A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  2253 |  18.Jan.13 - 21:00 |  Atualizado em 21.Jul.14 - 19:35

Frank Partnoy

"A tecnologia está nos transformando em animais"

Professor americano defende que as pessoas se livrem do ritmo ditado pela internet e aproveitem o tempo para pensar antes de agir

por Juliana Tiraboschi

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CALMA
Para Partnoy, desde Roma e Egito antigos, os homens mais
talentosos refletiam, e esse é o talento que nos separa dos animais

Em 2005, o jornalista americano Malcolm Gladwell lançou o livro “Blink, a Decisão num Piscar de Olhos”. Na obra, ele defende a ideia de que agir por impulso não é sinônimo de inconsequência, mas uma forma de usar a intuição para tomar decisões acertadas. O sucesso foi tão grande que 500 mil exemplares foram comercializados nos EUA apenas no primeiro mês de venda e Gladwell foi eleito uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”, naquele ano.

Agora, sete anos depois, finalmente aparece um livro com consistência suficiente para ser um “anti-Blink”. Frank Partnoy, professor de direito e finanças da Universidade de San Diego (EUA), é autor de “Como Fazer a Escolha Certa na Hora Certa” (Elsevier), recém-lançado no Brasil e que já vendeu mais de 700 mil cópias apenas na Amazon. Na obra, ele vai na contramão de Gladwell e prega que as pessoas deem um passo para trás e “abracem a lentidão”, aproveitando melhor o tempo para pensar antes de agir. Em entrevista à ISTOÉ, ele explica por que é à favor da procrastinação responsável.

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"Especialistas em produtividade como
Peter Drucker escreviam sobre eficiência e nos
faziam sentir mal em relação à procrastinação"

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“Um tenista habilidoso (como Roger Federer) domina a
ansiedade e calcula o momento exato de atingir a bola"

Fotos: Tim Mantoani; jonathan Alcorn/ZUMAPRESS.com; Bernat Armangue/ap

Istoé -

O sr. diz em seu livro que esperar até o último minuto para tomar uma decisão é a melhor saída na maioria dos casos. Pessoalmente, o senhor é um procrastinador?

Frank Partnoy -

Sim, sempre fui, durante a minha vida inteira. Desde pequeno, eu discutia com a minha mãe quando ela me mandava fazer a cama. Nunca entendi isso. Se alguma visita fosse entrar no meu quarto, eu o arrumava. Por que eu me daria ao trabalho de fazer isso antes? Como estudante, sempre procrastinei para estudar ou escrever algum trabalho. E detestava quando me diziam que aquilo era ruim, porque me parecia certo. Se eu levava uma hora para estudar, eu esperava até o momento mais próximo da prova para me preparar. As informações ficariam mais frescas na memória. Sempre esperei até o último minuto para realizar as tarefas. Acho que era meu cérebro tentando me dizer alguma coisa.

 

Istoé -

A procrastinação já foi vista como positiva ao longo da história?

Frank Partnoy -

Sim, no Egito e na Roma antigos, esse comportamento era visto como sinal de sabedoria. Os líderes e anciões eram pessoas que não reagiam imediatamente. Eles refletiam sobre os problemas. Essa é a diferença entre humanos e animais. A coisa mais humana que podemos fazer é pensar.

Istoé -

E quando essa percepção começou a mudar?

Frank Partnoy -

Talvez como uma reação à libertação dos anos 1960, isso começou a mudar principalmente a partir dos anos 1970. Nessa época, especialistas em produtividade como David Allen e Peter Drucker escreviam sobre como resolver os problemas imediatamente, aumentar a eficiência e agilidade nos processos e nos faziam sentir mal em relação à procrastinação. Sempre achei que isso não é receita para a felicidade ou o sucesso. As faculdades de administração começaram a pesquisar como reduzir custos, agir com mais precisão e “limpar as mesas”. Esse tipo de pensamento se espalhou e surgiram muitos livros antiprocrastinação, o comportamento de adiar foi rotulado como maligno. E a tecnologia “bombou” essas mudanças culturais.

Istoé -

Como?

Frank Partnoy -

A tecnologia piorou o nosso senso de pressa. Hoje as pessoas esperam uma resposta imediata para tudo com a internet, redes sociais como o Twitter, etc. Essas ferramentas são fantásticas, mas também perigosas. Geralmente as nossas primeiras reações são erradas ou tendenciosas. Elas não nos dão tempo para refletir. Daí voltamos para a questão da diferença entre humanos e animais. Nós somos capazes de pensar, de contemplar o futuro. A tecnologia está nos desumanizando, nos transformando em animais que apenas reagem instantaneamente. Acabamos perdendo muito com isso. Por exemplo, houve esse caso terrível do massacre na escola em Newtown, recentemente. Começou uma pressão incrível e imediata na mídia por informações. E ela foi tanta que, inicialmente, uma pessoa errada foi apontada como o atirador. Esse tipo de coisa está acontecendo com cada vez mais frequência.

Istoé -

Mas deixar as tarefas para serem resolvidas depois não pode causar ansiedade?

Frank Partnoy -

Pode. Tem gente que sente dificuldade em esperar, em lidar com a ansiedade. A diferença entre um profissional mais talentoso e um menos é a capacidade de lidar com esse sentimento. É como um tenista habilidoso que calcula o momento exato de atingir a bola, um advogado que espera até o último minuto para entregar um documento, alguém que sabe aguardar o timing perfeito para contar a parte mais importante de uma piada ou fazer uma pausa estratégica em um discurso.

Istoé -

Há uma dica para quem fica desconfortável com a ansiedade?

Frank Partnoy -

Nesses casos é preciso praticar a redução de velocidade. Talvez seja o momento de iniciarmos outra mudança cultural, de dar um passo para trás e abraçar a lentidão. Eu conversei com muitos empresários e políticos para escrever meu livro, e descobri que os profissionais mais talentosos sentem-se confortáveis em esperar o tempo certo para tomar a melhor decisão. Nem tudo precisa ser feito instantaneamente. Se nós resolvermos responder imediatamente a cada e-mail que recebemos, nosso dia será todo tomado por essa tarefa.

Istoé -

E quais as vantagens de tomar decisões de maneira mais lenta?

Frank Partnoy -

Você tem mais tempo para analisar, para reunir informações e para esperar mais desdobramentos da situação. Se você souber aguardar, o problema pode se transformar, ou mesmo desaparecer. Se você se adiantar, não dá a oportunidade para isso acontecer. Além disso, nos momentos que antecedem o prazo final para uma ação, você fica mais focado, mais concentrado.

Istoé -

O sr. pode fornecer exemplos práticos disso?

Frank Partnoy -

Minha filha faz teatro, e o grupo dela gosta de se preparar e fazer alterações no texto no último instante antes de entrar no palco. Sob essa pressão, a performance é melhor. Outra situação: um repórter que vai entregar uma matéria daqui a dois meses tem muito tempo para fazer entrevistas e reunir dados. Mas, se ele começasse a escrever o texto amanhã, muita informação ficaria de fora.

Istoé -

A procrastinação pode ser benéfica para jornalistas?

Frank Partnoy -

Sim. Eu entrevistei Steve Kroft, apresentador do programa “60 Minutes”, e fiquei impressionado como ele e os produtores esperam até o último minuto para elaborar as perguntas aos entrevistados. Até para mim pareceu uma situação tensa e cheia de ansiedade, mas ele parece muito confortável. Ele pensa sobre o assunto, conversa com a equipe e apenas momentos antes da gravação escreve as perguntas.

Istoé -

E esse é um método que poderia ser adotado pelos seus leitores?

Frank Partnoy -

O que eu espero é que o livro ensine aos leitores um sistema em duas etapas. A primeira é identificar o último momento possível ao qual elas podem aguardar para iniciar uma tarefa qualquer. A segunda é controlar a ansiedade até a chegada desse instante. Eu conversei com um correspondente do “New York Times”. Todos os dias ele tinha que enviar uma matéria. Ele me disse que levava cerca de uma hora para escrever. Então ele passava todo o tempo disponível até 60 minutos antes do prazo final ao telefone, conversando com fontes. Ele acabou se tornando muito bom em contornar a ansiedade. Isso é uma arte, e é por isso que o subtítulo do livro é “a arte e a ciência do adiamento”. Cada um tem de calcular o tempo disponível para diferentes tarefas.

Istoé -

Hoje, com toda essa necessidade de urgência, as pessoas mais analíticas e que demoram mais para reagir não são vistas como preguiçosas?

Frank Partnoy -

Depende da quantidade de poder que elas detêm. Tem uma frase muito comum no mundo empresarial que é a seguinte: “Se você pedir alguma coisa para o chefe e quiser uma resposta imediata, a resposta será sempre ‘não’”. Ou seja, os líderes, como os diretores-executivos de empresas, podem se dar ao luxo de levar mais tempo para pensar antes de tomar uma decisão. Já os funcionários da base mais lentos são vistos sim como ineficientes. O desafio é descobrir como ser mais devagar sem ser visto como “mole”. Conforme você sobe na carreira, adquire a habilidade de adiar. Algumas pessoas têm dificuldade em fazer isso, estão sempre correndo. Para essas é difícil ascender na empresa, porque não conseguem desenvolver estratégia e planejamento.

Istoé -

Então a lentidão pode ser benéfica para a carreira?

Frank Partnoy -

A verdade é que a procrastinação é uma condição humana universal. Nós sempre temos muitas coisas para fazer e sempre estamos adiando alguma tarefa. Temos que aprender a lidar com essa realidade, e não combatê-la. É por isso que é bom convencer as pessoas a trocar o termo procrastinação por “gestão do adiamento”. Eu participei de reuniões no Google e propus a criação de uma ferramenta para incentivar a “cultura da demora” e restringir as demandas por respostas imediatas. Seria uma espécie de “créditos de e-mail”. Por exemplo, usando esse aplicativo, um chefe teria direito de exigir um retorno urgente para um número limitado de mensagens por dia. A percepção geral é a de que os e-mails têm de ser respondidos instantaneamente. Geralmente isso é um desastre. Quantas vezes você já escreveu com raiva ou apressadamente?

Istoé -

Mas, em algumas situações, as reações imediatas são necessárias...
 

Frank Partnoy -

Sim, mas mesmo as respostas rápidas podem ser um pouco atrasadas. Se os médicos em um pronto-socorro puderem tirar alguns segundos ou minutos extras para fazer uma pergunta a mais ao paciente ou examiná-lo melhor, isso é positivo. Os bombeiros se saem melhor se levarem alguns segundos a mais para analisar a situação. Quanto mais especializados nos tornamos em um assunto, maior é o nosso excesso de confiança, e daí é mais fácil cometermos erros. Não é sempre que precisamos ser lentos. O ponto é identificar qual é o seu “universo de tempo” e maximizá-lo coletando informações e refletindo sobre elas.




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