A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  1658 |  11.Jul.01 - 10:00 |  Atualizado em 21.Mai.12 - 12:49

Anthony Giddens

A roda redescoberta

A boa sociedade não é a dos mercados sem freios, mas a que une competição e governo democrático eficaz e não corrupto, diz o guru de Blair

Daniel Stycer

Para setores da esquerda mais conservadora ele não passa de um neoliberal enrustido, um conservador que não ousa se assumir. Para a direita, ele é apenas um social-democrata tentando dar uma roupagem moderna ao pensamento da esquerda. É neste fogo cruzado que se encontra Anthony Giddens, 63 anos, diretor da London School of Economics and Political Science. Autor e editor de dezenas de livros que influenciaram o debate sobre o futuro da social-democracia em muitos países, Giddens é frequentemente apontado na Inglaterra como o guru de Tony Blair. É considerado um dos pais do Novo Trabalhismo. No Brasil, tem um fã de carteirinha: o presidente sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Seu mais recente livro, A Terceira Via e seus críticos, que a Record lança no próximo dia 15, é mais uma tentativa de diferenciar a Terceira Via da chamada “velha esquerda” e, ao mesmo tempo, precisar o que a separa dos liberais. Tanto a esquerda tradicional quanto o neoliberalismo falharam. A primeira por ter centralizado poder demais na mão do Estado e a segunda, por achar que os mercados podem tomar conta de tudo, argumenta Giddens.

Istoé -

A globalização é frequentemente apontada como um mal irreversível. Como o sr. vê esse processo?

Anthony Giddens -

 Eu entendo a globalização de forma distinta da maioria das pessoas. Ela não é apenas a expansão do mercado global, não é somente um fenômeno econômico que surgiu com o colapso da União Soviética. A globalização é, antes de mais nada, um fenômeno de comunicação, que se intensificou a partir dos anos 60 e 70, quando os primeiros satélites foram lançados, possibilitando a comunicação imediata ao redor do mundo. Desde então muitas coisas mudaram, entre elas a noção de soberania. Se pegarmos essa definição mais ampla perceberemos que a globalização tem aspectos positivos. Hoje em dia é muito mais improvável que ocorram guerras tão devastadoras como as que marcaram o século XX. Guerras localizadas podem continuar a existir, como na Bósnia ou no Iraque, mas elas não ameaçam a paz mundial.

Istoé -

A globalização não está tornando o mundo mais desigual? O fosso entre países ricos e pobres está aumentando?

Anthony Giddens -

 É preciso ter cautela ao fazer assertivas deste tipo. Há uma grande controvérsia a esse respeito. Alguns estudiosos afirmam que sim, mas acho que isso é altamente questionável. A maioria das comparações é feita utilizando-se o Produto Interno Bruto de países muito diferentes, como China e Moçambique. O certo seria comparar países que têm o mesmo número de habitantes, o que mostraria um quadro muito diferente. De fato, entre 1860 e 1960 o mundo estava ficando cada vez mais desigual, mas nos últimos 40 anos parece ter havido uma estabilização da desigualdade.

Istoé -

O sr. é contra ou a favor da adoção da Taxa Tobin, que permitiria taxar o capital internacional e redistribuí-lo?

Anthony Giddens -

 Acho que esse assunto não foi discutido seriamente entre as lideranças políticas dos países desenvolvidos. Por enquanto, tem sido uma discussão muito acadêmica ou das ONGs. Acho que é preciso estudar melhor, até para saber se ela é realisticamente viável. Mas, sim, acredito no caráter lógico, sensível e moral da Taxa Tobin.

Istoé -

 A globalização tem feito aumentar a disparidade nos países pobres?

Anthony Giddens -

 Em muitos países a prosperidade foi estendida à maioria da população. A China é o melhor exemplo disso. Nos últimos 30 anos, teve um aumento radical em seu PIB, e uma boa parcela da população beneficiou-se disso. O fato de China e outros países asiáticos crescerem num ritmo muito maior que outras economias avançadas mostra também que não é verdade que a disparidade entre ricos e pobres está aumentando. Só há um meio conhecido de se superar a pobreza, que é através do desenvolvimento econômico em que os pobres participem.

Istoé -

É possível ficar de fora da globalização?

Anthony Giddens -

 Não há futuro para qualquer país fora da economia global. Veja o caso de países que procuraram se isolar, como a Coréia do Norte ou Burma (Mianmá). Eles estão hoje entre os mais pobres e autoritários do mundo. O desafio que se coloca para os países em desenvolvimento é saber em que condições eles devem se engajar nesse mercado. Já parece claro que o fato de um país abrir-se por inteiro ao livre mercado não irá necessariamente beneficiá-lo. É preciso haver cautela para não se tornar muito vulnerável.

Istoé -

Que países estão mais vulneráveis ao livre mercado?

Anthony Giddens -

 Acho que para a maior parte dos países em desenvolvimento, como o Brasil, o problema maior não é o livre mercado, mas o Estado, ou melhor, o superdimensionamento do Estado. Normalmente, nesses países não há uma relação eficaz entre governo, Estado e mercado.

Istoé -

Qual é a sua opinião sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso?

Anthony Giddens -

Não creio que possa tecer comentários, não conheço bem a realidade brasileira. Respeito-o como sociólogo, conheço-o há muitos anos e admiro-o como pessoa. Mas não me sinto capaz de analisar seu governo.

Istoé -

Apesar de condenarem o protecionismo, muitos países industrializados adotam essa prática. É um jogo de retórica?

Anthony Giddens -

 De fato, o livre mercado tem sido uma ideologia muito professada pelos países desenvolvidos, mas nem todos a praticam. Um exemplo disso é a política agrícola da União Européia. Os países em desenvolvimento devem continuar lutando para tornar menos parcial essa balança política e econômica com os países industrializados. Acho que um dos maiores desafios da globalização é construir um mundo inclusivo e não um lugar onde uns se beneficiem dos outros.

Istoé -

Como o sr. define a Terceira Via?

Anthony Giddens -

 Para mim, a Terceira Via é apenas um rótulo para um debate que acontece em todo lugar do mundo sobre como construir uma filosofia de centro-esquerda eficaz, diferente daquela do passado. Sabemos que as economias centralizadas não funcionam, que a receita keynesiana de administração não é eficiente. A esquerda tradicional quer colocar muito poder na mão do Estado. Ela precisa reconstruir suas posições.

Istoé -

E quanto ao neoliberalismo, quais são as suas principais falhas?

Anthony Giddens -

 A era do neoliberalismo chegou ao fim, pelo menos ideologicamente. O problema do neoliberalismo é querer botar muito poder na mão do mercado. Muitas pessoas já aceitam que é preciso haver um apoio ativo do governo, apesar de o Estado não poder sozinho gerar desenvolvimento econômico. Na verdade, tanto a tradicional social-democracia quanto o neoliberalismo falharam. A Terceira Via é um grande projeto político, sério e universal, alternativo a esses dois modelos.

Istoé -

O que o sr. tem a dizer aos teóricos da esquerda que acusam a Terceira Via de ter capitulado ao neoliberalismo?

Anthony Giddens -

 Isso é um completo absurdo, uma bobagem. O neoliberalismo envolve a idéia de que os mercados podem cuidar de tudo. Para mim, o debate da Terceira Via passa pela recuperação das instituições públicas. A boa sociedade não é aquela que é invadida livremente pelos mercados, pois isso gera insegurança e não diminui as desigualdades. A boa sociedade é aquela onde há um equilíbrio, onde existe um mercado competitivo e um governo democrático eficaz, não corrupto.

Istoé -

Existe uma receita de sucesso?

Anthony Giddens -

 Não existe um pacote de políticas que se encaixem em todos os países. Cada um tem as suas especificidades. Não há uma receita aplicável a todos os países indistintamente, mas é preciso haver disciplina fiscal, traçar estratégias que gerem empregos e reformar o sistema previdenciário.

Istoé -

Que países praticam melhor esse receituário?

Anthony Giddens -

 Os países que estão em melhor situação são aqueles que desenvolveram políticas deste tipo, onde há altas taxas de emprego e de seguridade social. São, essencialmente, os países da Europa Ocidental, como Holanda e Dinamarca, e cada vez mais Grã-Bretanha, Espanha, Portugal, França, Alemanha e Itália. Historicamente, esses países têm mostrado ser os melhores. O que estamos tentando construir na Europa é um novo modelo social, onde haja flexibilidade no mercado de trabalho, mas também haja proteção às pessoas que queiram mudar de emprego. É preciso pagar um salário mínimo justo e ter um mínimo de segurança no emprego para prevenir a marginalização da força de trabalho. É preciso criar empregos nos novos setores de serviços e de tecnologia.

Istoé -

Como o sr. analisa a reeleição de Tony Blair? O baixo comparecimento às urnas significa que os ingleses estão insatisfeitos com o governo?

Anthony Giddens -

 Nos últimos 100 anos o Partido Conservador foi o partido governista, o partido dominante. Vê-lo marginalizado, como é hoje, significa uma grande mudança. Não sabemos a razão do baixo comparecimento às urnas. Tanto pode significar que as pessoas estão satisfeitas como insatisfeitas com o primeiro governo Blair. De todo modo, parece que querem dar nova chance ao governo de implementar as mudanças das instituições públicas. A maioria acha que o governo trabalhista fez um bom trabalho na economia. E realmente fez. Uma das maiores dificuldades do Partido Trabalhista e de todos os partidos de esquerda é conseguir provar que podem ser responsáveis economicamente. Tradicionalmente, a receita da esquerda sempre foi aumentar impostos e pegar empréstimos. Esse sistema entrou em colapso.

Istoé -

Como se explica a decadência dos sistemas de saúde e educacional na Inglaterra?

Anthony Giddens -

 Ao assumir o governo, depois de anos nas mãos dos conservadores, os trabalhistas estavam preocupados em mostrar à população que podiam ser economicamente competentes, que não iam fazer um governo estatizante. Por isso interromperam muitos projetos dos conservadores e congelaram os gastos por dois anos. Levou algum tempo até que fosse injetado dinheiro nos serviços públicos. Mas, com as mudanças realizadas nos últimos anos e a criação de novos empregos, mais dinheiro tem sido gasto em educação, saúde e transporte. A questão é saber de que maneira o governo aplicará esses recursos nos próximos cinco anos.

Istoé -

Afirma-se que a privatização do sistema ferroviário britânico foi desastrosa. É verdade?

Anthony Giddens -

 O sistema ferroviário britânico foi relegado durante 40 anos. A falta de investimentos se deu justamente no tempo em que pertencia ao Estado. Portanto, não é correto culpar exclusivamente a privatização pelo mau funcionamento dos trens. No entanto, acho que a privatização foi feita de forma precipitada e desagregadora.

Istoé -

 Empresas que passaram à iniciativa privada e continuaram ineficientes deveriam ser reestatizadas?

Anthony Giddens -

É preciso aumentar o controle e a regulação sobre elas. Países como o Japão, que privatizaram o sistema ferroviário, têm obtido sucesso. Não devemos jamais opor privatização e propriedade pública. Não devemos ter uma atitude dogmática em relação a isso. Só faria sentido reestatizar o sistema se houvesse dinheiro o bastante para isso, o que não creio que seja o caso. A maioria dos países do mundo lida com esse problema. A França tem trens maravilhosos, mas seus custos são enormes.

Istoé -

Por que os Estados têm dificuldade em regular a iniciativa privada?

Anthony Giddens -

 O maior problema do Estado não é regular as empresas privadas, mas regular a si próprio e as suas empresas. Em muitos casos, essa regulação não é feita de acordo com o interesse público. Muitas empresas estatais consomem muito dinheiro e produzem poucos resultados. É uma questão ampla, que não tem muito a ver com público ou privado, e sim como conseguir investimentos em áreas-chave e, ao mesmo tempo, manter um controle público sobre elas. É preciso observar as experiências bem-sucedidas ao redor do mundo, inclusive as parcerias entre público e privado.

Istoé -

Quais são, na sua opinião, as principais atribuições do Estado?

Anthony Giddens -

O Estado tem um papel importante a desempenhar. Há setores da sociedade, como a educação, que jamais devem ser privatizados. Há muito para o Estado fazer. A maior parte dos problemas não está na esfera do Estado, mas na natureza do Estado, que não acompanha o ritmo de um mundo em rápida transformação.

Istoé -

Pode explicar isso melhor?

Anthony Giddens -

Uma coisa que descobrimos nos últimos 20 anos é que as instituições públicas e o Estado não são a mesma coisa. A esquerda tradicional ainda tende a igualar os dois. Quando é muito grande, burocrático, ineficiente, o Estado pode ser o inimigo da esfera pública. É preciso admitir que o bem público pode ser atendido por uma série de instituições, incluindo grupos do terceiro setor. É muito comum a colaboração entre governo, empresários e grupos do terceiro setor para que haja um desenvolvimento econômico efetivo. É isso o que muitos países desenvolvidos têm feito.

Istoé -

Acredita ser possível promover o desenvolvimento econômico sem destruir o meio ambiente?

Anthony Giddens -

Há muitas maneiras de promover o crescimento econômico, que ajudam o meio ambiente em vez de destruí-lo. As duas coisas não precisam estar em lados opostos. Reciclar o lixo, por exemplo, não é apenas ecologicamente correto, mas economicamente rentável. Isso é uma mudança de mentalidade.

Istoé -

Como vê a decisão americana de não ratificar o Protocolo de Kioto?

Anthony Giddens -

Acho que a comunidade internacional precisa pressionar o governo americano. Creio que num mundo globalizado como o nosso não é mais possível que um país simplesmente coloque os seus interesses nacionais em primeiro lugar. Acho que Bush, de certo modo, começa a perceber isso, que o fato de ter vencido uma eleição tão dividida não lhe confere o direito de cumprir um mandato exclusivamente de direita. Acho que os países da Comunidade Européia devem tentar persuadir o governo americano a olhar novamente para o Protocolo de Kioto. É provável que não consigam fazer com que os Estados Unidos assinem, mas devem tentar. É preciso convencer os americanos a adotar uma política ecológica mais responsável.




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