| ARTES
& ESPETÁCULOS |
24/03/2004
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| Livros |
Memórias do medo
Coleção Vozes do golpe e
uma série de lançamentos passam em revista a tomada do poder pelos
militares
Luiz
Chagas
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Scliar:
relato do fim de um amor e das confissões da mãe de
um ativista político |
O que os brasileiros estavam fazendo no dia 31 de março
de 1964? Para responder a esta pergunta aparentemente simples, quatro
observadores privilegiados da história recente do País
– os escritores Carlos Heitor Cony, Moacyr Scliar, Luis Fernando
Verissimo e Zuenir Ventura – escreveram os libretos da coleção
Vozes do golpe (Companhia das Letras, 336 págs.,
em quatro volumes, R$ 41), que acaba de chegar às livrarias.
O lançamento vem acompanhado de outras leituras urgentes.
Quatro décadas após o golpe que instaurou o regime
militar no País, calando suas vozes mais expressivas entre
1964 e 1985, uma espécie de revanche toma conta das livrarias
com a publicação de textos que procuram jogar um pouco
de luz sobre esse período obscuro. Na esteira do painel em
cinco volumes elaborado pelo jornalista Elio Gaspari, dos quais
já foram lançados o díptico As ilusões
armadas (A ditadura envergonhada e A ditadura escancarada)
e o primeiro volume do tríptico O sacerdote e o feiticeiro
(A ditadura derrotada), pelo menos uma dezena de títulos
sobre o assunto chega ao mercado.
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| Verrissimo:
narrativa da obsessão de um homem em achar o cativeiro em que
foi mantido preso |
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Entre eles destacam-se as biografias do presidente deposto, Jango,
um perfil (1945-1964) (Editora Globo, 288 págs., preço
a definir), de Marco Antonio Villa, e a de seu sucessor, Castello
– a marcha para a ditadura (Editora Contexto, 432 págs.,
R$ 43,90), de Lira Neto. Além do fundamental Visões
do golpe – a memória militar de 1964 (Ediouro,
260 págs., R$ 32), de Maria Celina D’Araújo,
Gláucio Ary Dilon Soares e Celso Castro, originalmente lançado
em 1994 e elogiado pelo próprio Gaspari, que deve finalizar
o quarto volume de sua obra em junho. Na mesma linha, a edição
atual da revista Nossa história (Biblioteca Nacional/
Editora Vera Cruz, 98 págs., R$ 6,80) traz um dossiê
com cinco reportagens escritas por especialistas sobre os antecedentes
do golpe. O envolvimento da Marinha é reavaliado em Vozes
do mar – o movimento dos marinheiros e o golpe de 1964 (Cortez
Editora, 280 págs., R$ 38), de Flávio Luis Rodrigues,
e Trajetória rebelde (Cortez Editora, 208 págs.,
R$ 28), de Pedro Viegas, cujos autores são marinheiros presentes
nos acontecimentos.
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Ventura:
a bordo de um fusca em direção a Brasília |
Em meio à enxurrada de dados, datas e testemunhos, a série
Vozes do golpe confere um pouco de humanidade àquele
momento lembrado com tanto pesar. Enquanto o carioca Carlos Heitor
Cony e o mineiro Zuenir Ventura partem da situação
real – onde estavam?, o que faziam?, como se sentiram? –
para descrever o turbilhão que foi a passagem do dia 31 de
março para o 1º de abril, os gaúchos Moacyr Scliar
e Luis Fernando Verissimo se valem da ficção para
transmitir o desconforto experimentado. Em Mãe judia,
1964, Scliar entremeia o fim de um caso de amor com o relato
da enlouquecida mãe de um ativista político, “depoimento”
transcrito de fitas gravadas pelo microfone oculto em uma imagem
de Nossa Senhora, diante da qual a velha se confessava em voz alta.
A obsessão de um homem em encontrar o cativeiro em que foi
mantido é transformada por Verissimo em A mancha,
na fria descoberta da sobrevivência do status quo.
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| Cony:
com o poeta Drummond no Forte de Copacabana |
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Curiosamente, Cony e Ventura, apesar de serem jornalistas atuantes
na época, estiveram à margem dos fatos. Em Um
voluntário da pátria, o mineiro conta que passou
os três dias que antecederam o golpe fazendo a viagem Rio–Brasília
apertado em um fusquinha junto com a mulher, Mary, grávida,
e a amiga Maria Luiza. O trio viajara para assumir um posto na “universidade
do Darcy”, em uma referência a Darcy Ribeiro, chefe
da Casa Civil de Jango, ambos às vésperas da deposição.
O jornalista preenche as dúvidas e a sensação
de vazio com dados que recolheu de 1964 para cá, incluindo
passagens hilariantes com Ribeiro. Já Cony, em A revolução
dos caranguejos, confessa que convalescia de uma operação
de apendicite quando saiu pela primeira vez de casa, no dia 31,
levado pelo poeta e amigo Carlos Drummond de Andrade. Juntos assistiram
à tomada do Forte de Copacabana pelos rebeldes contra João
Goulart, o que lhes pareceu pouco mais que uma pantomina. De volta
à redação do Correio da
Manhã, os textos de Cony logo seriam tachados de comunistas
pelos militares e de alienados pela esquerda, o que o fez ser perseguido
por seguidores de ambas as ideologias. A hard day’s night,
que acabava
de surgir na voz dos Beatles, foi a última música
que ouviu a caminho
do hospital, sentindo que os jovens começavam a assumir uma
outra espécie de poder. Mas, para a maioria, era o início
de uma verdadeira noite de um dia difícil.
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