A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  2179 |  12.Ago.11 - 21:00 |  Atualizado em 23.Mai.12 - 01:26

Aguinaldo Silva

"As novelas estão dando muito espaço à perversão"

O autor afirma que os folhetins estão recorrendo gratuitamente à maldade e às mortes e, homossexual assumido, diz por que é contra o projeto de lei que criminaliza a homofobia

por Michel Alecrim

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EMERGENTE
"O (autor) Manoel Carlos impôs uma imagem próspera ao Leblon
com suas novelas. Minha ideia é fazer o mesmo com a Barra"

Nos últimos dias, o novelista Aguinaldo Silva tem passado quase 15 horas diante do computador, dando os toques finais nos personagens que criou para a próxima novela das 21h da Rede Globo, “Fina Estampa”, com estreia prevista para a segunda-feira 22. O folhetim irá debater um tema atual, a valorização exacerbada da aparência, e irá discutir até que ponto o visual é mais importante do que o caráter em uma pessoa. Autor de grandes sucessos, como “Senhora do Destino” (2004) e “Duas Caras” (2007), Silva desenvolverá sua nova trama na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, onde ele mora em um confortável condomínio fechado. Aos 67 anos, 33 dos quais na Globo, Silva é homossexual assumido e ex-militante da causa gay. Hoje, rechaça a onda do politicamente correto e não apoia o projeto de lei, em tramitação no Congresso Nacional, que criminaliza a homofobia. “Temo quando a gente começa a criar um excesso de leis. E sou contra tudo o que significa ter direitos porque você é inferior”, afirma o autor, que costuma mostrar sua língua ferina em comentários no blog e no Twitter.

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"A Record tenta desesperadamente fazer novelas como a Globo
e não consegue. Ainda vai ter que comer muito feijão com arroz"


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"Já fui vítima de preconceito. Mas só de pessoas que ganham menos do que eu.
Ouço comentários desagradáveis de balconistas. O povo é bem preconceituoso"

Istoé -

O sr. fala sobre aparência na próxima novela. Preocupa-se com a sua? Já fez plástica? 

Aguinaldo Silva -

A aparência é muito importante para mim, sou vaidoso ao extremo. Nunca fiz plástica, embora tivesse vontade. Temo os efeitos da anestesia geral na minha idade, mas o verdadeiro problema é que não estou encontrando tempo para isso.  

Istoé -

Por que centrar a trama na Barra da Tijuca?
 

Aguinaldo Silva -

O Leblon não era um bairro tão valorizado até que o (autor) Manoel Carlos impôs essa imagem próspera com suas novelas. Minha ideia é fazer o mesmo com a Barra, alvo de enorme preconceito, embora seja um dos melhores bairros do Rio. A Globo fez uma cidade cenográfica de 30 mil metros quadrados, a maior já feita pela emissora. Só uma das ruas terá 150 metros. 

Istoé -

O sr. foi benevolente com os milicianos retratados na novela “Duas Caras” (2007) e a milícia se revelou tão terrível quanto os piores bandidos. Arrependeu-se?
 

Aguinaldo Silva -

Não. O que aconteceu em “Duas Caras” é que o personagem do Antonio Fagundes não era o protagonista. O do Lázaro Ramos é que seria. Mas uma novela é uma obra aberta que segue as tendências do público, que, neste caso, caiu de quatro pelo personagem do Fagundes. Surgiu esse problema no decorrer da trama e eu não tinha como resolver. O coitado do Lázaro, por mais bonzinho que fosse, não tinha tanta simpatia do público, que preferia o mau, o miliciano. Mas claro que a imagem posterior da milícia ficou uma coisa tenebrosa. Não me arrependo porque foi a primeira vez que uma favela apareceu com tanta ênfase no horário nobre da tevê.
 

Istoé -

O sr. acredita na profecia de Macunaíma (lançado por Mário de Andrade em 1928), de um Brasil com heróis sem caráter?
 

Aguinaldo Silva -

Sim, o Brasil está pululante de Macunaímas: temos vários heróis sem o mínimo caráter. E o pior é que o povo acredita neles. Basta folhear a revista na qual você trabalha para encontrar todos eles lá, porque são notícia. Pelo lado ruim, mas são. Não vou, claro, citar nomes.
 

Istoé -

Como vê esses primeiros meses do governo Dilma? 

Aguinaldo Silva -

Acho que os acontecimentos recentes em Brasília provaram que ela está tentando enfrentar desafios, mas é difícil. Esses esquemas vêm de anos. Eu me lembro dessas figuras de outros carnavais, de outras acusações, de outros governos, e elas continuam lá. E afrontam a mídia. Acho que a Dilma está tentando, mas ela encontra várias dificuldades no caminho que a impedem de continuar. Espero que ela seja uma mulher de atitude como a Griselda (protagonista da próxima novela, uma mulher forte e honesta) e vá em frente.
 

Istoé -

O bom momento econômico do País vai entrar nessa novela?
 

Aguinaldo Silva -

Vai, mas da seguinte maneira: esse é o momento para os empreendedores, para quem tem uma ideia, uma vontade, uma vocação para lutar para que seu sonho se concretize. Uma coisa que me incomodou um pouco nas últimas novelas foi o excesso de perversões gratuitas. Por isso, quero que todos os personagens tenham ocupação, que trabalhem, estudem, tenham objetivos e ambições saudáveis. A gente está precisando um pouco desse otimismo neste momento. Não é essa coisa gratuita de mortes, de maldade pela maldade. Acho que as novelas estão dando muito espaço à perversão.
 

Istoé -

A concorrência com a Record fez a Globo mudar a maneira de fazer novela?
 

Aguinaldo Silva -

Acho que foi o contrário. A Record tenta desesperadamente fazer novelas como a Globo e não consegue. Porque foram anos e anos de prática e de investimentos. A Globo tem os melhores profissionais em todos os ramos. Vi a cidade cenográfica da minha próxima novela e fiquei impressionado: o Mario Monteiro (cenógrafo) é um gênio único. Na Record, não há ninguém que consiga fazer um décimo do que ele faz. Então a Record ainda vai ter que comer muito feijão com arroz.
 

Istoé -

O sr. já recebeu alguma proposta da Record?
 

Aguinaldo Silva -

Já. E era uma proposta tão absurda que eu fiquei com medo.
 

Istoé -

Por quê?
 

Aguinaldo Silva -

Minha mãe, dona Maria do Carmo Ferreira da Silva, dizia sempre que “cego quando vê esmola grande desconfia”. Achei que tinha alguma coisa errada na história. Preferi não me envolver. 

Istoé -

Era uma quantia muito superior ao seu salário? 

Aguinaldo Silva -

Era. Claro que no dia seguinte a Globo ficou sabendo, não sei como, disse que não tinha condições de cobrir uma proposta daquela e fez uma contraproposta, que achei interessante, e aceitei. Vale lembrar que estou na emissora desde 1978.
 

Istoé -

Por conta das polêmicas que suas opiniões no Twitter e no seu blog causam, pensa em mudar o tom e ficar mais light?
 

Aguinaldo Silva -

De jeito nenhum. Falo o que penso e vou continuar assim. Seria um crime deixar de formular minhas opiniões. Quando eu era jornalista nos anos 1970, era seguido sempre pelo mesmo Fusca da redação do jornal “Opinião” até a minha casa e não tinha medo. Por que teria agora? Só me preocupo em não dizer nada que denigra a vida pessoal das pessoas.
 

Istoé -

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito de casais homossexuais terem a união estável. O sr. chegou a pensar em se casar depois disso?
 

Aguinaldo Silva -

Não, ao contrário. Depois de passar toda a minha vida vendo como era a vida dos meus amigos heterossexuais casados, eu concluí que aquilo não era para mim. Nem pensar em casar. Foi uma conquista da cidadania, porque estabelece uma igualdade prevista na Constituição. O homossexual vivia um pouco na sombra. Agora, os direitos são iguais. 

Istoé -

Se essa decisão tivesse sido tomada quando o sr. era jovem, optaria por casar?
 

Aguinaldo Silva -

Nunca pensei nisso nem no tempo de “casável”. Agora estou prestes a fazer 68 anos. Preciso me casar com um enfermeiro...
 

Istoé -

Nas últimas décadas, o que mudou para os homossexuais?
 

Aguinaldo Silva -

O que mudou foi a visibilidade. Quando se veem as fotos da Parada Gay, dá para entender o que eu quero dizer. São milhares de pessoas na rua, inclusive famílias, que levam os filhinhos para ver os viados desfilando.
 

Istoé -

O sr. defende o projeto de lei que criminaliza a homofobia?
 

Aguinaldo Silva -

Temo quando a gente começa a criar um excesso de leis. Sou contra cotas, tudo o que significa ter direitos porque você é inferior. Acho que todo mundo tem que subir pelo mérito. Essa lei acaba sendo meio restritiva. Se você sai na rua com camisa em que está escrito “eu sou brancão”, você acaba sendo acusado de racismo. Se você sai com uma camisa “negão”, está tudo bem.
 

Istoé -

Já foi vítima de preconceito?
 

Aguinaldo Silva -

Já. Mas só de pessoas que ganham menos do que eu. Eventualmente ouço comentários desagradáveis de balconistas, por exemplo. Na verdade, o povo é bem preconceituoso. Mas existem vários tipos de preconceito. Contra negros, pobres, gordos e feios. Os gordos e os feios são até muito mais discriminados e nem por isso pensam em formar ONGs ou criar cotas.
 

Istoé -

A Susana Vieira não está em sua novela. Deixou de ser sua musa?
 

Aguinaldo Silva -

Ela fez duas novelas minhas seguidas. Depois fez a minissérie “Cinquentinha” e a série “Lara com Z”, que também foram escritas por mim. Não escrevo para atores. Primeiro penso na trama, depois penso nos personagens e depois nos atores. E dessa vez não havia um personagem na faixa etária dela e à altura dela. Não ia chamá-la para fazer um personagem secundário, porque a Susana tem de se destacar sempre. Pelo menos no que depender de mim. Ela está muito bem, linda. É um fenômeno da natureza. Os cientistas vão acabar tendo que estudar por que ela aparenta 30 anos a menos do que tem.
 

Istoé -

Assim como o sr. tem atores preferidos, há também alguns com os quais não trabalharia?
 

Aguinaldo Silva -

Nunca faria isso. Quem é profissional tem direito à instituição sagrada do trabalho.
 

Istoé -

A reapresentação da novela “Roque Santeiro”, da década de 1980, reacendeu a polêmica sobre a autoria da trama. Ainda há essa briga? 

Aguinaldo Silva -

Nunca houve briga. Escrevi 180 capítulos e o Dias Gomes fez cerca de 80. A questão está bem resolvida e tenho bom relacionamento com a família dele. 




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"As novelas estão dando muito espaço à perversão" O que ele quis dizer com isso ???? Até onde sei, as novelas dele tem muito disso ... Eu até o acho tão apelativo quanto Carlos Lombardi ... Já não é tão bom escritor ...


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