• A Semana > Editorial
  • |  N° Edição:  2103
  • |  26.Fev.10 - 14:50
  • |  Atualizado em 11.Fev.12 - 08:12

"O mensalão dos mensalões"

Carlos José Marques, diretor editorial

Cinco anos após o País tomar conhecimento das escabrosas histórias que envolviam o pagamento de propina para compra sistemática de apoio parlamentar – no escândalo que ganhou a alcunha de “Mensalão do PT” –, o processo para julgamento dos culpados chega a sua reta final. Repleto de provas, depoimentos surpreendentes e descrição detalhada do esquema operado pelo publicitário Marcos Valério, o processo constitui um verdadeiro compêndio do crime organizado na vida política nacional. A reportagem de ISTOÉ teve acesso com exclusividade aos 147 volumes, 173 apensos e 69 mil páginas do trabalho que dá base ao parecer do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal. Nesse relatório, novos fatos e personagens vêm à tona com papel decisivo na história. Fica-se sabendo, por exemplo, que o atual coordenador de campanha da ministra Dilma Rousseff, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel teria conduzido a remessa ilegal, via caixa 2, para o pagamento do publicitário Duda Mendonça no Exterior. Novas malas com dinheiro não contabilizado do PT aparecem e pagam despesas do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, como forma de “esquentar” os recursos. No material de Barbosa estão também os depoimentos inéditos de três ex-ministros – Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Aldo Rebelo (Coordenação Política) e Walfrido dos Mares Guia (Turismo) – apontando que o presidente Lula foi informado do Mensalão.

Como numa caixa de Pandora, o Mensalão do PT foi o primeiro a ser desvendado, mas não o único. Gênesis da praga, conhecido como o Mensalão dos Mensalões, deu origem à série. Na sequência veio o do partido tucano, PSDB, cujos documentos a revista ISTOÉ mostrou em primeira mão e que teve por desdobramento a demissão do então ministro Mares Guia. Agora em cartaz está, para desgosto dos brasileiros, o Mensalão do DEM, que pela primeira vez na história da República levou um governador, José Roberto Arruda, do Distrito Federal, às grades. O esquema dos mensalões é uma praga abominável que dominou o poder. Não possui filiação partidária única, controlou vários matizes, à esquerda e à direita, e, por isso mesmo, deve ser extirpado de uma vez com punições exemplares. Se na classe política ele pode ser entendido como algo corriqueiro e natural, dado que lá vicejou o conveniente conceito do “todo mundo faz”, no Judiciário a prática parece estar tendo a resposta que merece. Depois do encarceramento de Arruda, o ministro Joaquim Barbosa, com o material que detém em mãos, pode estabelecer um marco na luta contra a impunidade.

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