A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  2112 |  30.Abr.10 - 21:00 |  Atualizado em 11.Fev.12 - 10:23

Luiz Paulo Teles Barreto

"O país não pode conviver mais com o caixa 2"

No seu curto mandato à frente do Ministério da Justiça, Barreto quer que a PF concentre suas forças na investigação de crimes eleitorais

Octávio Costa e Hugo Marques

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IMPARCIAL
Barreto garante que o governo e a oposição terão
o mesmo tratamento nas eleições

No dia em que deixou a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Ayres Britto abordou o ministro da Justiça, Luiz Paulo Teles Barreto, e lhe deu um conselho: “Este é um ano eleitoral e seu ministério terá muito trabalho. Sabe o que eu faço contra o stress? Vinte minutos de meditação. Faça o mesmo”, disse Britto. Barreto pediu detalhes da terapia. Mas até agora, diante das pressões que sofre no cargo, não conseguiu adotar a técnica por mais de dez minutos.

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"Se o eleitor soubesse o preço que vai pagar no futuro,
não daria seu voto a quem faz caixa 2"

Não bastassem os graves problemas do sistema penitenciário, como a superlotação das cadeias, Barreto tem pela frente o desafio de combater as doações ilegais da campanha política. Em entrevista à ISTOÉ, ele diz ter determinado à Polícia Federal que tome todas as providências para inviabilizar as doações ilegais de campanha. Até o crime organizado, segundo o ministro, já financia candidatos. “Reuni os 27 superintendentes dos Estados e pedi que atuem com imparcialidade, porque a PF é um órgão de Estado”, afirmou o ministro. “Preocupam-nos os compromissos que são fechados para doação de dinheiro que depois serão cobrados no serviço público”, explicou Barreto, consciente de que terá trabalho árduo nas próximas eleições.

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"Hoje, cerca de 80 mil presos poderiam estar soltos,
mas quem os solta é o juiz, não o ministério"

Istoé -

Como será o plano de combate às doações ilegais de campanha?

Luiz Paulo Teles Barreto -

É uma parceria do Ministério da Justiça com o TSE para combater fraudes. O Brasil do século XXI não pode mais conviver com caixa 2. Esse tipo de doação passa ao largo dos registros da Justiça Eleitoral e ajuda a sonegar impostos na Receita Federal. O grande problema não é o que significa para a campanha, é o que significa depois da campanha. Certamente quem fez doações ilegais vai cobrar o retorno do investimento.

Istoé -

Então, é para evitar a cobrança de favorecimento no futuro?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Foi o que aconteceu aqui em Brasília. Se o eleitor soubesse o preço que vai pagar no futuro, não daria seu voto. Quando ele vai à urna, não sabe que seu eleito está disposto a pagar um preço por quatro anos do mandato para suprir recursos que entraram na campanha por meio de caixa 2.

Istoé -

É uma campanha preventiva contra a corrupção?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Certamente. Há os crimes eleitorais clássicos. O candidato dá uma bota ao eleitor e, se eleito, dá a segunda bota. Há também o voto de cabresto, em que se coloca todo mundo dentro de um caminhão para votar num candidato. E nesse submundo de dinheiro que circula de caixa 2, de lavagem de dinheiro, o crime organizado está financiando algumas campanhas por dentro do processo. Vamos controlar com a ajuda do TSE.

Istoé -

Como é que a PF vai controlar esse submundo?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Historicamente, sabe-se quais são os meios para lavar dinheiro em eleição. É comum, por exemplo, a utilização de contratos com gráficas e informática. A empresa diz que vai bancar a campanha de alguém dando um software de R$ 100 mil, mas, na verdade, faz uma nota de ­R$ 1 milhão para o software. Vamos trabalhar com inteligência, junto com a Justiça Eleitoral, que vai demandar o trabalho da PF. Vamos doar à Justiça Eleitoral o Laboratório de Combate à Lavagem de Dinheiro (LAB), um software poderoso, que detecta operações e monitora contas, fluxos de capital entrando e saindo, quem deposita, quem retira. Dá para fazer um rápido rastreamento financeiro do crime organizado. O TSE vai usar esse software para rastrear o movimento financeiro das candidaturas.

Istoé -

Outra dor de cabeça de sua gestão no ministério é a superlotação dos presídios. O governo quer mesmo pôr 80 mil presos na rua, com tornozeleiras e pulseiras eletrônicas?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Nenhuma medida do ministério visa a soltar presos. Temos uma política clara de investimento no sistema prisional. Existe um tripé para a segurança pública: a polícia, na qual se investiu bastante, a Justiça, que também teve investimentos, e o sistema prisional, que não teve o mesmo nível de investimentos. Isso desequilibra. Este ano serão R$ 600 milhões para cobrir o déficit prisional. Vamos construir 36 centros de detenção provisória, permitindo o esvaziamento das delegacias.

Istoé -

Há estimativa do número de presos que já poderiam estar em liberdade?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Preenchendo os requisitos de liberdade, haveria, sim, uns 80 mil presos. O ministério não defende a liberação. Poderiam estar em liberdade, mas é o juiz que libera, não é o ministério. Teoricamente, teriam direito à progressão, mas é necessário avaliar caso a caso.

Istoé -

O Brasil não tem um cadastro nacional unificado de presos?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Tem o Infopen, mas não é alimentado pelos Estados de maneira adequada. No caso do assassino em série de Luziânia até que havia informações. Constava no Infopen que o preso respondia a processo anterior na Bahia. Mas o Infopen depende de alimentação dos Estados, que alegam falta de computador e de pessoal. O ministério vai financiar a contratação de estagiários para alimentar esse sistema.

Istoé -

Mas em que momento entram as pulseiras eletrônicas?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Em todas as fases. A pulseira começa a entrar no “saidão” de fim de semana, “saidão” da Páscoa, do Dia das Mães, Dia dos Pais. Acontece que, hoje, 10% dos presos não retornam aos presídios, fogem.

Istoé -

A pulseira permitirá que o preso seja encontrado por sinal de satélite?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Sim, pelo sistema GPS. Há uma unidade de monitoramento. Você tem condições de aferir em tempo real onde o preso se encontra e terá o registro histórico de sua movimentação. Nos países onde as pulseiras foram adotadas, o índice de presos que não retornam caiu quase a zero.

Istoé -

A pulseira não será usada  para regime semiaberto de prisão?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Também. Mas o juiz terá de decidir caso a caso onde aplicará a pulseira. Tem que limitar o espaço territorial. Se o preso sair daquele espaço, perde o direito e volta ao regime fechado. Já existem pulseiras que permitem que se converse com o preso. É como se fosse um relógio e tem até alto-falante.

Istoé -

Além da questão prisional, é importante reduzir os níveis de criminalidade. Os programas de segurança pública, como o Pronasci e as UPPs no Rio, vêm dando resposta?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Pela primeira vez, a gente está conseguindo respostas consistentes no Brasil para problemas que pareciam insolúveis. Diziam que a questão do Dona Marta e do Complexo do Alemão, no Rio, não tinha jeito, o investimento público não reverteria o cenário. Pela primeira vez no Brasil, a gente descobre que o investimento na prevenção à criminalidade tem efeito concreto. Os meninos entram para o crime muito rapidamente. O Pronasci vai à região e captura os jovens, no bom sentido. No Rio, nessas zonas aplicadas, chegou-se a reduzir em 60% os índices de crimes.

Istoé -

Havia o temor de que as forças de segurança fossem contaminadas pelo tráfico.

Luiz Paulo Teles Barreto -

Quando a força de segurança e o aparelho do Estado chegaram, a população se envolveu e criou um clima absolutamente incompatível com a criminalidade. O criminoso tem que migrar. Chega a um ponto em que o traficante diz: “Fecha a porta.” E o cidadão responde: “Fecho nada.”

Istoé -

No Rio, alguns traficantes tentam se reorganizar para  reocupar algumas áreas. As facções estão se reorganizando?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Sim. Ali perto do Alemão, eles percebem que estão perdendo a guerra e querem reverter essa derrota. Não vão conseguir. É um grupo criminoso que está sendo derrotado. O Rio já criou uma força-tarefa. O Ministério da Justiça já avisou que, se precisar da Força Nacional, da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária, estamos dispostos a acionar.

Istoé -

É possível eliminar o tráfico?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Sem acabar o consumo, a oferta vai sempre tentar suprir essa demanda. É claro que, se houver dificuldade, o preço sobe. E aí a tendência é cair o consumo de droga no País. Não trabalhamos nessa matemática, mas ela existe. O presidente Lula recentemente pediu uma reunião para discutir drogas. Estiveram presentes os ministérios da Justiça, da Educação, da Saúde, do Desenvolvimento Social e a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad). Cada área apresentou suas propostas. O presidente gostou do que viu e pediu uma política integrada. Estamos levando esta proposta a ele na próxima semana.

Istoé -

Os americanos querem criar uma base no Rio contra o narcotráfico?

Luiz Paulo Teles Barreto -

Não. Temos projetos de parceria com os americanos. Hoje mesmo há seminário no Rio em parceria com o Departamento Antidrogas americano (DEA), com a participação de 140 países. O Brasil não precisa de base americana. Basta a cooperação entre as polícias dos países, a Justiça dos países, a diplomacia dos países. O governo não tem tido a postura de uma cooperação tão ampla a ponto de instalar uma base. Há certa divergência entre EUA e Brasil num ponto. Nós não acreditamos que adianta combater só a produção sem combater o consumo.




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