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 ENTREVISTA
24/03/2004
José Genoino
O equilibrista

Presidente do PT diz que partido tem direito de criticar ações do governo, mas prevê fase de crescimento econômico com Lula

Florência Costa

  Alan Rodrigues

Depois de passar 20 anos no Congresso, como deputado federal do maior partido de oposição, José Genoino assumiu a espinhosa missão de dirigir o PT no momento em que o partido deixou de ser estilingue para virar vidraça. Bem-humorado, apesar da avalanche de problemas que despejam sobre o PT e o governo do presidente Lula, Genoino defende enfaticamente os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antônio Palocci (Fazenda), ambos alvos de ataques. Diz que sua missão é dirigir o partido do governo, mas com autonomia. Segundo Genoino, Lula entende mais do que todos os papéis do partido e do governo, que têm dinâmicas diferentes. Para o presidente do PT, o País começa agora um novo ciclo de desenvolvimento, com iniciativas do governo como investimentos em construção civil, saneamento e habitação, que geram empregos. Em sua sala, na sede nacional do partido, no centro de São Paulo, Genoino admitiu que o seu partido exagerou no passado, mas critica tucanos e pefelistas que, segundo ele, estão “aprendendo mal a lição de ser oposição.”

ISTOÉ – Depois de 24 anos de estilingue como é ser vidraça?
José Genoino –
Eu gosto muito. Estou preparado para ser vidraça. Querer governar o Brasil sem ser vidraça é uma ilusão. Estou muito feliz de o País estar sendo governado pelo PT. Ainda não atingimos tudo o que nós queremos, mas é uma luta, um compromisso. Quem sempre governou vai bater na gente. Tem um setor que não aceita o PT governar o Brasil. É a direita, o conservadorismo, um setor que pensa o seguinte: ou a gente tem que enquadrar esses caras ou esses caras tem que ser derrotados o quanto antes. O PT não pode nem ser atrevido o suficiente para desafiar tudo, nem pode ser muito dócil e abaixar a cabeça diante de tudo. Temos que buscar o meio termo.

ISTOÉ – Como é presidir o PT num momento de inferno astral?
Genoino –
Ao governar o Brasil, o PT experimentando o lado perverso e dramático da política, e aprende. O PT é a coluna vertebral desse governo, sustentou e vai sustentá-lo nos bons e nos maus momentos. Mas o PT tem também a responsabilidade de sugerir, de reivindicar e de negociar com o governo. A dinâmica do governo é uma e a do partido é outra. Temos cinco objetivos estratégicos para mudar o Brasil. O primeiro é crescer economicamente, com geração de emprego, renda e inclusão soberana no mundo. O segundo objetivo é a inclusão das pessoas, daí a importância dos programas de transferência de renda. O terceiro é avançar na democratização das instituições e das relações sociais. O quarto é ter um poder público republicano que articule a relação entre a esfera privada e esfera pública. E o quinto objetivo do PT é recuperar a auto-estima e o sonho dos brasileiros.

ISTOÉ – Mas avançou mesmo? Não está devagar quase parando?
Genoino –
Não estamos parados e os indicadores mostram isso. Nós estamos recuperando os instrumentos de políticas públicas. A matriz energética, o Projeto de Parceria Público Privado (PPP), os investimentos privados que estamos atraindo para as obras de infra-estrutura, tudo isso já está em curso. Organizamos o Brasil em 2003. Isso foi necessário devido às debilidades e às vulnerabilidades econômicas que encontramos no País. Por isso que agora a gente entra no novo ciclo, que é o do desenvolvimento econômico e social. No final do trimestre de 2003 já iniciamos uma fase de recuperação da economia, com 1,5% do PIB. Temos que fazer algo mais do que governar os juros, o câmbio e o ajuste fiscal. Eu não estou propondo confronto com o câmbio, com o ajuste nem com os juros. Eu estou propondo algo mais. Não é desfazer o que está sendo feito, é fazer mais do que está sendo feito.

ISTOÉ – O governo já deu pontapé nessa direção?
Genoino –
Eu acho que o governo já começou a dar sinais com os programas de saneamento, habitação popular e construção civil. Vamos ter neste ano em torno de R$ 8 bilhões de investimentos nessas áreas. Somando os programas de transferência de renda com a unificação
dos programas sociais, o Bolsa Família, mais o Fome Zero, vamos atingir um número muito maior de pessoas neste ano de 2004. Vamos chegar a R$ 12 bilhões de investimento em microcrédito neste ano.

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