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 ENTREVISTA
26/03/2003
O exemplo como arma
José Vicente, presidente da Afrobras, acha que valorização do negro depende da visibilidade e de um maior poder aquisitivo

Ines Garçoni e Ramiro Alves

Alan Rodrigues
 

Em outros tempos, os negros brasileiros não tinham o que comemorar no Dia Internacional da Luta Contra a Discriminação Racial, em 21 de março. Mas, sob uma perspectiva mais otimista, este ano já deu muitas alegrias ao movimento negro do País. Quem diz isso é José Vicente, presidente da ONG Afrobras, feliz com os quatro ministros negros do governo Lula e com a possível nomeação de um negro para o Supremo Tribunal Federal. “A visibilidade é importante. Estas pessoas servem de exemplo para os que estão no tráfico”, diz ele, cuja própria história poderia servir de estímulo e inspiração para outros negros. Ainda criança, o caçula de uma empregada doméstica trabalhou como bóia-fria em Marília (SP), onde nasceu, mas a dedicação aos estudos fez dele soldado, advogado e, mais tarde, sociólogo. Hoje delegado de polícia, atuando no Capão Redondo, uma das regiões mais pobres da capital paulista, José Vicente está à frente da Afrobras, sem verbas do governo, lutando para aumentar o número de negros nas universidades brasileiras. Fundada em 1995, a Afrobras bate na porta das particulares atrás de bolsas de estudo. “Elas fazem isso por ene motivos, para ficar bem na mídia, não interessa. Mas tem lá nossos bolsistas. É uma troca justa”, diz o pragmático José Vicente. Com sede em São Paulo e escritórios no Rio de Janeiro, Salvador, Piracicaba e Barretos, a ONG mantém 300 alunos, que em troca do benefício dão aulas em suas comunidades. Mas a verdadeira obsessão da Afrobras é inaugurar uma faculdade de negros para negros. A Universidade Zumbi dos Palmares, que abrirá as portas no próximo ano, deve contar com o valioso apoio da Fundação Coca-Cola, sediada nos EUA, onde o reverendo Jesse Jackson representa a ONG brasileira. “A Coca-Cola quer investir por uma questão mercadológica: nós, negros, podemos passar a tomar Pepsi. É negócio”, diz. Segundo ele, o racismo não tem solução, mas a inclusão do negro no mercado consumidor faz com que, pelo menos, ele seja respeitado.

ISTOÉ – Como a Afrobras vê as perspectivas
para o negro com Lula?
José Vicente
– O fato mais extraordinário é a disposição para encarar
o problema. Há dez anos vivíamos a ilusão de que no Brasil não tem preconceito, que temos uma democracia racial. Baseados nisso, passávamos por cima de todos os problemas que dizem respeito ao negro, partindo do pressuposto de que ele se resumia à questão social: “Pobre é assim mesmo e não tem jeito.” De dez anos para cá, finalmente, a sociedade admitiu que é racista, sim. Descobrimos que é impossível
um país ser uma nação democrata se estiver capenga. Uma perna do Brasil, os brancos, anda bem. A outra, os negros, manca, está excluída. A partir da descoberta de que somos racistas, precisamos agir. A
solução não virá a curto nem a médio prazo. Afinal, estamos falando
de 400 anos de escravidão.

ISTOÉ – Como está a situação do negro no Brasil hoje?
José Vicente
– Nos últimos dez anos, de maneira paulatina, estão
se criando alicerces que permitem a discussão mais ampliada do tema
e a produção dessas primeiras medidas, que podem fazer a inclusão social do negro. Isso eu atribuo ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que desnudou a situação. Em 13 de maio de 2002, FHC
instituiu o Programa Nacional de Ações Afirmativas. Aí é que se vê a demagogia, foi no último ano de governo dele. Parece que chegou o
13 de Maio, não tinha o que apresentar e decidiram fazer um decreto. Mas, guardadas as proporções, não existe diferença nenhuma entre isso e o que fez o governo americano em 1962. É uma legislação federal determinando ações. Depois disso, vieram as quatro portarias dos ministérios da Reforma Agrária, Justiça, Cultura e Saúde, determinando 20% de negros nos cargos comissionados.

ISTOÉ – Mas foi a iniciativa do ministro Marco Aurélio de Mello,
de adotar as cotas nas contratações do STF, que fez o antigo governo acordar...
José Vicente
– Sem dúvida. A postura dele foi um divisor de águas. Depois que o presidente da Suprema Corte disse “somos racistas e medidas para a inclusão do negro são justas e legais”, o que mais se vai questionar? Toda a discussão sobre cotas sempre foi ilegal, imoral ou engordava. Para os negros, nada, porque a “Constituição não permite”. Aí vem o presidente do STF e diz: “Permite, sim, e temos que fazer.”

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