| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
26/03/2003
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Euro
ameaça dólar
Bush chacoalha o mundo para manter
o padrão dólar
e se apossar do petróleo iraquiano |
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também:
Hélio
Contreiras
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Há muita coisa no ar, além dos mísseis de
última geração que voam em direção
ao Iraque. Em cada um dos mísseis disparados pelos Estados
Unidos vai o desespero do governo americano diante da possibilidade
de que a Organização dos Países Exportadores
de Petróleo abandone o padrão dólar e adote
o euro em suas transações internacionais. A tragédia
(para os americanos) seria catastrófica. O dólar despencaria,
possivelmente com uma desvalorização de 20% a 40%.
O prosseguimento da valorização do euro fortaleceria
a fuga de investimentos dos EUA, já que a taxa de juros paga
no país, em dólar, seria corroída pela desvalorização
diante do euro. É bom lembrar que os Estados Unidos precisam
de US$ 1,5 bilhão de dólares diários de investimentos
externos para cobrir o seu atual imenso déficit, o maior
do mundo, de US$ 450 bilhões, o que representou no ano passado
um déficit da balança de pagamentos de 4,3% do PIB
(a previsão para este ano é de um rombo de 4,6%, enquanto
as previsões para a área do euro são de um
superávit de 0,5%). Só no último ano, o dólar
caiu 20% em relação ao euro – o que é
mais do que suficiente para balançar a hegemonia da moeda
americana no mundo. Esse processo, segundo analistas, assinala os
primeiros sucessos do euro – que poderia chegar a US$ 1,80
– como moeda de troca e refúgio mundial.
O Iraque trocou o dólar pelo euro em novembro de 2000,
quando a moeda européia valia US$ 0,80, fortalecendo a expectativa
de que a Opep seguiria o mesmo caminho. Caso isso ocorra, os EUA
teriam de comprar euros para importar petróleo, vendendo
maciças quantias de dólares no mercado internacional,
derrubando a cotação de sua moeda e valorizando drasticamente
o euro. Os bancos centrais dos diversos países seriam também
obrigados a converter suas reservas internacionais em euros para
poder importar petróleo, e o mito do dólar forte cairia
completamente por terra.
Recentemente, vários países começaram a trocar
os dólares de suas reservas internacionais por euros, como
a China e o Irã (que trocou a maioria de suas reservas pela
moeda única européia). Integrantes do governo russo
cogitam fazer o mesmo. O que ocasionaria a desvalorização
do dólar e a valorização do euro (devido à
velha lei da oferta e da procura), ainda mais incentivada pelo estouro
da “bolha” das falsas expectativas de lucros das empresas
americanas em 2002. Com a credibilidade da moeda americana em baixa
e o surgimento de uma nova moeda aceita em trocas internacionais,
os investidores estão deixando os EUA e se dirigindo à
Europa.
A decisão do Iraque de trocar o dólar pelo euro,
segundo especialistas, teria selado seu destino. Foi o começo
da guerra que hoje assombra o planeta. Isso, segundo o professor
de história, assessor comissionado do Senado e estudioso
da questão Said Barbosa Dib, “se analisado por aqueles
que conhecem os problemas estruturais do sistema Breton Wood (conferência
de 1944, quando o dólar passou a ser a moeda universal) e
as atuais limitações energéticas dos americanos,
coloca em dúvida a atual hegemonia do dólar no mundo
e explica a razão pela qual a administração
Bush quer, desesperadamente, um regime servil na histórica
Mesopotâmia”.
“Hoje, o dólar já é uma batata quente
nas mãos dos grandes investidores”, escreveu o professor
doutor Mário Maestri, da Universidade de Passo Fundo, no
Rio Grande do Sul. Em sua análise, a transferência,
mesmo parcial, das reservas da Arábia Saudita, China e Rússia
do dólar em euro valorizado iniciaria movimento de troca
mundial dos bilhões de dólares emitidos nas últimas
décadas sem cobertura, com consequências gravíssimas
para a moeda americana. Outro estímulo à ira do presidente
americano é o fato de que a zona do euro tem uma fatia maior
do que os EUA no comércio mundial e é a principal
parceira do Oriente Médio. “Quase tudo o que se possa
comprar com dólares pode-se comprar também com euros,
exceto o petróleo – por enquanto”, diz
o professor Said Dib. “E é aí que está
a principal razão da
resistência francesa e alemã à guerra.”
Para a Organização dos Países Exportadores
de Petróleo (Opep), a conversão do dólar para
euro significaria imediata valorização de seus ativos.
“Seria uma grande jogada estratégica”, diz o
professor Dib. “Eles poderiam, em algum momento posterior,
mover-se para outra divisa e obter mais uma vez enormes lucros.”
Bush quer manter o padrão dólar e se apoderar das
imensas reservas petrolíferas iraquianas. O plano é,
depois de conseguir tirar Saddam
do poder, colocar no governo do Iraque gente de sua confiança.
Assim, os EUA – que abrigam 6% da população
e detêm 50% da riqueza do planeta – controlariam a segunda
maior reserva de petróleo do
mundo (a da Arábia Saudita é a maior). É o
sonho megalomaníaco
de Bush que assusta até americanos.
| Banco
Central apresenta suas armas: as taxas de juros podem
subir a qualquer momento. A decisão foi tomada
na reunião do Comitê de Política
Monetária, encerrada na quarta-feira 19, horas
antes dos primeiros ataques a Bagdá. Os juros
foram mantidos no patamar de 26,5%, só que agora
com o chamado viés de alta. O resultado da reunião
dá o tom da preocupação do governo
com a guerra. Nem a menor pressão inflacionária
e a relativa calma no câmbio fizeram com que os
juros caíssem. O fator guerra falou mais alto.
Há quem diga que o ano de 2003 já está
perdido em termos de crescimento econômico para
o Brasil. E que o conflito torna essa situação
irreversível.
O consolo é que, ao contrário do ano passado,
a tendência é de
que no segundo semestre as expectativas sejam de melhora
e não
de piora, como ocorreu em 2002. O secretário
de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda,
Otaviano Canuto, assume
um tom tranquilizador. “O máximo que a
guerra pode trazer é uma melhora mais lenta nos
indicadores econômicos. Mas ela não muda
a tendência de melhora”, afirma. Canuto
confirma que a posição da área
econômica é de prudência, manifestada,
por exemplo, na antecipação do saque de
US$ 4,1 bilhões do empréstimo do FMI.
“Procuramos dispor do mais amplo arsenal de instrumentos.
Por enquanto, consideramos que já retiramos os
instrumentos suficientes da caixa de ferramentas”,
explica. Em geral, os mercados financeiros ao redor
do mundo reagiram bem aos dois primeiros dias de ataques.
Mas qualquer movimento fora do roteiro original traçado
na Casa Branca pode implantar o pânico nas cotações.
Sônia Filgueiras
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