A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  2290 |  04.Oct.13 - 20:55 |  Atualizado em 01.Nov.14 - 06:45

Antônio Delfim Netto

"O apocalipse não está na esquina"

O ex-ministro da Fazenda critica a onda de pessimismo e diz que desconfianças do setor privado em relação ao governo Dilma não se justificam

por Amauri Segalla

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OTIMISMO
Delfim em seu escritório:
“Crise não existe”

O paulista Antônio Delfim Netto é uma voz dissonante do recorrente pessimismo demonstrado por alguns analistas de mercado e empresários a respeito dos rumos da economia brasileira. Aos 85 anos, esse professor emérito da Universidade de São Paulo e ex-artífice do milagre do crescimento durante a ditadura militar não acha que o País vai de mal a pior, como argumentam os críticos do governo Dilma Rousseff, e vê como injustificada a desconfiança do setor privado. “O apocalipse não está na esquina”, diz Delfim. Nesta entrevista, concedida às 8 horas da manhã (horário em que começa a dar expediente) em seu escritório na zona oeste de São Paulo, ele fala também sobre o fracasso dos programas de concessões, compara o estilo da presidenta com o de seu antecessor e elogia a decisão de Dilma de cancelar a visita oficial que faria aos Estados Unidos. E, claro, destilou o veneno de sempre. “Enquanto no PT o aparelhamento do Estado é com o companheiro de passeata, no PSDB é com o companheiro de tertúlias.”

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"O Lula tem uma inteligência intuitiva. No fundo, ele foi 
um grande acidente positivo na história brasileira”

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“Ao cancelar a visita aos EUA, Dilma mandou um recado claro
a Obama: Ok, vocês são mais fortes, mas têm moral duvidosa"
 

Istoé -

Afinal, existe ou não uma crise econômica no Brasil? 

Antônio Delfim Netto -

Crise não existe. O que existe é um pessimismo muito superior àquele justificado pelos fatos. Dizem que abandonaram-se os fundamentos indispensáveis para a boa condução da economia. Não se abandonou nada. Vamos começar pelo acerto fiscal. Você tem uma dívida bruta de 60% do PIB e um déficit fiscal de 2,5%. É uma situação desconfortável, mas que não representa nenhuma tragédia. Se você olhar bem, verá que o déficit fiscal vem sendo reduzido paulatinamente. 

Istoé -

Muitos especialistas dizem que há um risco inflacionário. 

Antônio Delfim Netto -

A inflação vem se mantendo mais ou menos dentro de uma margem aceitável. Hoje, uma inflação de 6% não é baixa. Talvez haja cinco ou seis países importantes com inflação igual a essa. Não é uma inflação fora de controle, mas ela cria dificuldades, principalmente porque você tem alguns preços controlados e um dia vai precisar absorver isso. A questão é que não há nenhum risco de a inflação explodir. Por mais que muita gente diga o contrário, o fato é que o apocalipse não está na esquina. 

Istoé -

O sr. não acha que há certa desconfiança do setor privado em relação ao governo? 

Antônio Delfim Netto -

Essa desconfiança nasceu agora, mas não é justificada. Basta olhar o que a presidenta Dilma fez. Por exemplo, a intervenção no setor elétrico. Baixar o custo de energia é fundamental. A medida está certa. Em dois ou três anos, ela vai resultar no aumento da eficiência das empresas. O problema é que se criou a ideia de que o setor privado é muito egoísta, só pensa nele, e que o governo é o único defensor das massas. As pessoas esquecem que, sem massas, o setor privado não funciona.  

Istoé -

O sr. mantém contato com muitos empresários. Que visão eles têm do governo Dilma? 

Antônio Delfim Netto -

Muita gente do setor privado enxerga no governo um bando de trotskistas enrustidos, que querem destruir o capitalismo. Nada disso, claro, é verdade. Duvido que Dilma tenha alguma restrição ao setor privado. Ela declarou recentemente, em Nova York, que o governo precisa não só dos recursos, mas da gestão do setor privado, que é mais ágil e eficiente. Alguém que declara isso numa reunião em Nova York para potenciais investidores não pode ser entendida como uma pessoa que queira fazer do Brasil uma Cuba. O que me parece é que o governo precisa acordar de novo o espírito animal dos empresários. 

Istoé -

O sr. está dizendo que falta entusiasmo ao empresariado? 

Antônio Delfim Netto -

O homem é um ser cíclico. Um dia estou com grande entusiasmo, noutro tenho preocupações e fico deprimido. O mecanismo do entusiasmo e da depressão se transfere como um vírus. Na economia é assim também, uma coisa contamina a outra. O trabalhador fica com medo de perder o emprego. Ele procura ficar líquido e, assim, reduz o consumo. O empresário, não tendo certeza que vai haver demanda, reduz a produção e reforça o sentimento de que a coisa vai piorar. Ele fica líquido também. O banqueiro acha que o outro banco está pior do que ele. Então os bancos não emprestam mais entre si. Quando está todo mundo líquido, eles morrem afogados na liquidez, que é a recessão. Mas isso não vai acontecer com o Brasil.  

Istoé -

Que comparações o sr. faz entre Lula e Dilma? 

Antônio Delfim Netto -

 A presidenta é uma tecnocrata muita preparada. Sem dúvida, trata-se de uma centralizadora, mas é sua forma de ser. Já o Lula tem uma inteligência intuitiva, quase natural, e exerce grande liderança sobre as pessoas. Ele é capaz de participar de uma reunião com dez sujeitos e depois fazer uma síntese, aproveitar o que tinha de bom naquilo e colocar em prática. No fundo, o Lula foi um grande acidente positivo na história brasileira.

Istoé -

Se o País melhorou, por que os brasileiros falam mal do Brasil? 

Antônio Delfim Netto -

Porque é assim mesmo. A crítica do mercado é simples de entender. Era muito fácil ganhar a vida com taxa de juro real de 12%. Ganhar a vida com taxa real de 2% é mais difícil. Por isso, a crítica do mercado financeiro é irrelevante, não faz cócega. É uma coisa ridícula, por exemplo, os economistas fixarem as prioridades do governo. Cada economista tem no máximo o seu próprio voto. Não tem nem o da mulher, porque ela desconfia dele.  

Istoé -

Por que os leilões do pré-sal e das rodovais não deram os resultados esperados? 

Antônio Delfim Netto -

Não tem nada de misterioso acontecendo. Se o governo quer estradas de certa qualidade, ele precisa fazer leilões competentes, com editais transparentes. Leilão é coisa para profissional e não para amador. O governo estabeleceu a qualidade desejada? O mercado define a partir daí a taxa de retorno. O governo estabeleceu a taxa de retorno? Nesse caso, é o mercado que define a qualidade possível. Pelo caminho correto, você tem a menor tarifa para uma determinada qualidade. Pelo caminho que o governo segue, você tem a menor tarifa com a pior qualidade. Ou seja, não funciona.  

Istoé -

O fracasso dos leilões não pode ter impactos negativos na economia? 

Antônio Delfim Netto -

O sucesso dos leilões é fundamental porque é a primeira injeção na veia para aumentar a produtividade do sistema. Se eu melhoro a infraestrutura, o ganho de produtividade é espantoso. Digamos que, para chegar ao porto de Paranaguá, uma tonelada de soja gasta 500 quilos. Se eu melhorar a infraestrutura, uma tonelada de soja vai chegar ao mesmo destino com 900 quilos. Esses 400 quilos de diferença representam ganho líquido de produtividade para o sistema inteiro, simplesmente porque a infraestrutura melhorou.
 

Istoé -

Parece simples de fazer, mas não se faz. Por quê? 

Antônio Delfim Netto -

Porque o Brasil é dominado por corporações que têm seus interesses. Por que estão se criando tantos partidos? Simplesmente porque é um comércio, um negócio. Um partido é um negócio que recebe um fundo partidário. Por que se criam sindicatos todos os dias? Porque tem o fundo dos sindicatos. 

Istoé -

Os interesses próprios resultam também no aparelhamento do Estado. 

Antônio Delfim Netto -

O aparelhamento do Estado existe há muito tempo. Não foi só o PT que aparelhou. O PSDB também. A diferença é que o PSDB aparelhava com companheiros de tertúlias. No PT, o aparelhamento é com o companheiro de passeata.  

Istoé -

Um dia o Brasil será um país desenvolvido? 

Antônio Delfim Netto -

Não tenho dúvida. O Brasil melhorou dramaticamente nos últimos anos. A Constituição de 1988 mudou tudo para melhor. A Constituição quer uma sociedade em que haja a maior igualdade de oportunidades. Significa que não importa se você foi produzido numa suíte presidencial ou meio por acaso, num sábado à noite, embaixo do Museu do Ipiranga e com os seus pais bêbados. Uma vez produzido, você é senhor de direitos. Não importa. Hoje, não há nenhum país emergente com instituições tão sólidas quanto o Brasil. A prova disso é o Supremo. 

Istoé -

O Supremo trabalhou corretamente no julgamento do Mensalão? 

Antônio Delfim Netto -

Quando eu vejo as pessoas ficarem tristes porque o Supremo está tentando fazer justiça, acho apavorante. O Supremo não existe para fazer vingança, mas para fazer justiça. O que aconteceu agora reafirma a minha convicção de que caminhamos para o fortalecimento das instituições.  

Istoé -

A presidenta Dilma acertou ao cancelar a viagem oficial para os EUA depois das denúncias de espionagem?  

Antônio Delfim Netto -

Seria muito desconfortável para a presidenta aceitar o convite de Obama. A espionagem diminuiu a nossa soberania. Com o cancelamento da visita, o Brasil mandou um recado claro: Ok, vocês são mais fortes, mas têm moral duvidosa. A força da moral às vezes é maior do que a força das armas.  

Istoé -

Quem faz falta no Brasil de hoje em dia? 

Antônio Delfim Netto -

O José Bonifácio (José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência), que estava muito acima de sua geração. Em 1824 ele queria dar instrução gratuita, acabar com a escravidão. Era um cientista, uma mente brilhante. Se o José Bonifácio tivesse sido levado a sério, o Brasil seria os EUA.
 

Istoé -

O sr. era o terror da esquerda brasileira e depois se aproximou do PT. Que convicções foram deixadas para trás? 

Antônio Delfim Netto -

A pretensão de saber. Antes, eu acreditava mais no meu conhecimento do que acredito hoje. Atualmente, sou um sujeito muito mais relativista. 

Istoé -

Qual é o seu papel na construção do pensamento econômico brasileiro? 

Antônio Delfim Netto -

Nenhum. Fiz aquilo que me cabia fazer, com o conhecimento e o poder que tinha. Fiz coisas certas, fiz coisas equivocadas. 

Istoé -

O sr. é um homem realizado? 

Antônio Delfim Netto -

Muito. Quando você tem sorte, nunca trabalha, porque faz o que gosta. Você vive. Eu tive uma sorte louca. 




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Luiz Fernando Pezão 31.Out.2014
Rosely Sayão 24.Out.2014

Koki

EM 05/03/2014 07:12:10

Comentar contefados e falas do caredssimo meu ex-professor Delfim Neto e9 tudo de bom: porque ele tre1s serpme alento aos nossos pensamentos de economia fala com propriedade e maturidade vivencial - da pre1tica e sabedoria com competeancias de executivo de sucesso nos setores pfablico ou privado


awesome things!

EM 22/01/2014 13:52:12

C10Fm5 Thank you for your blog article.Really looking forward to read more. Fantastic.


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EM 21/01/2014 23:39:23

2puMee Thanks again for the article.Much thanks again. Will read on...


Carlos Alberto Pires Rayol

EM 05/11/2013 12:59:30

Gostei muito Prof. Delfim. É um homem sem mágoas com o olhar para frente. Parabéns.


Fabiana

EM 17/10/2013 12:07:57

Continua como todos nos , acertos e erros . Mudanças de posicionamentos são de acordo com o time se joga não é prof. Delfim !