo e resgatar a auto-estima

Cilene Pereira e Lena Castellón

Istoé -

Como o sr. definiria o seu método?

Nuno Cobra -

Nuno Cobra

 É o resgate do homem às raízes de vencedor que é. Mas elas são tiradas pela sociedade castradora, em sua maneira agressiva de civilizar as pessoas. Por isso critico o que chamo de tripé de anulação.

Istoé -

O que é isso?

Nuno Cobra -

Trata-se do conjunto dos pais, da igreja e da escola. Ele anula as pessoas. Cheguei a essa conclusão porque os jovens que chegavam a mim estavam completamente destruídos, sem auto-estima, pessimistas. Peguei campeão que tinha batido o carro, por exemplo, e falava: domingo baterei outra vez. Mas Deus não fez ninguém para dar errado. No entanto, quando a criança nasce vem um massacre. Ela tem energia, movimento. Entra na casa correndo e os pais pedem para que fique quieta. E ela percebe que ser feliz não é o caminho, porque quando está alegre leva porrada. Mas quando está quieta, o pai faz cafuné. A criança pensa: eu existo aqui. Nesse momento, cria um programa de autodestruição. E a escola instrui, não educa. A religião ocidental cria a dúvida, a incerteza. Por que se coloca Cristo numa cruz? Por que passar essa coisa de sofrimento? É isso que quero tirar das pessoas. Quero reprogramar os indivíduos para a certeza, a beleza da vida, o sucesso, a felicidade, a saúde. É um direito do homem.

Istoé -

Mas como o sr. acredita conseguir essa reprogramação?

Nuno Cobra -

O corpo é o maior patrimônio do homem. Por meio dele, numa ação concreta de modificação do organismo, passa-se inconscientemente a acreditar que não nascemos para ser tristes, sofrer ou sermos doentes. Nascemos para a vitória.

Istoé -

De que forma se percebe isso?

Nuno Cobra -

A partir do fortalecimento do corpo, fazendo com que a pessoa tenha mais energia, mais vitalidade. Ela ganha o poder pelo corpo. Se uma pessoa subia uma escada e se cansava, de repente sente uma mágica porque passa a conseguir fazer aquilo sem sentir cansaço. Meu método é dar de novo esse poder à pessoa. O Ayrton Senna, por exemplo, levou um ano e meio para dar uma oitava (exercício de difícil execução feito na barra). Quando ele fez a primeira, foi e ganhou em Estoril, em Portugal. Ele tinha uma Lotus. Não era um carro para ganhar uma corrida. Quando a pessoa fizer uma oitava, correr uma maratona, sentirá que é o máximo. Mas correr a maratona não é fazer o melhor tempo. É participar da corrida, vivê-la com alegria.

Istoé -

O que diferencia o seu método dos demais programas de treinamento?

Nuno Cobra -

Entendo que o corpo é um caminho por meio do qual exploramos o potencial humano. Não queremos deixar o cara forte e burro. O que temos visto é as pessoas se agredindo, se maltratando nessa malhação estúpida.

Istoé -

Por que estúpida?

Nuno Cobra -

Acho estranho dizer que se vai malhar o corpo. Essa expressão é típica daquela brincadeira de malhar o Judas. O corpo não é para ser judiado. É para ser tratado com carinho, atenção. Por isso recomendo no meu método um trabalho gradativo, em que não existe a malhação. A pessoa aprende a empurrar os seus limites, mas nunca a ultrapassá-los. Se tem uma frequência cardíaca baixa, vai melhorando o rendimento, a performance. No início, tem de fazer o que chamo de um passeio no shopping sem parar para ver as lojas porque a caminhada precisa ser contínua. O indivíduo tem de fazer uma atividade compatível com seu momento cardiovascular. O que critico é essa correria infernal. Vejo as pessoas caminhando e correndo ofegantes. O indivíduo está perdendo energia em vez de ganhá-la, e envelhecendo prematuramente. Também critico a musculação com peso feita hoje. Há muita tecnologia, mas ela faz a pessoa ficar forte e burra. Quando se faz um supino com peso, é necessário equilíbrio. É preciso ter uma gratificação por estar fazendo aquilo, a sua emoção tem de estar presente, tem de haver relação com o cérebro, que está ordenando dezenas de músculos. O cérebro não está participando daqueles movimentos coordenados pela máquina.

Istoé -

 O sr. dá muita importância ao trabalho com o coração. Por quê?

Nuno Cobra -

 Nosso organismo foi formado por milhões de anos para o movimento. Porém, o homem foi se tornando sedentário e o aparelho que mais sofreu com isso foi o cardiovascular, que acabou atrofiado. O coração do homem moderno bate, mas não consegue enviar aos órgãos vitais o necessário sangue para uma vida em exuberância. Daí a necessidade de se trabalhar o músculo cardíaco para dotá-lo de maior poder de injetar mais sangue na corrente circulatória, abastecendo melhor o organismo e possibilitando uma vida com mais energia e disposição. Trabalhar o músculo cardíaco é vital para a saúde, mas sem malhação. Quando é trabalhado corretamente, ele sorri satisfeito.

Istoé -

É por isso que o sr. defende a caminhada como um dos melhores exercícios?

Nuno Cobra -

Para caminhar só se precisa da perna, de uma praça, de um parque. Não sou contra nadar, andar de bicicleta, mas caminhar é o mais simples. Vinte minutos já está ótimo. Já não se é sedentário.

Istoé -

Quando caminhar?

Nuno Cobra -

 O ideal é andar antes do café da manhã. Mas não se pode caminhar em jejum nem com o estômago cheio. É preciso comer algo leve e beber bastante água. Ao caminhar pela manhã, você adquire energia, depois toma um banho e relaxa. Quando se caminha, fabricam-se hormônios de alta qualidade. O exercício vai lhe dar motivação, energia. À noite, você tem de dormir.

Istoé -

Na prática, quais são as bases de seu método?

Nuno Cobra -

 O ponto “A” é o sono, o “B” é a alimentação, o “C” é a atividade física e depois vem o relaxamento e a meditação. Essas quatro coisas fundamentam o método.

Istoé -

Por que o sono é o mais importante?

Nuno Cobra -

 O sono é a base da vida. É o elemento primordial porque faz o reparo da máquina orgânica. Até o século XIX dormíamos cerca de dez horas. Mas no século XX, o homem resolveu achar que oito horas era o tempo ideal para dormir. Mas o jovem tem de dormir em torno de 10 a 12 horas porque está em crescimento. O sono é o que dá um ótimo desempenho no dia seguinte. O adulto tem de dormir pelo menos de oito a nove horas. No entanto, o homem moderno acha que está dormindo e perdendo tempo.

Istoé -

E a alimentação?

Nuno Cobra -

 As pessoas acham que só comem o que gostam. Mas não percebem que gostam do que comem. Como estão comendo determinado tipo de comida, acabam gostando. Não adianta ir se hospedar num spa, procurar um médico ou tomar remédios. Se parar com essas estratégias, voltam os mesmos hábitos. Queremos formar uma dieta, tudo aquilo que deve constituir a alimentação para o resto da vida. E tem de fazer com prazer. Tudo o que se faz forçado não se fixa como hábito. A dieta tem de ser balanceada, tendo inclusive a gordura que faz bem ao coração, como a do azeite extravirgem. Esse alimento é uma fonte maravilhosa da boa gordura. Mas as pessoas olham um rabanete, por exemplo, e não sentem vontade de comê-lo. Então, aconselho: coloque um salzinho, um azeite. E sou contra também as pessoas serem muito magras. Essa beleza tem de ser questionada. As modelos muito magras são verdadeiras sofredoras. Não há beleza. Elas são estacas. Gordurinha a mais não é o problema. O problema é o sedentarismo.

Istoé -

Como a meditação ajuda?

Nuno Cobra -

 Ela é uma ferramenta para entrar em equilíbrio. O meditar é buscar você. É aquele momento em que você se distrai olhando pela janela do carro e não está vendo nada. O organismo impõe a meditação. Ela é tão imperiosa quanto o sono. É uma peça de sobrevivência. O meditar faz com que sua cabeça sossegue. Você repousa quando está em estado meditativo. Falar “não” também é importante. O ideal é dizer “sim” para você e “não” para as pessoas. O Pedro Paulo Diniz, por exemplo, não conseguia falar “não”. Ele tinha de ir a Interlagos (autódromo de São Paulo) e pegava uma coisa para um, outra coisa para outro. No dia em que falou seu primeiro “não”, sentiu-se mal. Mas quando desligou o telefone sentiu uma imensidão e me disse depois: acho que foi essa tal de felicidade.

Istoé -

É possível saber quando algo vai mal com o corpo?

Nuno Cobra -

 O corpo fala, mas as pessoas se fazem surdas para ele. O sinal mais incrível é a solicitação de sono. Curei muitas pessoas com uma terapia de sono. Tive um caso de um homem com triglicérides (tipo de gordura que, em excesso, pode ser prejudicial) alto. Ele dormia apenas quatro horas. Fiz que dormisse oito. Em um mês ele se curou. Outro sintoma é a infelicidade. Quem não está feliz, tem níveis baixos de saúde.

Istoé -

Como a felicidade ajuda a não adoecer?

Nuno Cobra -

 Não existe doença. Existe o doente. Você não tem nenhuma doença, mas tem de ter uma determinação absurda para continuar levando uma vida desregrada. Tem de comer mal, dormir mal. Procuramos a doença e trabalhamos arduamente para ficar doentes porque temos o programa de auto-destruição. Mas não se tem como adoecer quando se é feliz.

Istoé -

Os felizes nunca ficam doentes?

Nuno Cobra -

 Isso não é história. A vida me mostrou que quem é feliz não adoece. Fiz um teste com octagenários em 1970. Eu queria saber se em pessoas dessa idade já haveria hipertrofia muscular. Tinha quatro pessoas com alimentação muito ruim. Medi o colesterol de uma delas e os níveis estavam bons. O cara era extremamente feliz, alegre, incrível. O que aconteceu? Ele estava em equilíbrio.

Istoé -

Como se explica isso organicamente?

Nuno Cobra -

O organismo tem esse nome porque se organiza. É uma máquina perfeita. Ele não assimila o que faz mal. Só serão assimiladas as coisas boas. Quando você está em desequilíbrio, o seu colesterol aumenta mesmo se você comer direito. Aí, vem a doença. A doença é o desequilíbrio.

Istoé -

O sr. diz que quem muda o corpo, muda a cabeça. Vale o mesmo para quem fez uma cirurgia plástica?

Nuno Cobra -

 Mas é claro. Você é o que você acha que é.

Istoé -

No livro, o sr. diz que trabalhar demais não faz mal. O que faz mal é trabalhar indefinidamente. Qual a diferença?

Nuno Cobra -

O trabalho é uma das poucas coisas que a sociedade nos ofereceu para nos dar saúde. É uma hora em que você está com a cabeça junto do corpo. O fazer é maravilhoso. Você pode trabalhar bastante que não faz mal. Trabalhar sem trégua, continuadamente, traz infelicidade e doenças.

Istoé -

O que o sr. acha do momento do Rubinho (com quem trabalhou durante dois anos)? Ele está em desequilíbrio?

Nuno Cobra -

 A Fórmula 1 precisa de uma pessoa que esteja sempre em seu melhor. As pressões são extraordinárias. Ele está recebendo uma pressão terrível. O Ayrton teve vários momentos muito difíceis, mais difíceis do que os que o Rubinho está atravessando agora. O Ayrton superou, mas a gente estava junto. A escuderia do Rubinho não está oferecendo o mesmo carro e as mesmas condições dadas ao Michael Schumacher. Isso, evidentemente, desequilibra qualquer um. Ele precisa se dedicar mais ao trabalho com o corpo, buscando equilíbrio espiritual e emocional.