| ARTES
& ESPETÁCULOS |
24/03/2004
|
 |
| Cinema |
Curva crescente
Festival É Tudo Verdade aponta para
a profissionalização
do gênero documentário
Paula
Alzugaray
| |
 |
| |
Do
outro lado do Rio, de Bambozzi: pesquisas narrativas
da videoarte |
Embora o aniversário de dez anos
do Festival Internacional de Documentários É Tudo
Verdade só aconteça em 2005, seu diretor, o crítico
Amir Labaki, já começou a comemorar. Motivos não
faltam e o principal deles é a constatação
do crescimento concreto da produção do gênero
no Brasil. Criado em 1996, o festival é o primeiro demonstrativo
disso. Naquele ano, a organização apurou 50 títulos
produzidos em território nacional. Nessa nona edição,
que acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo
entre 25 de março e 4 de abril, e em Brasília entre
6 e 11 de abril, a safra nacional inscrita foi cinco vezes maior.
Fundamental para a projeção de realizadores como João
Moreira Salles, que venceu em 1999 com Notícias de uma
guerra particular, ou Paulo Sacramento, de O prisioneiro
da grade de ferro, vencedor em 2003, o É Tudo Verdade
agora serve de plataforma para novíssimas pesquisas narrativas
de nomes surgidos da videoarte, entre eles, Cao Guimarães,
Carlos Nader e Lucas Bambozzi.
Na visão de críticos e cineastas, como Ricardo Miranda,
o documentário sempre foi um gênero marcante no Brasil.
“O cinema brasileiro nasce documental. O primeiro registro
feito no País é do imigrante italiano Pascoal Segretto,
que filma a Baía de Guanabara, em 1898”, observa Miranda,
que apresenta na mostra O Estado das coisas o filme Descobrir, um
cruzamento de diferentes representações da história
nacional. Mesmo que a trajetória do cinema brasileiro tenha
sido pontuada por grandes documentários, a adesão
do público em salas de cinema é fenômeno recente.
Pela primeira vez, três deles ficaram entre as dez maiores
bilheterias do ano: Nós que aqui estamos por vós
esperamos , em 1999; Janela da alma, em 2002; e Surf adventures,
em 2003.
Os papéis protagonistas nesta retomada do cinema e do vídeo
documental são creditados à televisão –
parceira histórica, desde o
Globo Shell nos anos 70 – e ao festival, que este ano está
movimentando R$ 700 mil e exibindo quase 100 títulos. No
programa figuram estrelas como o britânico Kevin Macdonald,
que pesquisa as fronteiras com a ficção em Touching
the void, uma reconstituição da traumática
escalada de alpinistas britânicos aos Andes peruanos. “Macdonald
prossegue sua experiência com o que chamo de thriller-documentário,
da mesma forma que 33, de Kiko Goifman, em cartaz nos cinemas, é
uma tentativa de documentário-noir”, diz Amir Labaki,
desde novembro passado um dos quatro membros do conselho do Festival
de Amsterdã, o mais importante da categoria. Há ainda
no festival veteranos como o americano Frederick Wiseman, opositor
do “documentário-evento” de Michael Moore.
Calcula-se hoje no Brasil uma média anual de 15 produções
nacionais
em salas de cinema, mas foi nas tevês a cabo que o documentário
conheceu expansão real. “Isso ampliou a janela para
a produção
não-ficcional no mundo”, diz Labaki. Segundo Francisco
César Filho, integrante do comitê de seleção
do É Tudo Verdade, o documentário se encontra em um
esquema mais profissional que a ficção. “Os
diretores viabilizam a produção e a veiculação
de uma tacada só”, diz. Para a classe documentarista
como um todo, lucro ainda é ficção. Mas, considerando-se
as inúmeras áreas de atuação documental
– da psicanálise ao esporte –, as emissoras abrem
frentes de veiculação.
Dá para imaginar o alcance do gênero se o desempenho
das tevês
por assinatura no Brasil tivesse correspondido à expectativa
inicial
de dez milhões de assinantes.
|