- A Semana > Editorial
- | N° Edição: 2121
- | 02.Jul.10 - 21:00
- | Atualizado em 21.Mai.12 - 19:16
"A TRAGÉDIA CONTINUA"
Eles ainda estão lá. Abandonados. Montando pontes improvisadas para fugir do isolamento. Chafurdando na lama. Catando comida no lixo. Enviados especiais registram famílias inteiras se alimentando de barro, porque é o que restou para comer em meio ao cenário de destruição absoluta. Com a demora do auxílio governamental, muitos moradores das áreas atingidas arregaçaram as mangas para tentar resolver a situação ao seu modo. Levantam abrigos entre destroços, nos mesmos locais onde estavam suas casas, hoje condenadas. Fazem ligações clandestinas na precária rede de energia elétrica. O risco de choque e curtos-circuitos é alto. Mas a ameaça a suas vidas está por toda parte para onde olham. São milhares de nordestinos nesse estado de desolação. A água em muitos dos municípios castigados de Alagoas e Pernambuco continua a subir. E o pior ainda pode estar por vir. As chuvas são normalmente mais intensas na região no mês de julho. O que estava debaixo de água e escombros segue escorrendo, tirando o fio de esperança dos que sobreviveram. A pergunta continua no ar: onde estão os candidatos a comandar o País que ainda não se instalaram de mala e cuia nas localidades mais afetadas para ajudar os desabrigados? O simples gesto de montar QGs de operação ali, compartilhando o drama das vítimas e lutando ao lado delas, faria toda a diferença. Chamaria a atenção geral para uma corrente de solidariedade mais ativa. Deslocaria parte dos holofotes da Copa na direção da ajuda a esses necessitados. Aceleraria o debate de propostas em um esforço conjunto e humanitário por saídas. Na semana passada, os presidenciáveis não se furtaram a aparecer em lugares públicos mostrando-se como fervorosos torcedores do Brasil do futebol. Nem ligavam para o barulho ensurdecedor das “vuvuzelas” a azucrinar seus ouvidos. O que importava era exibir o seu patriotismo no “País de Chuteiras”. Longe dali, não havia o que comemorar. O sofrimento de crianças desnutridas, bucho inchado de vermes, e de seus familiares desamparados, a gritar por socorro, soava apenas como uma imagem distante que teima em incomodar.
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