David Uip
"Camisinha é ruim e droga é bom"
Para o médico, é preciso dizer a verdade antes de se reforçar que o preservativo salva vidas e que a dependência química mata. Pode ser um caminho para melhorar a prevenção da Aids
Gisele Vitória
Assim como tantos pais, o infectologista David Uip enfrentou dificuldades para conversar com os filhos sobre sexo, drogas e Aids. Com toda a experiência que acumulou em 34 anos de medicina, ficou roxo quando seu filho, aos 7 anos, achou uma camisinha e lhe pediu para mostrar como usava. Ciente das travas históricas entre pais e filhos nessas conversas delicadas, ele acredita no poder da família, da cumplicidade e da verdade para mudar comportamentos. Aos 57 anos, ex-diretor do Incor, Uip é um dos maiores nomes da medicina no Brasil e comanda um dos centros de referência de tratamento de Aids no País. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, é modelo para a Organização Mundial da Saúde e realiza mensalmente 2,7 mil atendimentos de pronto-socorro, 6 mil de ambulatório e 500 internações. Mesmo que os mais recentes números da Aids no mundo mostrem uma redução de 17% nos casos de novos contágios da doença, o médico não vê com otimismo o trabalho de prevenção. Para ele, o coquetel mudou a história da Aids, mas a doença tem sido banalizada. E só a chegada da vacina, que ainda vai demorar, será capaz de mudar este cenário. Quando observa o aumento de casos entre meninas de 13 a 19 anos, ele permanece fiel à crença de que só o diálogo verdadeiro com a família e com a escola fará as gerações futuras mudarem o olhar para a importância do uso do preservativo como forma de evitar mais mortes pela doença.
"A prevenção virá na hora em que tivermos vacina. O que não quer dizer que devemos desistir
do preservativo. Porque a vacina vai demorar muito”
"Adolescentes não usam preservativo. E questiono se uma menina de 13 anos está pronta para
ter uma vida sexual. Como ela vai negociar a prevenção?”
O recente relatório da Unaids expõe um panorama mundial mais otimista sobre a redução do número de novos casos de Aids. Mas a prevenção se mantém ineficaz. Como explica isso?
É uma notícia boa, mas precisa ser bem entendida.O que na verdade melhorou foi o acesso aos medicamentos. Não a prevenção. As pessoas tomam remédios, diminuem a quantidade de vírus no sangue e nas secreções, e contaminam menos. Isso fica claro na prevenção da transmissão materno-fetal. No Brasil, uma mulher grávida soropositivo que não toma o coquetel anti-Aids tem 25% de chance, em média, de passar o vírus para o filho. Com o tratamento, o risco cai para 2%. Em um trabalho que realizo em Angola mantivemos o parto normal e o aleitamento (duas situações de risco para a transmissão do HIV) e, mesmo assim, o índice de contágio de mãe para filho é menor do que 3%.
Os anos se passaram e a prevenção continua sendo o grande problema da disseminação da Aids.
O mundo não achou ainda uma saída. O uso de drogas injetáveis, ilícitas, diminuiu. Mas cresceu o de outras drogas que fazem com que o indivíduo aumente a liberalidade e se contamine por sexo. Você estabiliza uma coisa, mas desestabiliza outra Conversando com as pessoas você nota que a doença tem sido banalizada. Ah, tem remédio, não vou morrer mais. Há pessoas que buscam o risco.
Por que fazem isso?
O que determina o comportamento é o impulso. O indivíduo para o carro, contrata uma pessoa e, sem nenhum cuidado, se relaciona. Não há aqui nenhum preconceito quanto às preferências sexuais, mas eu me refiro à proteção da pessoa e do próximo com quem ela vai se relacionar. Estou muito preocupado.
Não existe medo?
O impulso é maior que o medo. Você pode ter desejo e se prevenir. Uma outra história é quando um dos parceiros é soropositivo e o outro não. Interessa muito que essa relação se perpetue. Porque se estabelece critério de confiança. Mas vira e mexe aparece o parceiro ou a parceira contaminada, ou grávida. Ou seja, não fizeram a lição de casa. Isso é frustrante. Continuo cada vez mais descrente. Dificilmente você muda comportamento.
As campanhas de prevenção não são mais tão enfáticas?
Quando se fala de Aids hoje? Próximo a 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, e no Carnaval. Imaginar que as pessoas não estejam informadas é complicado. As pessoas sabem como se transmite e como se previne. O que explica a exposição? Comportamento você não muda com campanha, com informação. Você tem uma chance com a educação continuada, desde a fase pré-adolescente.
O sr. vê diferenças de comportamento nos adolescentes hoje?
Eles não usam preservativo. Aumentou o número de meninas com Aids. É uma coisa que está clara. Aos 13 anos, questiono se esta menina está pronta para ter uma vida sexual ativa. Como ela vai negociar prevenção? Na outra ponta, aos 19 anos, a jovem muitas vezes se relaciona com um cara bonito, legal e ela confia. Só que não está estampado naquele rapaz que ele tem a doença. Aí vem a gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis. Se isso acontece é porque a pessoa não está usando camisinha.
A velha situação de que a camisinha atrapalha o sexo ainda é frequente?
Entendo que isso é da minha geração, gente com mais de 50 anos. Não fomos treinados a usar preservativo. É um desafio, porque na cabeça do homem de meia-idade pode significar que ele vai falhar. Para colocar a camisinha, tem que haver ereção. Isso pode comprometer o momento.
Como mudar os rumos da proteção contra a Aids?
Acredito que a prevenção virá na hora em que tivermos vacina. O que não quer dizer que devemos desistir do preservativo. Porque a vacina vai demorar. Muito. A prevenção virá com a educação. Família e escola. Isso é um trabalho a quatro mãos.
Com a chegada da vacina algum dia, acabaria então o fantasma da camisinha que atrapalha o sexo?
A Adriane Galisteu, que começou uma campanha beneficente, A Cara da Vida, para ajudar pacientes com Aids, fala uma coisa com a qual concordo plenamente. Temos que começar a falar a verdade. Camisinha é ruim. Droga é bom. Não adianta negar. Adriane diz publicamente que seu irmão morreu vítima da Aids e se contaminou com uso de drogas injetáveis. (Dias antes de morrer, o irmão da apresentadora pediu a ela que nunca experimentasse drogas, porque poderia gostar). Quando ela me contou desse pedido, inseri no contexto do que eu penso. Não venha dizer que camisinha é bom porque não é. E não adianta você dizer para um usuário de drogas que droga não é bom. É bom, mas mata, tenho que avisar. Sou visceralmente contra o uso de qualquer droga ilícita. Mas a conversa com a Adriane me fez refletir muito. Porque é verdadeira.Vou dizer para o usuário que não é legal ter barato? Ele vai dizer que eu digo isso porque nunca usei. Então temos que falar a verdade. Droga é bom? É, mas vai te matar. Camisinha é bom? Não, mas, se você não usar, pode morrer. Essa é a história. Não adianta advogar prazer, fetiche numa coisa que não tem. São situações desconfortáveis, mas necessárias.
É importante os pais dizerem aos filhos que camisinha é ruim?
Eu diria: é ruim, mas tem que usar. Filho, droga pode ser bom, mas vai te matar. Talvez os filhos criem mais confiança nos pais. É um discurso mais autêntico. Outra coisa que acho importante dizer aos filhos: acredite no que estou dizendo, no ensinamento. Se você for experimentar de tudo na sua vida, vai parar aonde?
O sr. sustenta a opinião de que é mais difícil o homem se contaminar do que a mulher?
Eu e a estatística. Quando falei publicamente sobre isso, em 1991, as pessoas me desaconselharam a manter a posição. E eu mantive. Não mudei uma palavra. Naquela época, a proporção de casos de Aids era mais ou menos de 40 homens para uma mulher. Se a taxa de aumento de homens fosse paralela à de mulheres, hoje teríamos muito mais homens infectados do que mulheres. Como é que agora essa proporção está mais ou menos de um para um ou duas mulheres para um homem? Porque a possibilidade de o homem se infectar com a mulher é muito menor do que a da mulher com o homem. É óbvio. Essa história, que me trouxe enormes problemas, hoje é confirmada. Aquilo que foi visto como preconceito, homofobia, na verdade era um alerta. Eu estava falando para as mulheres: previnam-se. Não achem que pelo fato de serem casadas vocês não possam pegar Aids.
Como os pais podem ajudar os filhos a se prevenir?
Esse é outro desafio. As famílias esperam que a informação venha da escola. Percebo uma enorme dificuldade na abordagem dos assuntos sexo e drogas, mas me coloco numa posição muito confortável porque as minhas dificuldades não foram menores.
Que histórias tem para contar sobre isso?
Quando a minha filha de 29 anos tinha 15, fiz um ciclo de palestras na escola dela. Ao falar para a classe dela, o tempo inteiro ela ficou conversando com uma amiga. Fiquei irritado. Acabou a palestra e eu fui metralhado de perguntas pela amiga dela, com quem ela conversava antes. No fim, perguntei para minha filha: que tanto você conversava? Ela me respondeu que tinha coisas para me perguntar, mas pediu à amiga para fazer isso. Baixei a bola e percebi que estava falando um monte de coisas, mas que havia um problema na minha própria casa. Outra história: meu filho, que tem 18 anos, aos sete descobriu uma camisinha. E me perguntou: pai, o que é isso? Respondi desconfortável. Para que serve? Tentei explicar. E o meu filho insistiu. Mostra como usa? Aí eu fui na cozinha e peguei uma banana. E ele disse: eu não quero ver com banana. Fiquei roxo. Foi uma dificuldade que não pensei que tivesse.
E como se pode iniciar o assunto de uma maneira menos desconfortável e impositiva?
A família precisa conversar. Mas trabalhamos muito, temos pouco tempo, o que cria distanciamento. Entendo que é difícil estabelecer uma forma de abordagem. Isso vai muito da maturidade do pai e da mãe, do convívio, da cumplicidade. Essa é a palavra-chave. Primeiro tem que aprender a conversar com o filho. E, antes, tem que aprender a ouvir. O grande truque é saber ouvir o que não está falado. Isso requer um treinamento. Humildade.
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"Não tem essa história de dois lados. Um lado já foi suficientemente condenado, assassinado, desaparecido"
Paulo Sérgio Pinheiro, integrante da Comissão da VerdadeRicardo
EM 07/12/2009 21:48:03
Ficou faltando mencionar a gradidez indesejada no qual afeta milhares de meninas adolescentes que perdem a infância e interropem os estudos abalando um futuro melhor.
Marcos Negrão
EM 07/12/2009 19:44:51
Dr. Uip, como sempre, inteligentíssimo e esclarecedor.
Leitor_1
EM 07/12/2009 18:55:53
Adolescentes se confidenciam mais com outros adolescentes. E absorvem muito mais rápido as informações passadas por outros da mesma idade. Por tem o conjunto de linguagem mais próximo. Não seria interessante treinar mais adolescentes para fazer campanhas de educação sexual e contra o uso de drogas?
Leonardo Lima
EM 05/12/2009 21:17:50
Concordo plenamente. Sou professor, e minha abordagem sobre o assunto com os adolescentes tem sido sempre essa: a droga é boa sim, quando a pessoa percebe o mal dela já é tarde para sair (experiência na minha família). Da mesma forma o sexo desprotegido - ótimo, mas não compensa. Parabéns pela luta!
CArlos
EM 05/12/2009 13:40:34
Eis aí uma afirmação que não concordo plenamente e o Dr DAvid sabe que tenho razão...ok camisinha evita Aids..até onde? Se houver sexo oral, já era a camisinha e os médicos sabem disso, mas se recusam a falar...todas as secreções corpóreas tanto do homem, qto das mulheres contém o vírus HIV!
