A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  1654 |  13.Jun.01 - 10:00 |  Atualizado em 24.Oct.14 - 15:52

Anthony Wong

O risco dos analgésicos

O paracetamol, princípio ativo de alguns dos remédios mais vendidos no mundo, como o Tylenol, não é inofensivo, alerta o médico Anthony Wong

Lena Castellon e Lia Bock

Dar um remédio para baixar a febre em crianças ou tomar um comprimido para aliviar a dor de cabeça não é tão simples quanto parece. No primeiro caso, é comum os pais abusarem da dosagem na tentativa de diminuir a temperatura corporal dos filhos adoentados. No segundo, a pessoa pode estar ingerindo alguma substância nociva. Para evitar esses problemas, é preciso saber exatamente o que seu organismo tolera. E também entender os riscos embutidos nos medicamentos. Inclusive daqueles que são famosos por ser inofensivos. Uma dessas drogas está na mira do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital das Clínicas de São Paulo. É o paracetamol, princípio ativo de um dos analgésicos mais vendidos no mundo, o Tylenol. O médico Anthony Wong, 54 anos, chefe do setor, alerta para os perigos da substância, que pode causar lesões no fígado e até levar à morte. O especialista luta no País pela revisão da bula desse remédio e de outros que tenham o princípio ativo. Recentemente, a revista Time, dos Estados Unidos, publicou uma matéria sobre os riscos do paracetamol. Isso motivou Wong a debater o tema no Brasil.

Istoé -

Recentemente, o FDA (órgão que fiscaliza medicamentos nos Estados Unidos) recomendou mudanças nas embalagens do Tylenol. Essa substância não é tão inofensiva quanto boa parte da população pensa?

Anthony Wong -

 Não é uma droga inofensiva. Sabe-se há muito tempo que o paracetamol causa falência hepática, a destruição total do fígado. Inicialmente, dava-se como dose segura para um adulto cerca de oito gramas diários. Mas, há sete anos, o FDA baixou essa dose para seis gramas e, há quatro anos, determinou que ela deve ser quatro gramas para adultos. Se pensarmos que o Tylenol Super (um dos produtos da marca) tem 750 mg, podemos dizer que essa dose equivale a cinco cápsulas por dia, em função da presença da substância no medicamento. Ou seja, o limite que era considerado seguro tempos atrás está mudando, progressivamente, no decorrer dos anos. O segundo problema da substância é que ela é um remédio para dor e febre muito menos eficaz do que os outros que existem no mercado. Isso porque, em geral, sua capacidade de baixar febres elevadas (acima de 39,5 graus) é menor do que a da dipirona (princípio ativo da Novalgina, por exemplo). Além disso, dificilmente ele mantém a temperatura corporal baixa por mais de quatro horas, enquanto o efeito da dipirona dura mais de seis horas. O ibuprofeno (princípio ativo do remédio Advil, entre outros medicamentos) age como a dipirona: diminui rapidamente a febre e mantém a temperatura baixa por mais tempo. O problema de o paracetamol ser menos eficaz é que as pessoas usam o remédio mais vezes e atingem logo a dosagem tóxica. Tanto no adulto quanto na criança.

Istoé -

O paracetamol é mais seguro para crianças do que para adultos?

Anthony Wong -

 Sempre se considerou que a substância era mais segura em crianças do que em adultos porque o fígado da criança teria mais estoques de uma substância chamada glutationa, que neutraliza o potencial tóxico do paracetamol. Teria, portanto, mais condições de reagir à droga. No entanto, vários estudos já mostraram que a criança pode ficar com baixos estoques de glutationa quando está com febre prolongada, diarréia, vômitos ou subnutrida. Então, ela também está sujeita a lesões no fígado, assim como o adulto.

Istoé -

Como acontece exatamente a lesão no fígado pelo paracetamol?

 

Anthony Wong -

 O paracetamol em si não causa a lesão. Ele é transformado em um composto no fígado para que faça efeito contra a febre. Depois é transformado mais uma vez para que possa ser eliminado. É assim que funciona a maioria dos medicamentos. Em detalhes, no caso do paracetamol, quando há quantidade suficiente de glutationa, o organismo transforma uma das substâncias presentes nesse processo, o NAPQI (N-acetilparabenzoquinoneimina, que é extremamente agressiva à célula hepática) num outro composto. Esse terceiro composto não é tóxico e depois é descartado pelos rins. Caso o NAPQI se acumule, pode ocorrer uma necrose, ou seja, a morte de células do fígado. E com isso pode haver um comprometimento irreversível desse órgão.

Istoé -

O perigo só existe em casos de superdosagem?

Anthony Wong -

 Falava-se que a lesão do fígado só acontecia com doses excessivas. Cada vez, porém, fica mais claro que essa lesão não ocorre apenas com superdosagens, mas também com doses terapêuticas, as que se usam normalmente. Ou seja, está havendo intoxicação com doses até menores que seis comprimidos por dia. Outro fato é que existem muitos remédios com paracetamol. Quase todos os antigripais, por exemplo, contêm a substância. Alguns antiinflamatórios também. Então, acontece muito de as pessoas usarem medicamento para gripe e tomarem paracetamol para dor de cabeça e febre. Assim, facilmente se ultrapassa a dose máxima de quatro gramas diários recomendada para adultos.

Istoé -

O que pode acontecer nesses casos?

Anthony Wong -

 É comum as pessoas tomarem analgésicos porque o antiinflamatório, sozinho, pode não tirar a dor. A associação com o paracetamol pode gerar uma nefrite analgésica, uma doença renal muito séria. E não precisa ter overdose. Essa doença não é percebida imediatamente. A alteração renal não é fácil de se notar. Só se descobre a nefrite com exames. E não se faz exame todo dia. Precisamos fazer o alerta desse risco no Brasil. Nos Estados Unidos, já se sabe do perigo em associar o paracetamol com antiinflamatórios há mais de 15 anos.

Istoé -

Há também uma relação entre paracetamol e bebidas alcoólicas. O que se sabe hoje a esse respeito?

Anthony Wong -

Quando se bebe álcool demais, o fígado é agredido. Acreditava-se que o mecanismo de metabolização do álcool seria diferente do metabolismo do paracetamol, pois eles usariam sistemas enzimáticos diferentes. Como se eles não tivessem nada a ver um com o outro. Mas descobriu-se que não é bem assim. Antigamente, imaginava-se que as pessoas que ingerissem até três doses de uma bebida destilada não seriam afetadas pelo paracetamol. Só quem fizesse uso de doses maiores que essa teria problemas ao tomar o remédio. O primeiro conceito está errado e o segundo, certo. O álcool interfere na disponibilidade de glutationa, causando lesão hepática. Além disso, o álcool é irritante para o estômago e, associado ao paracetamol, pode provocar sangramento gástrico. Não se sabe o mecanismo, mas isso acontece. Está até na bula americana dos medicamentos que contêm o princípio ativo. Portanto, quem ingerir três ou mais doses de bebidas destiladas (como uísque, pinga, vodca, gim) não deve tomar paracetamol.

Istoé -

Além desses problemas de associação com bebida alcoólica ou antiinflamatórios, existem outras situações de risco?

Anthony Wong -

 Sim. O uso de paracetamol durante algumas doenças também pode ser arriscado. Crianças com diarréia e vômito, por exemplo, estão com estoques baixíssimos de glutationa e podem até se intoxicar com doses consideradas normais, já que não têm a substância para metabolizar o paracetamol. Quem está com hepatite crônica B, C e D também não pode tomar o remédio. Nesses e em outros casos em que o fígado não funciona direito, os pacientes estão mais propensos à intoxicação por paracetamol.

Istoé -

A propaganda do Tylenol é de que, exatamente por ser o mais seguro, ele é o único da categoria recomendado para crianças e gestantes. Isso é verdade?

Anthony Wong -

 Na gravidez, o uso de qualquer remédio deve ser feito com muita cautela. Administrar medicamentos para crianças também requer muita atenção. No caso da gestação, podemos analisar os quatro analgésicos que estão no mercado: dipirona, paracetamol, ácido acetilsalicílico (princípio ativo da Aspirina, por exemplo) e o ibuprofeno. O ácido acetilsalicílico não deve ser usado no primeiro trimestre da gestação porque existe suspeita de que possa afetar o bebê. Mas certamente no terceiro trimestre não se usa porque provoca risco de sangramento. Por ser também antiinflamatório, o ibuprofeno pode propiciar sangramento e ameaçar a gravidez. Como a dipirona não é consumida nos Estados Unidos, não se avaliou seu risco na gravidez. Está escrito na bula: risco na gravidez não avaliado. Mas no segundo e terceiro trimestres de gravidez o risco parece ser pequeno. O paracetamol sempre teve propaganda a favor muito grande, mas nunca foi avaliado adequadamente. Em vista dos novos alertas sobre o paracetamol, seu risco deveria ser revisto. É preciso alertar as pessoas: a propaganda não pode ser a alma do negócio nesses casos.

Istoé -

Qual a importância dessas advertências constarem do rótulo?

Anthony Wong -

 Nos últimos sete anos, a bula do paracetamol foi modificada pelo menos quatro vezes nos Estados Unidos. Mas as advertências funcionam no mercado americano. Aqui, não. A bula não é fiscalizada. Apesar de existir uma lei que diz que no Brasil a bula deve estar de acordo com a bula original do remédio, isso não ocorre.

Istoé -

O que falta na bula do Tylenol, por exemplo?

Anthony Wong -

 Ela não esclarece qual o risco para quem bebeu ou vai beber três ou mais doses de bebida alcoólica. Fala apenas de alcoólatras crônicos. Mas o que é um alcoólatra crônico? Fica vago, fica na mão do consumidor. Eu conheço muita gente que bebe mais de três doses por dia e não se considera um alcoólatra.

Istoé -

Desse jeito, a responsabilidade pelo consumo do medicamento fica para o consumidor, já que ele é vendido no mundo todo sem prescrição?

Anthony Wong -

Nem sempre. Na Inglaterra, por exemplo, limita-se o número de comprimidos vendidos ao consumidor. Não sei se essa medida funcionaria no Brasil. Temos a tendência de imaginar que o consumidor brasileiro tem pouco conhecimento sobre a toxicidade dos medicamentos e que faz muita automedicação. Mas isso só acorre quando há falta de instrução. Se fosse feita uma campanha sobre os problemas da automedicação, com certeza as pessoas teriam mais cuidados. Se ninguém fala nada, fica complicado.

Istoé -

No Brasil, existem muitos casos de intoxicação e de morte por overdose?

Anthony Wong -

 No Ceatox, o analgésico com mais relatos de overdose tem sido o paracetamol. As pessoas usam demais o remédio. Pensam que é seguro, abusam e têm problemas. O primeiro caso que constatei foi em 1979. Uma criancinha de quatro meses com gripe e febre teve convulsões porque a mãe deu alta dose de analgésico com paracetamol. Nós nem sabíamos que o paracetamol poderia intoxicar. Fizemos exame de sangue e urina e deu uma altíssima quantidade da substância.

Istoé -

Por ser vendido sem prescrição, é possível que o risco do medicamento acabe sendo maior do que o de remédios que são controlados?

Anthony Wong -

 O risco é diferente. As pessoas que tentam se matar com barbitúricos, por exemplo, apresentam sintomas claros. É mais fácil salvá-las. Com o paracetamol, não. A pessoa toma o remédio e o sintoma aparece só depois de 24 horas. Aí, já é muito tarde. Se não salvar o fígado em 12 horas, é muito difícil reverter o quadro.

Istoé -

Que alertas podem ser dados à população?

Anthony Wong -

Ao tomar mais de um remédio, verifique se eles contêm a substância. Caso contenham, não ultrapasse a margem terapêutica recomendada. Segundo lugar, não se pode pensar que o medicamento é seguro só porque é vendido sem prescrição. São remédios como outro qualquer e requerem cuidado. É preciso lembrar que a intoxicação por paracetamol é muito mais frequente do que o que se pensava antigamente. Por último, nunca se deve fazer automedicação, mesmo com remédios de venda livre, principalmente para crianças. O fato de ser de venda livre não reduz em nada os possíveis efeitos danosos.

Istoé -

Se a criança estiver com febre, a mãe deve ligar para o médico antes de dar alguma medicação com paracetamol?

Anthony Wong -

A mãe deve saber que a dose de paracetamol é limitada. Se a febre não baixar com a dose recomendada, não se deve repeti-la.

Istoé -

E quem faz uso frequente do paracetamol? Aqueles que tomam uma ou duas cápsulas por dia correm algum risco a longo prazo?

Anthony Wong -

 Há indícios de que o uso crônico do paracetamol em doses próximas do limite diário estabelecido pode levar à lesão do fígado a médio e longo prazos. Então, o fato de limitar os comprimidos diários não é garantia de que a pessoa não vá sofrer. Se ele tomar por muito tempo, existe, sim, o risco de lesão do fígado. Outro alerta que consta até na bula, mas que ninguém lê, é que o paracetamol é uma das poucas drogas que, associadas a outros remédios, podem causar lesão hepática. Ele não pode, por exemplo, ser tomado com barbitúricos (substâncias usadas contra convulsões).

Istoé -

E com tudo isso, vale a pena tomar o paracetamol?

Anthony Wong -

Todo remédio, apesar de ser benéfico, traz riscos. Todo medicamento tem suas indicações e limitações. Sabendo quais são e seguindo rigorosamente as orientações, ele é seguro.

Istoé -

Para conhecermos esses riscos dependemos da boa vontade da indústria?

Anthony Wong -

 Dependemos basicamente da responsabilidade civil da indústria farmacêutica, de campanhas, orientação e fiscalização do governo e da educação do povo.

Istoé -

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) poderia tomar alguma medida imediata com relação a essa conscientização?

Anthony Wong -

Isso sim. E urgente. A Anvisa deveria exigir que todas as bulas médicas fossem adequadas às encontradas nos países de origem dos remédios. O FDA exige revisão de bula, que deve ser feita em dias, e não em meses, como acontece aqui. E a indústria ainda envia uma carta aos médicos avisando da mudança. Essa medida é importante porque poucos profissionais fazem cursos de atualização terapêutica e por isso eles acabam ficando à margem da evolução da medicina e podem prejudicar seus pacientes.




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