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  BRASIL 24/03/2004
Governo  

O dilema de Palocci
Ministro da Fazenda busca sair da agenda negativa vendendo a possibilidade de crescimento econômico já

Fernando Maooso/EFE
Reação: denúncia contra ex-assessor Buratti (à dir.) respinga em Palocci, que vai a Londres pedir a Brown apoio para mudança no FMI

Sônia Filgueiras e Weiller Diniz

O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, chegou a Londres na quinta-feira 18 com a cabeça no bombardeio que o atingia do outro lado do Atlântico. Protegido pela distância entre o Lago Paranoá e o Rio Tâmisa, Palocci usou toda a sua habilidade para responder à saraivada de mísseis que tentam acertar o alvo na política econômica e até na sua imagem, a partir das denúncias envolvendo um ex-assessor da Prefeitura de Ribeirão Preto. Na capital inglesa, Palocci também agiu para ganhar o apoio dos ingleses às propostas de mudanças no FMI, durante encontro com o seu colega Gordon Brown. O ministro brasileiro saiu sorridente da conversa, afirmando que o companheiro britânico foi “muito positivo” e demonstrou interesse nas idéias trazidas por Palocci. O ministro carregou na bagagem um pesado dilema: precisa fazer o avião da economia decolar o mais rápido possível para evitar que acusações possam enfraquecê-lo, como aconteceu com o capitão do time, José Dirceu (Casa Civil). Mas mesmo sob tiroteio cerrado, Palocci manteve o seu habitual bom humor. Ao quebrar o silêncio, na capital inglesa, ele defendeu a sua política econômica, respondeu aos ataques e fez da própria situação uma piada: “Ao contrário do ministro da Fazenda do Brasil, que está à direita do presidente, o Gordon Brown está à esquerda do primeiro-ministro (Tony Blair).” Palocci se referia ao cerco aliado promovido pela esquerda petista, que o acusa de ter pendido para o neoliberalismo.

Recentemente, seus críticos ganharam apoios insólitos: o presidente do aliado PL, Valdemar Costa Neto (SP), chegou a pedir a demissão de Palocci e a mudança nos rumos econômicos em pleno Planalto, antes da posse do ministro dos Transportes, o ex-prefeito de Manaus Alfredo Nascimento (PL). “O presidente tem que trocar Palocci por alguém que tenha competência no cargo. Palocci tem competência para ser prefeito de Ribeirão Preto, não para ser ministro de um país como o nosso”, trovejou. No fundo dessa crise, mais uma briga pelo poder que atiça os aliados às vésperas da eleição. Valdemar estava contrariado por não ter nomeado diretores da CEF e do Banco do Brasil, vinculados à Fazenda. Para arrefecer a ira de sua base, o governo prometeu abrir o orçamento para as estradas, anunciou projetos para o Nordeste e sinalizou para a retomada da redução gradual dos juros, dando um corte de 0,25% na taxa básica de juros do Banco Central.

A agenda positiva foi chamuscada pelo projétil amigo do PL e pelas denúncias envolvendo um novo personagem petista na série de acusações que paralisam o governo há mais de um mês. Entrou
em cena agora o ex-secretário de Governo de Palocci na prefeitura
de Ribeirão Preto (1993-1996), Rogério Buratti. Ele é investigado pela Polícia Federal por ter sido – segundo acusações de diretores da Gtech (administradora das loterias da Caixa Econômica Federal) – indicado
pelo ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz para uma consultoria milionária em troca da renovação do contrato entre a empresa e a CEF no governo Lula. Buratti é um homem da turma do PT há anos. Em 1987, assessorou o então deputado estadual José Dirceu na Assembléia Legislativa. Em 1991, Buratti passou a trabalhar, na liderança do PT, com outro deputado estadual, com o qual fundou o partido em Osasco, João Paulo Cunha, hoje presidente da Câmara dos Deputados. Buratti subiu mais degraus na pirâmide petista ao trabalhar com Palocci na Prefeitura de Ribeirão. Foi demitido pelo então prefeito em 1994, ao ser flagrado negociando com um empreiteiro vantagens em uma licitação municipal. Mas não perdeu o amparo dos petistas. Em 1995, migrou para o gabinete de João Paulo em Brasília. Mas a relação de Buratti com o PT não se restringe ao emprego. Até 1998, foi sócio do atual chefe de gabinete de Palocci, Juscelino Dourado, em uma empresa de informática. Em maio de 2002, Buratti, como diretor de uma empresa, posava ao lado de Palocci na Prefeitura de Ribeirão.

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